À prova de morte (Quentin Tarantino, 2007)

Felipe Abreu*

O retorno ao trash setentista de Quentin Tarantino

Death Proof, é o sexto filme do diretor americano Quentin Tarantino, que junto com Robert Rodriguez e seu Planet Terror compõe Grindhouse, uma experiência contemporânea que resgata a estética e os valores do filmes trash dos anos setenta. Esse projeto, do ano de 2007, trouxe para o Brasil somente sua segunda metade. Infelizmente o filme de Tarantino não estreou comercialmente, sendo exibido somente em mostras e festivais.

O projeto encabeçado por Tarantino e Rodriguez leva a sua preocupação estética aos mínimos detalhes. Primeiro a peça é composta como eram os filmes que passavam nos Grindhouses, cinemas com programação exclusiva de filmes exploitation, dois filmes de aproximadamente uma hora, com trailers das próximas atrações entre as duas atrações principais. No caso de Grindhouse os trailers são forjados e são uma atração a parte, como o caso de Machete que narra a saga de um assassino de aluguel que foi traído e agora busca uma sanguinolenta vingança.

Além da composição os diretores constroem as narrativas carregadas de informações e trejeitos típicos dos filmes de terror trash, como toque final há pequenas falhas na “projeção” e pedaços do filme faltam, sendo substituídos por cartelas. Dessa forma os dois diretores conseguem construir perfeitamente a atmosfera peculiar dessas salas de cinemas americanas.

Em Death Proof Tarantino apresenta a história de Stuntman Mike, um ex-dublê que constrói um carro impenetrável, Death Proof, e assassina mulheres usando o veículo, até que ele encontra uma adversária à altura.

Nesse trabalho o diretor mantém os aspectos característicos de sua filmografia e apresenta traços claros do exploitation, sempre presente sua carreira, porém dessa vez amplificados.

O protagonista, Stuntman Mike, é a personificação do gênero: feio, mal, excêntrico e violento. Para garantir o impacto visual necessário nesse tipo de obra, as cenas de perseguição e de assassinato recebem um tratamento especial, com diversos planos e repetições, com destaque para o encontro frontal entre Death Proof e o carro de Jungle Julia, já acompanhadas a algum tempo por Mike.

A construção dos personagens segue os mandamentos do trash. As mulheres são lindas, envoltas em sexualidade e estão sempre no lugar errado. A narrativa em si é baseada quase que unicamente na apresentação e desencadeamento das cenas de ação. O filme é dividido em blocos, nos quais o clima da cena de assassinato é construído em um crescendo, que chega ao ápice no encontro entre protagonista e antagonista. Após isso começa-se outro ciclo e assim por diante, até o grande momento final.

Tarantino imprime seu estilo ao longo de toda a narrativa. Em oposição à Reservoir Dogs em que um grupo de assaltantes têm uma longa e hilariante conversa sobre Madonna, em Death Proof é o grupo de meninas que conversa longamente sobre o desafio feito à Butterfly por Jungle Julia, desafio esse que proporcionará a grande cena: a lap dance feita por Butterfly para Stuntman Mike, o momento mais tenso e excitante do filme.

Além desse primeiro momento o filme é permeado por grandes diálogos, carregados de humor e palavrões, perfeitos nas mãos de Tarantino. Como de costume, Tarantino atua e acrescenta mais um grande trabalho como coadjuvante para sua galeria.

Outra característica marcante é a forte referência pop setentista de Tarantino. O ápice dessa construção, em seu aspecto visual, aparece logo na introdução do filme, quando Jungle Julia se deita exatamente na mesma posição que Brigite Bardot em um cartaz sobre ela.

Death Proof mantém a tradição autoral do diretor que cria todas as suas narrativas dentro do mesmo universo, utilizando o mesmo nome para diversos personagens e fazendo auto-referências a cada novo filme. Cabe aqui a indicação do curta-metragem Tarantino´s Mind, que apresenta toda a extensão dessa peculiaridade na obra de Quentin Tarantino.

Em sua sexta obra esse aspecto aparece em dois momentos. Primeiramente na investigação do “acidente” entre Stuntman Mike e as meninas. O xerife que vai ao hospital junto com o filho é o mesmo que aparece em Kill Bill investigando os assassinatos na Igreja. O segundo momento é uma das melhores piadas visuais desse filme. Um novo grupo de meninas para em um mercadinho para fazer compras, nesse momento o filme está em preto e branco, relacionado também à falta de continuidade nos filmes exploitation, quando uma delas sai e compra um refrigerante em uma máquina as cores voltam. Revelando que o carro que elas usavam tem o mesmo padrão de cores, amarelo e com duas listras pretas, usado pela protagonista em Kill Bill. Para reforçar ainda mais a referência o celular de uma das protagonistas toca e como toque musical está a música tema de Kill Bill.

Death Proof é o filme de menor repercussão de Tarantino. Afirma-se que ele perdeu o tato e que essa produção está aquém de todos os outros trabalhos. Nesse caso vejo Death Proof como uma obra que não teve seu potencial compreendido, por ser tratar de uma homenagem satírica a um gênero nem sempre apreciado, perdeu-se nas críticas nem sempre embasadas e muitas vezes rasas, perdendo a possibilidade de consagrar ainda mais o grande diretor, roteirista e produtor que é Quentin Tarantino.

Felipe Abreu é graduando em Audiovisual pela Universidade de São Paulo (USP)

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