4 meses, 3 semanas e 2 dias (Cristian Mungiu, 2007)

Tiago Canário*

Peixes romenos

Como descobri o peso em 4 meses, 3 semanas e 2 dias

Nem sempre é preciso esperar muito. Em 4 meses, 3 semanas e 2 dias, o plano inicial, creio, é presságio, prenúncio ou grande síntese de tudo o que veremos – com o enquadramento fixo de um quarto comum, que poderia ser qualquer quarto, como tantos outros, o que vemos no centro é um aquário. Aqui, o ambiente é grande, sem grande organização e nos circuncida sem escolha. Como peixes, o vidro nos mantém vivos e presos. Sem escolhas ou esperanças, o que nos resta é nadar em círculos.

Retratado pela direção de Cristian Mungiu, o regime comunista de Nicolae Ceausescu, caracterizado, sobretudo, pela repressão política severa e pela austeridade rígida, nos é apresentado durante o final dos anos 80. Com a obra, temos acesso à Romênia de 87, que, enfrentando os últimos instantes de um regime que rui sem escapatórias, surge como a insipidez e a pasteurização, ou o “cinza”. Puramente o “cinza”. Sem grandes informações, sabemos apenas que Gabita (Laura Vasiliu) se prepara para a realização de um episódio, no qual conta com a ajuda da amiga Otilia (Anamaria Marinca).

Construído em planos longos e silenciosos – em um filme, ressaltemos, sem músicas – e com uma fotografia escura e de poucas cores, todas sem vida, nesse universo pesado, árido e triste o que transparece é a realidade. Por mais pesaroso que seja, o que Mungiu expõe é uma situação palpável, lastimavelmente verdadeira, em que até mesmo as personagens são distantes e pouco receptivas; em que até mesmo a câmera é distante e pouco receptiva. Nessa sociedade de liberdades cerceadas, ao estabelecer o posicionamento da câmera, vemos com frequência ela mesma se tornar dominadora, um olhar ubíquo que resiste a abandonar os personagens em certos planos, seguindo-os incansavelmente em seus deslocamentos.

Neste retrato em que estudantes dividem alojamentos e compram o que lhes é necessário em pequenos mercados (ou vendedores) informais, tudo segue em seu tempo. Nas mãos de Mungiu, como em um regime autoritarista, nada se atropela; nada foge ao controle. Àqueles que vêem a obra, resta esperar pacientemente que cada ação se desenvolva com o tempo que for, estejamos nós habituados ou não a acontecimentos tão prolongados.

Em 4 meses… nunca temos acesso às informações completas – com todos os dados controlados, só conhecemos os fatos e os personagens aos poucos, através de diálogos e ações aparentemente gratuitos, embora extremamente calculados. Da mesma forma, eventos como um estupro são sempre absolutamente dominados – sem vê-los, em qualquer aspecto que seja, nos basta saber que existam. Temos acesso apenas àquilo que é julgado necessário. Todos os acontecimentos se desenrolam como devem ser.

Em uma linha temporal absolutamente controlada, cada acontecimento tem seu tempo ideal. Grandes silêncios, decisões ou temas desinteressantes tratados em longas conversas, gestos corriqueiros retratados em toda a sua ação. Com cada ação somada, o filme, que em alguns instantes parece pesado demais, é nada mais do que reflexo de uma realidade igualmente estafante. Por isso, também, o ponto central da obra nos é apresentado somente após meia hora de filme, durante as quais acompanhamos os preparativos para algo que desconhecemos.

Descobrimos então a que se refere 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Dando pouca importância a qualquer discussão moral sobre o fato, o importante, para o diretor, é retratá-lo cru, quase analiticamente. Longe de abordar posicionamentos, aqui, o aborto é um crime e existem modos ilegais de praticá-lo – o importante é o “como”. Mais do que descobrir o que buscam as amigas Gabita e Otilia, quando se encontram juntos as duas e o responsável pelo aborto, sr. Bebe (Vlad Ivanov), acompanhamos um longo relato de toda a situação e do procedimento.

Em diálogos tensos, graves, o que se instaura são as posições – de um lado, as amigas inseguras e desesperadas; do outro, um homem que se impõe e demonstra constantemente seu poder. Implacável, aquele a quem se recorreu para fazer o aborto, embora praticamente sem se exaltar fisicamente, por sua posição, exercerá grande poder psicológico. A Gabita, grávida e sem alternativa, e Otilia resta ceder.

Nessa realidade, nós, junto às personagens, afundamos pouco a pouco, pusilânimes, sem grandes esperanças. Ainda que haja eventos absolutamente diferentes, como o jantar em que Otilia participa – longo plano sequência de uma conversa calorosa e ininterrupta, com várias vozes recordando acontecimentos familiares – não há solução. Durante todo o plano, a câmera permanece imóvel, centrada na estudante absolutamente deslocada.

E após o acontecido, após o aborto consumado, também não há paz, apenas ruas escuras e intimidantes. A realidade persiste sólida e cinza. Pesarosa. Mais do que isso, no momento em que Otília vomita na rua (após discutir com seu namorado o que faria caso estivesse na posição da amiga) o que temos é um triste vislumbre de um grande ciclo. De um mesmo evento que se repete infeliz e inexoravelmente para jovens diferentes, imersas, sem fuga, no aquário romeno.

Tiago Canário é graduando em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

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