A Culpa é do Fidel (Julie Gavras, 2006)

La Faute à Fidel

Por Bruno de Pontes Barrio*

A nossa infância torna-se, em uma dúzia de anos, uma espécie de país distante, terno, intocável, que muitas vezes se mistura à idéia de perfeição. Isso tudo como se alguma Rosa, como aquela do poema de Bandeira, nos narrasse notícias dessa terra onde tudo “parecia impregnado de eternidade”. As cores então tornam-se vivas e bem compostas, como se tudo fosse pintado por um artista superior. Ele possuiria em mãos todo o roteiro da história e assim a comporia com mimo quase obsessivo.

O tom predominante, no caso de A Culpa é do Fidel, provavelmente seria o vermelho, que tem seu lugar garantido, seja num cachecol, seja na longa parede da sala de casa, em quase todas as cenas. Mas persistem também composições em verdes, laranjas, azuis-marinhos, pastéis, cuidadosamente combinadas. A sutil direção de arte faz com que tenhamos uma lembrança visual adorável do filme. Notamos isso em uma de suas seqüências mais bonitas e emocionantes, na qual Ana (a protagonista), após uma discussão em casa, sai num passo rápido levando seu irmão pelo pulso, sem destino aparente. Acompanhadas pela música tocante e ao mesmo tempo tensa, as casas, jardins e cores ao fundo sucedem-se rapidamente, contrastando com as vestimentas das crianças. Assim, compõe-se a marcante profundidade das cenas que dispensam palavras, tão caras ao cinema.

A eterna paz juvenil corre sempre a passos despretensiosos! A tranqüilidade começa a tomar outros contornos justamente quando se chega aos 9 ou 10 anos. Talvez seja por esse motivo que as obras contadas do ponto de vista de crianças escolham quase sempre essa idade. É uma fase da vida muito fértil para a narrativa e nota-se isso mesmo fora do cinema, como por exemplo nos livros Miguilim (no qual Mutum, da diretora Sandra Kogut, se inspirou), de Guimarães, ou em Bom Dia Camaradas, do escritor angolano Ondjaki. São, sobretudo, as obras que não escondem o grau de complexidade dessa última infância que atingem o cimo do valor artístico. Dessa maneira, A Culpa é do Fidel é pintado com leveza e graça (nos dois sentidos da palavra, já que o filme é também divertidíssimo), colocando de maneira falsamente despretensiosas questões presentes até mesmo na vida adulta. Ana não consegue respostas satisfatórias para suas perguntas, mas sem querer faz o próprio pai se questionar acerca de questões complexas. Aliás, o filme mostra uma fase de amadurecimento não só das crianças.

Assim como a direção de arte, as atuações são muito boas. Nina Kervel-Bey, a garotinha protagonista, foi muito bem dirigida por Julie Gavras e realmente consegue dar contornos tangíveis à força da personalidade de Ana. O roteiro apresenta interessantes diálogos e passagens ilustrando, de forma muito engraçada, a confusão feita pelas crianças com todas aquelas informações que em tão pouco tempo passam a fazer parte dos seus cotidianos. Para quem escolhe o filme também pela língua na qual ele é realizado, esse filme mostra o francês convivendo agradavelmente com o espanhol durante todo o seu decorrer.

A condensação das lembranças de cada infância ─ fortes, intensas, marcantes ─ parecem podadas pela maestria de um tarimbado editor. Manuel Bandeira sabe disso: “(se) Eu soubesse repor [...] as mais puras alegrias de tua infância”. Isso seria e será sempre impossível, mas se um filme fosse como um pequeno sonho (de uma hora e meia), A Culpa é do Fidel chegaria muito próximo disso.

*Bruno de Pontes Barrio é graduando em Letras pela FFLCH – USP.

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