À meia-noite levarei sua alma (José Mojica Marins, 1964)

O primeiro momento de Zé do Caixão

Por Felipe Abreu*

Cartaz de " A meia noite levarei sua alma"

O coveiro de uma pequena e supersticiosa cidade está cansado de sua ocupação e do pensamento mítico do povoado. Seu único desejo é encontrar uma mulher digna de carregar seu filho, que dará continuidade ao seu sangue. Para isso tem que se livrar de sua esposa incapaz de engravidar e encontrar uma nova companheira, sendo seu primeiro alvo a mulher de seu melhor amigo.

À meia noite levarei sua alma, de 1964, é o começo da trilogia de Zé do Caixão. Seguem Esta noite encarnarei no teu cadáver, de 1967 e Encarnação do Demônio, de 2008. José Mojica Marins, diretor, roteirista e protagonista da trama é com certeza o maior e mais cultuado representante do horror no cinema brasileiro. Não que isso seja necessariamente um elogio.

É difícil ver o que se passa durante a narrativa. Talvez a deterioração da película contribua em grande parte para essa dificuldade, porém a fotografia excessivamente escura também tem sua parte de culpa. Muitos dos planos contam com um grande espaço negro. Criar tensão através da falta de informação visual é um processo bastante utilizado e ainda muito interessante, mas nesse caso há um excesso de escuridão que prejudica o acompanhamento da história, fazendo com que o espectador perca o interesse ao invés de ficar curioso em descobrir o que ele não consegue ver.

A trilha musical é outro recurso pouco utilizado, porém de maneira correta. A música, tão presente e ativa no suspense e no terror, antecipando e amplificando os grandes picos de tensão, perde parte de sua função neste filme de horror. Aparece somente como moldura para tensões já estabelecidas, perdendo assim o crescendo e a antecipação, tão importantes na construção do suspense. Outra característica da trilha musical é que em nenhum momento ela faz ambientação ou caracteriza um dos personagens. Com isso tem-se um grande silêncio ao longo do filme, preenchido em parte pelos extensos diálogos.

José Mojica Marins optou por apresentar o filme criando uma forte relação com o público. Seu personagem faz no início do filme um longo monólogo no qual apresenta suas motivações e a busca do personagem: manter a continuidade de seu sangue. É perceptível como essa primeira fala guia o protagonista durante a narrativa. Em vários momentos ele retoma parte do texto para reafirmar seus propósitos. A atmosfera de terror é criada principalmente através da fala dirigida ao espectador. Isso aparece mais claramente no início com o monólogo de Zé do Caixão citado acima e com a fala da cigana que precede o filme.

Mojica como o famoso Zé do Caixão

Como em uma história narrada para um pequeno círculo de amigos a cigana adverte o espectador das possíveis conseqüências de se assistir ao filme. Com isso se obtém, de uma maneira desatrelada de imagens, o clima de tensão necessário para ambientar a história. Os diálogos aparecem como a grande muleta desta construção dramática. À meia noite levarei a sua alma é um terror que conta com uma quantidade não muito grande de imagens chocantes ou surpreendentes. A não ser pelas mortes, todas exageradas e ligeiramente sanguinolentas, não há grandes choques ou sustos provocados pelo que se vê na tela. Isso diminui significativamente a tensão no espectador, necessária tanto no suspense quanto no horror para que a narrativa funcione. Graças a essa ausência de força imagética aparece um exagero na fala que percorre o filme inteiro e tenta, sem muito sucesso, aumentar a tensão e criar uma relação mais intensa entre personagem e público. O exagero aparece também nas atuações, principalmente com o protagonista, que, apoiado em movimentos largos e melodramáticos, além de longas gargalhadas maléficas, conduz o filme de uma maneira muito pouco convincente. A falta de motivações claras para algumas ações é flagrante em alguns momentos. Logo no começo da narrativa, Zé do Caixão deseja comer carne em um dia santo. É alertado da proibição pela esposa e fica extremamente irritado, joga o prato de comida para cima e sai em busca de um pedaço de carne.

Pioneiro no terror Brasileiro

Além de apontar o problema de construção desta história, em que não é necessário trabalhar os motivos para certos comportamentos e ações, este trecho ressalta também o exagero, já citado, nas atuações. Outro aspecto importante, claro na seqüência analisada, é a intensa crítica aos valores religiosos e populares feita pelo protagonista. Grande parte da maldade de Zé do Caixão é estabelecida pela sua falta de crença em qualquer valor maior. No decorrer da narrativa dois feriados católicos são desrespeitados: a sexta-feira santa e o dia dos mortos, o que choca e assusta profundamente todos os moradores da cidade. É interessante pensar como o desrespeito aos valores religiosos era um sinal profundo para indicar que alguém era mal e como isso era absorvido facilmente.

Todo o terror que se tenta estabelecer gira em torno do mítico e do religioso. Por não temer as conseqüências de seu desrespeito à religião Zé do Caixão se torna uma figura temida na cidade. Outra característica curiosa do discurso do personagem, ligada a questão da religiosidade, é o elogio à vida, feito de um modo muito cético, com traços de boemia. Em uma conversa com seu grande amigo Antonio, Zé discorre sobre a falta de necessidade de crença e como ele não temia nada que não fosse terreno. Após esse momento o protagonista terá sua visão de mundo questionada em seu encontro com a cigana, que lê acertadamente o futuro de Antonio, de sua esposa e de Zé do caixão. É da relação destes dois personagens assustadores, o coveiro e a “bruxa” da cidade, que surge a grande inconsistência do filme. A narrativa é linear e focada somente no desenvolvimento do personagem de José Mojica Marins. Ao longo da história cria-se com sucesso uma relação entre o público e o personagem citado. De maneira também correta cria-se a imagem de uma figura de poder e cética que domina, através do medo, o povoado em que vive. Porém na conclusão do enredo a imagem estabelecida é quebrada. Um filme que critica a fé e os mitos populares, apontados como ignorantes, tem seu porta-voz caçado e atacado por figuras sobrenaturais, as quais foram negadas por ele durante toda a narrativa.

É curioso que quem derrota Zé do Caixão é a outra figura maligna do filme: a cigana, e não o povo, que indignado com os atos do coveiro chega a organizar um atentado contra ele. Isso quebra a construção clássica do terror em que o vilão é derrotado pelo herói que garante a tranqüilidade da cidade, nesse caso o mal foi simplesmente substituído e a condição de povo temeroso do desconhecido continua. Pode-se considerar a derrota de Zé do Caixão uma valorização do misticismo e da cultura popular que derrota a posição arrogante e orgulhosa de um cético atemorizante. Essa teoria, contudo, não se sustenta ao se analisar a narrativa como um todo, já que durante todo o processo a posição de Zé do Caixão é enaltecida.

O primeiro grande horror brasileiro acaba e não se sabe onde ele queria chegar. Toda a imagem trabalhada ao longo do filme é quebrada, e sem grandes explicações. Assim acaba, sem muito terror ou medo, a primeira aventura do estranho mundo de Zé do Caixão.

*Felipe Abreu é graduando em Audiovisual pela Universidade de São Paulo (USP).

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