500 dias com ela (Marc Webb, 2009)

Diego Anami*

Advindo da linha de comédias do cinema independente norte-americano – que nos últimos anos já presenteou o público com pérolas como Sideways, Encontros e desencontros, Antes do pôr-do-sol e Pequena Miss Sunshine -; 500 dias com ela ascende, criativo e contemporâneo, podendo ser apontado como o filme mais completo e orgânico do cinema de entretenimento em 2009. Não apenas pelo roteiro sem pontas soltas, mas principalmente pela utilização inventiva e orquestrada dos diversos recursos narrativos contemporâneos.

Logo em suas frases iniciais o narrador resume do que se trata o enredo: “Esta é a história do garoto que conhece a garota. O garoto, Tom Hansen, de Margate, Nova Jersey, cresceu acreditando que nunca seria verdadeiramente feliz, até o dia em que ele conheceu a garota. Essa crença vem de uma exposição precoce à triste música pop britânica, e à má compreensão do filme ´A Primeira Noite de um Homem’. A garota, Summer Finn, de Shinnecock, Michigan, não acredita na mesma coisa. Desde o fim do casamento de seus pais, ela só amava duas coisas: A primeira era seu longo cabelo escuro. A segunda era a facilidade para cortá-lo, sem sentir nada. Tom conheceu Summer em 8 de janeiro. E ele sabe imediatamente que ela é quem ele procurava. Esta é a história do garoto que conhece a garota. Mas você deve saber, que não é uma história de amor.”

Trata-se, portanto, de uma comédia romântica que não pode ter um desfecho catártico. O roteiro é muito bem elaborado: da cultura pop traz referências como The Smiths e A primeira noite de um homem, que não apenas caracterizam os personagens bem como servem de eixo para cenas importantes; mas talvez o grande mérito do roteiro seja realmente conseguir condensar os 500 dias de um relacionamento em 2 horas de filme, desde que o casal se conhece, apaixonam-se, vem o ápice, os problemas e o término, para mostrar tudo isso com precisão utiliza-se da não-linearidade e trabalha-se muito bem os detalhes; o roteiro cheio de elipses consegue deixar bastante claras as nuances de um relacionamento, sempre com muito humor.

Além da não-linearidade temporal, a montagem alia-se ao roteiro diversas vezes, concentrado aí o ponto forte do filme. Em uma das cenas mais emblemáticas, coloca-se lado a lado no cinema as cenas idealizadas por Tom de um reencontro com Summer e o que realmente acontece. A divisão de tela que não é novidade, ainda mais no estilo de um cinema independente (vide filmes como Sideways, Melinda e Melinda e Jackie Brown), assume aqui um papel narrativo criativo e bem humorado.

Outros recursos interessantes merecem destaque na grande mistura que é 500 dias com ela: como a estética do super 8 – também bastante utilizada no cinema independente em filmes como Reality Bites e Paper heart – complementa-se muito bem uma história pregressa dos personagens logo nos créditos; já o preto e branco aparece em flashback, recurso este também utilizado por inúmeros outros filmes, mas em 500 dias o flashback traz a adolescência de Summer de forma engraçada e muito funcional à narrativa; já os grafismos – técnica utilizada em filmes como Juno e American Splendor – servem para situar o espectador no tempo diegético do filme, consistindo numa forma bastante descontraída de pontuar as elipses.

O mérito por orquestrar a complexidade deste filme fica com Marc Webb, 500 dias é o primeiro longa-metragem deste jovem diretor que trabalhou em videoclipes com bandas como Green Day, Weezer e Pussycat Dolls. Essa aproximação com o videoclipe pode ajudar a explicar seu cinema tão fluente, contemporâneo e musical. Aliás, ele trás para a trilha nomes como Doves, Feist e Regina Spektor, que se encaixam no filme com perfeição.

Com Marc Webb e 500 dias com ela, o cinema independente norte-americano mostra mais uma vez sua força em meio ao cinema de entretenimento, aliando diversas técnicas narrativas de forma criativa e funcional para gerar um filme fluente, contemporâneo e divertido.

Diego Anami é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

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