A Estória da Figueira ( Júlia Zakia, ECA-USP, 2006)

A Estória da Figueira é uma adaptação da cantiga luso-brasileira de mesmo nome. Um pai viúvo e sua filha pequena moram em um lugarejo perdido, na vizinhança também habita uma mulher que prepara deliciosos bolos de mel e um jardineiro que cuida das plantas e dos bichos. A menina pede para o pai se casar com a vizinha, ao que ele se recusa, mas a filha insiste e a vida de todos começa a mudar depois do casamento.

*Por Sofia Mussolin

 

RUA: Como se estabeleceu o contato com a cantiga que inspirou o filme?

Julia: Desde bem criança ouvíamos A ESTÓRIA DA FIGUEIRA no disco “Brincadeiras de roda, estórias e canções de ninar”, memórias de Dona Esther Pedreira de Cerqueira, que em 1980 já tinha mais de 90 anos. Tudo narrado e cantado lindamente por Antônio Nóbrega, Solange Maria e Elba Ramalho. Tudo histórias que D. Esther ouviu na sua infância, contadas e cantadas por sua mãe e por sua ama que ajudou a cria-la. Uma mistura de fábulas luso-brasileiras, africanas, caboclas. “A estória da Figueira” era a mais assustadora, pela menina ser enterrada viva e os cabelos crescerem pela terra. Essa imagem ficou gravada muito forte em minha mente, muito antes de descobrir o cinema e nele a possibilidade de contar e expressar, sendo operária dessa arte.

RUA: E o processo de criação de um roteiro cinematográfico inspirado/baseado na cantiga? 

Julia: A cantiga foi mais do que um ponto de partida para o curta. A maior parte das coisas da cantiga eu queria manter, mas haviam outras que precisavam ser criadas. O personagem da mãe, por exemplo, é apenas citado na cantiga como alguém que já morreu. No filme ela ganha corpo e aparece para a menina como um fantasma. Juntas elas vivem a cena, que para mim, é a mais bonita do filme. Mãe e filha correndo por um laranjal sem fim. Foi difícil escrever o roteiro, pois haviam as imagens prontas e a vontade de filmar, mas a dificuldade de formalizar aquela cantiga na formatação adequada ao cinema. Ainda bem que estava na Universidade (ECA-USP) e podia experimentar, ter uma liberdade particular ao universo do estudante, do que está em processo. E carregar isso pra fora de lá, é saber que a gente nunca está pronto para um próximo filme e desejar que a viagem seja tão ou mais aproveitada que a anterior.

RUA: A montagem do curta se destaca, assim como a fotografia. A ideia inicial, quando se pensou na adaptação, foi seguida? Quais foram os papeis dessas duas áreas para o curta? 

Julia: Eu acho a fotografia da Heloisa Ururahy, minha querida companheira de cinema, linda e conjugada plenamente com o filme. Ela estudou bastante e ousou bastante, sendo acho que nossa primeira experiência maior filmada em 35mm, com assistentes e eletricistas estudantes. Choveu, fez sol, entrou nuvem, saiu nuvem, fogo, vela, lampião. Muita coisa pensada junto à direção de arte da Monica Palazzo, que possibilitou a construção de uma outra naturalidade na luz, pra contar essa história, que nasceu fábula e deveria continuar sendo fabulosa, imaginada. Todas as áreas técnicas estão nos levando para o mesmo lado, isso foi demais na experiência de fazer “A estória da Figueira”. Já a montagem penou! Digo isso com toda franqueza porque não tínhamos o material suficiente pra contar a história inteira e foi ali com Alexandre Taira que fizemos um novo filme. Já não era a fábula, nem o roteiro, tinha que nascer um filme daquelas imagens e sons.

*Sofia Mussolin é graduanda do curso de Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos e editor da seção Curtas na RUA

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