Formando uma coleção de filmes e programando no futuro: o destino de filmes estrangeiros nos arquivos diante da mudança do formato de 35mm para DCP na distribuição cinematográfica. [1]

 

Collection Building and Programming in the Future: the fate of non-national films in archives in light of the change from 35mm to DCP in theatrical distribution. [2]

Jon Wengström[3]

Tradução de Luciana Corrêa de Araújo e Mateus Nagime

Para a maioria dos arquivos nacionais ligados à FIAF, cuja missão também inclui acesso às suas coleções por meio de exibições constantes, uma parte vital de seus acervos sempre foi constituída de cópias de títulos estrangeiros, adquiridas principalmente por meio de depósitos voluntários, uma vez expirados os direitos de distribuição. Na verdade, o número de títulos de filmes estrangeiros costuma exceder o número de títulos nacionais nestas coleções. Filmes estrangeiros constituem uma parte importante da memória cinematográfica nacional, já que a existência e as exibições destes filmes fazem parte da cultura visual de uma nação e algumas vezes exercem sobre espectadores, acadêmicos e futuros diretores uma influência ainda maior do que os filmes nacionais.

Se nos anos 1950 Godard, Truffaut, Chabrol et al tivessem apenas contato com os filmes de Carné, Duvivier, Grémillon e outros cineastas franceses, acredito que a Nouvelle Vague teria sido muito diferente. É impossível imaginar Acossado sem Godard tendo tido acesso aos filmes clássicos norte-americanos. A atual transição da projeção analógica para a digital no circuito comercial significa que dentro de algum tempo nenhuma cópia em 35mm de filmes novos será exibida nos cinemas; em vez disso, os filmes serão lançados no formato DCP. E é muito pouco provável que os arquivos continuem a receber DCPs de filmes estrangeiros sob a forma de depósitos voluntários.

A transição para o digital, como sabemos, nos afeta profundamente enquanto arquivos. Ao mesmo tempo em que devemos manter o conhecimento e os equipamentos necessários para tratar e lidar com os filmes analógicos que já possuímos em nossas coleções, temos que adquirir novos conhecimentos e investir grandes recursos financeiros a fim de preservar a memória digital do futuro. Por razões evidentes, o foco desta mudança tem sido a produção nacional, já que os materiais originais produzidos na maioria dos países não serão preservados em outros locais. Na minha instituição, as Coleções do Acervo Fílmico do Instituto Sueco de Cinema, nos primeiros meses de 2012 estivemos muito ocupados instalando toda uma infraestrutura para lidar com os materiais digitais, nos formatos DCDMs e DCPs [4], trazidos para o arquivo por produtores suecos. Recentemente nós mudamos as especificações contratuais entre os produtores de filmes e o Instituto Sueco de Cinema, para regulamentar o depósito legal obrigatório de materiais de preservação de maneira a incluir materiais de cinema digital. (Produtores que recebem subsídios do Instituto Sueco de Cinema – que não é somente a instituição-chefe do arquivo mas também a agência financiadora dos filmes – são obrigados a depositar certos materiais no arquivo a fim de receber subsídio completo e solicitar financiamento para futuros projetos). Agora estamos nos concentrando nas negociações com os maiores detentores de direitos para levar adiante nosso projeto de criar DCPs do nosso acervo em película de filmes suecos, algo que precisamos fazer se quisermos que os filmes nacionais que possuímos estejam disponíveis para exibição em outras salas além daquelas ligadas aos arquivos.

Nós estamos nos reunindo com os principais detentores de direitos para discutir seu acesso – e nosso próprio uso – ao material digitalizado. É portanto também fundamental, nesses tempos de transição, garantir os depósitos voluntários de filmes estrangeiros. Idealmente, nós gostaríamos de receber DCPs não criptografados de todos os filmes estrangeiros lançados na Suécia, número que geralmente fica em torno de 200 a 250 títulos por ano. No outono de 2011, fomos procurados pelo escritório local da Fox em Estocolmo para saber se gostaríamos de receber DCPs de duas produções hollywoodianas que eles haviam lançado somente em formato digital. O que eles nos ofereceram eram DCPs criptografados, que nós recusamos, tomando por base as diretrizes estabelecidas pela Comissão Técnica da FIAF nas Recomendações sobre depósito e aquisição de materiais de cinema digital para preservação e acesso a longo prazo [5]. Em resposta, a Fox declarou que não poderia depositar DCPs que não fossem criptografados. Acredito que essa será a norma para a maioria das distribuidoras suecas de filmes estrangeiros, e não temos nenhum meio legal de obrigá-los a agir de maneira diferente. Meu receio é que isso implique em não recebermos mais, no futuro, materiais de filmes estrangeiros em nossas coleções, o que será uma grande mudança para nós e de certo modo irá alterar nossa identidade.

Em relação aos filmes de grande lançamento nas salas suecas, acredito que nossos programadores do futuro terão acesso a cópias em DCP por meio dos produtores (provavelmente por um alto custo), mas elas virão sem legendas. E quanto aos filmes de países menores, representando cinematografias pouco difundidas? Haverá DCPs disponíveis de filmes iranianos vinte anos depois de sua estreia, quando já não estarão sendo representados por agentes de venda franceses? E se houver, estarão disponíveis com legendas?

Se o depósito voluntário de DCPs não criptografados de todos os filmes estrangeiros lançados na Suécia é uma meta utópica, que outras possibilidades existem? O Instituto Sueco de Cinema não apenas subvenciona a produção de novos filmes nacionais, mas distribuidoras de filmes menores também podem solicitar subsídios para importação e distribuição. Uma ideia com a qual temos flertado é estabelecer como condição para o subsídio de importação que um DCP não criptografado seja depositado no arquivo. Não tenho certeza se vai funcionar, porque evidentemente envolve acordos com os produtores dos filmes, quer entre o produtor e o distribuidor ou entre o arquivo e o produtor. Mas é um caminho que vale a pena ser explorado, já que isso iria pelo menos garantir a preservação e o acesso no futuro a cerca de 30-40 filmes estrangeiros legendados em sueco, dentre os mais de 200 filmes estrangeiros lançados no país a cada ano – possivelmente os mesmos 30-40 títulos que serão de difícil acesso aos nossos programadores no futuro.

Outra opção é chegar a um acordo com as empresas distribuidoras para conseguir que pelo menos os arquivos de legenda sejam depositados no acervo. Deste modo, nossos programadores podem no futuro alugar dos produtores DCPs não-legendados (se eles ainda estiverem disponíveis) e exibi-los em nossa cinemateca com legendas em sueco. Mas essa opção deve ser considerada como último recurso, já que é uma solução pouco satisfatória para o problema. É importante enfatizar que a nossa coleção de filmes estrangeiros não serve apenas para criar uma programação mais variada e versátil nas sessões da cinemateca. No nosso caso, o Departamento de Cinema da Universidade de Estocolmo está localizado no mesmo prédio que o Instituto Sueco de Cinema, o que significa que o departamento e todos os seus estudantes têm acesso livre às nossas cópias, já que elas são projetadas em nosso próprio cinema por nossos próprios projecionistas. E os filmes estrangeiros da nossa coleção formam uma imensa parcela do seu currículo. No futuro, se os alunos quiserem assistir a filmes estrangeiros recentes, a única maneira poderá ser a exibição ilegal em sala de aula de DVDs e Blu-rays, comprados pelos professores em alguma loja especializada local.

Voltando à programação da nossa cinemateca: quando os clássicos produzidos originalmente em película estiverem disponíveis em formato DCP e quando novos filmes e futuros clássicos estiverem disponíveis apenas em DCP, o que vai diferenciar a nossa programação em relação a de qualquer outro cinema no país? Na Suécia os filmes clássicos não são distribuídos comercialmente e eu diria que hoje existem apenas dez cinemas no país com as instalações adequadas para exibir cópias de arquivo pertencentes às nossas coleções. E mesmo destes dez cinemas podemos vir a recusar pedidos, dependendo do material que possuímos da obra solicitada. Já quando existem DCPs de filmes do nosso acervo, os números mudam: de imediato, haverá 837 telas em 477 cinemas do país que poderão exibir filmes do nosso acervo. Não estou dizendo que isso vai acontecer, mas a princípio qualquer proprietário de sala de cinema poderá fazer sua própria programação de filmes de repertório em formato digital, escolhendo títulos em DCPs disponíveis em catálogos da cinemateca ou de empresas comerciais.

Isso significa que o acervo em película de filmes estrangeiros não vai ter nenhum valor no futuro? Não, de forma nenhuma. Pelo contrário, acredito que irá se tornar cada vez mais valioso. Em primeiro lugar, nós não vamos digitalizar os filmes estrangeiros que possuímos em nossas coleções porque não teremos os recursos necessários, mesmo se quiséssemos. Isso significa que as salas fora da cinemateca que quiserem projetar esses filmes terão que procurá-los em outros lugares. Em segundo lugar, creio que nos próximos anos o que estará disponível em DCP, em escala global, serão apenas os filmes mais famosos e já consagrados. Portanto, muitos filmes estrangeiros que nós temos em nosso acervo não estarão disponíveis em DCP em nenhum outro lugar.

Por isso acredito que as cópias em 35mm (e em outras bitolas) do nosso acervo vão se tornar cada vez mais valiosas e, compreensivelmente, muitos de nós vão se mostrar relutantes em emprestá-las no futuro. Mas elas serão valiosas também porque esses filmes não estarão disponíveis em nenhum outro formato em qualquer outro lugar. E isso não é necessariamente ruim. Só porque os filmes estrangeiros de nosso acervo não estarão digitalizados não significa que essas cópias estarão mortas ou que não terão valor algum. Atualmente, uma visão bastante difundida é a de que tudo que não está digitalizado não existe. Mas já há muitos anos os filmes estrangeiros das nossas coleções só vêm sendo exibidos em nossas próprias salas de cinema. Esse acesso limitado nunca foi considerado algo insuficiente, inútil ou sem valor; na verdade, essas exibições têm sido consideradas importantes eventos culturais e assim vão continuar a ser. Essas cópias e exibições continuarão a ter no futuro a mesma relevância que tinham no passado, ou, na realidade, ainda mais. As cópias serão valorizadas como objetos de museu e as projeções irão se tornar, cada vez mais, práticas museológicas. Mas justamente por exibir essas cópias, o que ninguém mais poderá fazer, a programação realizada pelos arquivos vai se distinguir dos outros tipos de programação. E as dificuldades em conseguir cópias emprestadas de fontes externas podem fazer com que programadores fiquem cada vez mais dependentes dos acervos dos próprios arquivos, o que vai alterar a maneira como a programação é concebida e realizada.

Mas novamente devemos fazer uma distinção entre filmes nacionais e estrangeiros. Na minha própria instituição, nós continuaremos a ser generosos quanto ao empréstimo de filmes suecos para aquelas salas, em número cada vez mais reduzido, que desejarem e tiverem condições de exibir cópias em película, porque nós teremos condições de fazer novas cópias. Sim, laboratórios estão se tornando escassos e laboratórios comerciais estão fechando suas portas em um ritmo assustador. O último grande laboratório fotoquímico comercial na Suécia fechou suas portas em setembro de 2011, mas tivemos a sorte de convencer nosso conselho diretor de que era uma boa ideia adquirir o equipamento e contratar funcionários do extinto laboratório para instalar um laboratório fotoquímico dentro do próprio Instituto. Isso significa que seremos capazes de fazer novas cópias dos filmes dos quais tivermos elementos originais em nosso acervo – quer dizer, dos filmes nacionais (pelo menos enquanto existir película virgem para copiá-los). Mas as cópias de filmes estrangeiros que mantemos serão tratadas de maneira mais cautelosa, pelas razões já discutidas aqui.

Concluindo, a transição nas salas comerciais da projeção em 35mm para DCP irá colocar em risco o depósito voluntário de cópias de exibição de filmes estrangeiros, o que vai alterar a identidade de muitas instituições da FIAF, já que cópias de filmes estrangeiros exibidos em seus países têm sido uma parte grande e vital de suas coleções. A comunidade arquivística, não apenas em termos nacionais mas também em termos global e regional, deve explorar todas as possibilidades para fazer com que financiadores e ministérios da cultura se conscientizem do problema. Mas se o objetivo desejado se mostrar impossível de conseguir por meios legislativos, e se os materiais de filmes estrangeiros não forem guardados nos arquivos de cada pais em que os filmes tenham sido exibidos, talvez os arquivos possam se unir para negociar com a indústria a criação de um número limitado de centros de armazenamento [hubs], nos quais poderiam ser armazenados materiais não criptografados, e cada instituição por sua vez ficaria responsável por recolher e armazenar as legendas em sua respectiva língua.

Quanto ao destino das coleções analógicas de filmes estrangeiros que existem nos arquivos de filmes pelo mundo, o desfecho mais provável é que cada vez mais sirvam apenas às salas de exibição ligadas aos próprios arquivos. Mas se todos os arquivos (e estúdios!) estivessem empenhados em garantir que novas cópias em película pudessem ser feitas a partir dos negativos que eles possuem no acervo – seja instalando seu próprio laboratório ou usando regularmente os poucos laboratórios comerciais e/ou de outros arquivos ainda existentes – o “suprimento” global de cópias de exibição em seus formatos originais ainda estaria disponível no futuro para empréstimos entre arquivos de filmes.

[1] Nota dos Editores: Este artigo foi originalmente publicado em inglês (com um resumo estendido em francês e espanhol) na edição n. 88, de abril de 2013, do Journal of Film Preservation, a publicação semestral da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF). Os editores deste Dossiê gostariam de agradecer imensamente à equipe do periódico e em especial a colaboração do autor, Jon Wengström, e de Christophe Dupin, Administrador Sênior da FIAF e Editor-Responsável pelo Journal of Film Preservation, por autorizar a tradução e publicação deste artigo. Os números e estatísticas apresentados no texto se referem ao período no qual foi escrito e publicado.

[2] Nota do Autor: Este artigo foi escrito a partir de uma apresentação no workshop realizado pelas Comissões Técnica e de Programação e Acesso às Coleções durante o 68º Congresso da FIAF em Pequim, em abril de 2012. O autor deseja agradecer as sugestões e contribuições feitas por Alexander Horwath e Regina Schlagnitweit do Österreichisches Filmmuseum [Museu do Cinema da Áustria, em Viena], durante conversas estimulantes entre a apresentação de Pequim e a publicação deste artigo.

[3] Curador das Coleções do Acervo Fílmico do Instituto Sueco de Cinema (Svenska Filminstitutet), em Estocolmo. Chefe da Comissão de Programação e Acesso a Coleções da FIAF até 2013, quando passou a ser membro do Comitê Executivo. É o atual tesoureiro da instituição.

[4] Nota dos Editores: DCDM é a sigla para Digital Cinema Distribution Master, um conjunto de arquivos não criptografados e não comprimidos, enquanto no DCP (Digital Cinema Package) os arquivos sofrem compressão e são criptografados para serem enviados à sala de exibição, onde serão descriptografados e descomprimidos para projeção.

[5] Nota dos Editores: o documento Recommendation on the deposit and acquisition of D-cinema elements for long term preservation and access, elaborado pela Comissão Técnica da FIAF pode ser encontrado aqui: http://www.fiafnet.org/images/tinyUpload/E-Resources/Commission-And-PIP-Resources/TC_resources/D-Cinema%20deposit%20specifications%20v1%200%202010-09-02%20final%201.pdf

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