A sátira sem limites de South Park

Wanderson Lima*

Cadê a moral da história?

A mais errônea e ingênua distinção que se pode querer fazer entre cultura de massa e alta cultura é aquela baseada no critério da preservação ou não da moralidade e dos bons costumes. Alguém pode até pensar, apressadamente, que isto passou; no entanto, basta uma breve pesquisa no Google para constatar como os critérios de condenação de desenhos, séries, novelas e filmes atrela-se constantemente à equívoca idéia de que grandes escritores são pedagogos das boas maneiras, do bem falarem, do politicamente correto, enquanto a cultura midiática ensina asneiras, corrompe costumes, prega valores contrários à família.

Quem assim pensa expõe não só sua ignorância quanto ao patrimônio literário como também aposta ingenuamente numa relação necessária e mecânica entre o cultivo da literatura e o aprimoramento dos bons modos e do senso humanitário. Há pelo menos dois erros nesse posicionamento. Em primeiro lugar, a grande literatura nunca foi o paraíso do politicamente correto: fascistas, nazis, anti-semitas, machistas, homofóbicos, colonialistas e pedófilos povoam a história da literatura de ponta a ponta, sendo mesmo ocioso citar nomes. E, diga-se de passagem, qualidade literária nada tem a ver com o caráter moral do escritor – se assim fosse, um vegetariano do Greenpeace que escrevesse um livro de poemas sobre a Mãe Natureza seria favorito ao prêmio Jabuti, a menos que ele concorresse com um negro gay favelado que escrevesse um romance autobiográfico retratando sua saga cotidiana. Infelizmente, boas intenções não garantem boa literatura; por outro lado, alguém que tenha um espírito de porco não fará, obrigatoriamente, má literatura. Em segundo lugar, como lembra George Steiner, nada garante que a alta literatura humaniza, talvez mesmo ela nos torne algumas vezes insensíveis ao sofrimento de pessoas reais.

Na literatura, no cinema, na televisão a análise baseada estritamente num critério moralista (“moralista”, repito, e não “moral”) não passa de uma estratégia preguiçosa, que adere a posições rígidas e esquemáticas para evitar a reflexão cuidadosa. Num texto que escrevi sobre o Pica-Pau (“Travessuras de um menino mau”, publicado neste espaço), comentei a respeito da condenação à violência cômica exposta no desenho, que segundo alguns pais, pedagogos, psicólogos e pesquisadores é inconveniente às crianças. Em South Park , a polêmica envolve não apenas a violência: os quatro protagonistas deste desenho, além de “meninos maus”, têm a boca muito suja e vivem num mundo que poderia ser representado num desses grotescos quadros de Hieronymus Bosch.  Além disso, muito além disso, o humor negro praticado por  Trey Parker e Matt Stone, criadores de South Park, trouxe para o universo do desenho animado – obviamente ancorado por precursores, como Beavis and Butt Head – temas cabeludos para a sociedade, seja a americana ou a nossa, como o racismo e a pedofilia.

O que deve desconcertar aos moralistas anti-cultura de massa em South Park, além da chuva de palavrões, é a quase sempre procrastinada “moral da história”. O amoralismo, é claro, não é tão novo no campo da animação televisiva – mas em South Park o incômodo pela falta da moral da história tem uma convincente explicação. Tom & Jerry e Pica-Pau, para citar ancestrais dessa questão, nem sempre encerram com a punição do personagem mau, nem pretendem ensinar qualquer coisa às crianças, mas neles a violência, além de atenuada pela comicidade, inclusive a comicidade da música de fundo, se passa quase sempre num espaço neutro, mítico, longe dos nossos lares e escolas e de seus problemas. South Park, ao contrário, é uma sátira histórica e espacialmente bem definida, e as questões que debate, por serem as de agora, gritam uma atitude de nossa parte.

A comparação pode parecer absurda, mas não é: para entendermos melhor esse incômodo, confrontemos ligeiramente South Park com os longas de animação estrelados pela boneca Barbie. Os criadores de Barbie vendem o sonho que as classes média e alta querem comprar: ecologismo sentimental, consumismo consciente, conciliação entre beleza interior e exterior, entre natureza e cultura. Barbie varre estereótipos e medos que fazem rir mas, ao mesmo tempo, assustam essas classes: o estereótipo da bela de cabeça oca e o pesadelo das catástrofes ecológicas pelo mau uso dos recursos naturais. Barbie ensina que as bonitinhas são, sim, inteligentes; e que a Mãe Natureza nos ama e precisamos retribuir este amor. South Park, ao contrário, evita a evasão tanto no espaço quanto no tempo e, como se não bastasse, recorrendo ao grotesco, enfeiam mais ainda a caveira de nossos fantasmas. Por exemplo, em vários episódios fica sugerido claramente que a democracia (este nosso porto seguro) é uma fábrica de produzir imbecis – basta ver, entre dezenas de outros, o hilário episódio “Chef Goes Nanners”, com seu debate em torno da mudança ou não da bandeira da cidade de South Park. Mas, questionar a democracia daquela maneira não é uma atitude fascista? Não, pois além de fazer parte da própria lógica do modelo democrático americano, que sempre suportou questionamentos fortes de várias instâncias culturais, no desenho nenhum modelo alternativo é apresentado – pelo contrário, a sátira à ditadura, na pessoa de Saddam, como vemos no episódio “Terrance and Phillip in Not Without My Anus”, da segunda temporada, é mais devastadora ainda. Além disso, South Park põe na berlinda igualmente estrelas do rock, esportistas destacados e a trupe de Hollywood – difícil é encontrar um grande astro americano que não “tenha aparecido” em South Park e se metido numa fria (no Brasil, quem faria o mesmo com figuras sacrossantas como Xuxa e Roberto Carlos?)

Nem rigorosamente amoral, nem fascista: South Park é uma sátira cínica, alheia a qualquer sentido reformador da sociedade. Só se pode admitir que haja ensinamentos nesta animação, se pensarmos numa didática que se constrói através de exemplos incorretos. Por estes motivos, a animação afina-se com a longeva tradição da sátira menipéia.

South Park, uma sátira menipéia

Não há acordo entre os pesquisadores acerca da origem da sátira menipéia. É provável, porém, que tenha sido Terêncio (116 a 27 a. C.) o criador da denominação Saturae Menippeae.  O termo “menippeae” é uma referência ao filósofo grego Menipo, que pertenceu à escola dos cínicos, no século III a. C., e cujas sátiras não chegou até nós. A ligação entre a sátira menipéia e o cinismo filosófico, como nos explica Wandercy de Carvalho, não é casual:

Esta escola, em função da completa independência, despreza a riqueza, as convenções sociais, e obedece, exclusivamente, às leis da natureza. É em função dessa liberdade incondicional, que os autores de sátira encontram autonomia para falar com isenção, não só dos vícios, das distorções sociais, como também dos poderosos.  Quando se diz que a sátira não se presta ao servilismo e à adulação, é este sentido que se instala no espírito satírico, verve da imaginação ainda presente até os dias de hoje.

Ao contrário da sátira romana de Juvenal e de Horácio, que eram escritos dentro do espírito do “Ridendo castigat mores” (Rindo se corrigem os costumes), a sátira menipéia não moraliza, não objetiva corrigir as falhas morais de seu público. O maior cultor deste tipo de sátira amoralista cuja obra chegou até nós foi o círio Luciano de Samósata, autor que criou uma forte escola de autores satíricos na tradição ocidental, influenciando, inclusive, o nosso Machado de Assis na confecção do seu Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Dentre os estudiosos desse da sátira minipéia, destaca-se o russo Mikhail Bakhtin. Estudando a obra de François Rebelais, o autor dos clássicos “Gargântua” e “Pantagruel”, Bakhtin elenca e analisa os traços essenciais da menipéia. A seguir, enumero apenas aqueles aspectos que se coadunam com South Park, a fim de comprovar sua filiação ou, ao menos, sua afinidade com este modelo de literatura.

Liberdade quanto à verossimilhança – Embora South Park mantenha uma crítica ácida ao presente, o insólito e o absurdo irrompem a toda hora.

Fantasias e aventuras movidas pelo desejo de comprovar idéias abstratas – Freqüentemente, em South Park, a inserção de uma fantasia (sonho, imaginação, “lombra”) concretiza uma ideia abstrata, geralmente denunciando a estupidez humana ou a história como desfile de brutalidades e aberrações.

Não se atém a nenhuma corrente, critica todasSouth Park, como dito antes, não moraliza nem propõe: nivela tudo que é propositivo à encenação ridícula e absurda.

Naturalismo do submundo – Este é um dos traços mais salientes em South Park, onde as grosserias, o mau gosto proposital, as flatulências e as piadas em torno do ânus (no que o desenho lembra muito Rabelais, que chega a dedicar um capítulo inteiro de “Gargântua” às diferentes maneiras de se limpar a bunda) reforçam o não-levar-a-sério todo discurso que se queira edificante.

Presença da experimentação moral e psicológica – Este traço se evidencia seja na dupla personalidade do Sr. Garrison, seja nos devaneios sexuais incontidos do Chef em suas canções, seja na vida dupla da mãe de Eric Cartman, Ms. Cartman (mãe superproterora e mulher promíscua). Também é levado à derrisão do humor negro no episódio “Cartman Joins NAMBLA”, da quarta temporada, em que aparece uma associação de pedófilos reivindicando seus direitos de amar meninos.

Presença de contrastes agudos e jogos paradoxais – Este traço já se evidencia na própria aparência das personagens, com cara de criaturas fofas, mas que soltam palavrões a toda hora e aderem a posturas politicamente incorretas (especialmente Cartman, caricatura da extrema-direita americana). O contraste pureza/malícia, aliás, é um dos eixos de todas as histórias e componentes de praticamente todos os personagens.

Emprego freqüente de gêneros intercalados – Isto ocorre principalmente com a inserção do desenho “Terrance & Philip”.

Enfoque em tom mordaz da atualidade – Para Bakhtin, a sátira menipéia era uma espécie de gênero “jornalístico” da Antiguidade; de modo semelhante, South Park faz a crônica da sociedade americana em tom grotesco.

Situar South Park (mesmo que de modo lateral, mal acomodado) dentro da tradição da menipéia, além de dar inteligibilidade a aparentes absurdos da animação, ajuda, a meu ver, a corrigir uma leitura que geralmente é imposta ao desenho. Dizer que o desenho é politicamente incorreto é uma imprecisão. South Park, na condição de sátira menipéia, é do contra, não importa de quê ou de quem, basta apontar uma aclamação. A concepção de homem refletida no desenho é essencialmente negativa, pessimista: somos seres risíveis, ridículos, tanto quando queremos fazer o bem e como quando queremos fazer o mal. Assim, quando ser politicamente correto significa ir contra a estupidez da maioria, vale à pena. Os episódios protagonizados por Timmy, a criança especial, exemplifica bem o que falamos (o melhor desses episódios é intitulado simplesmente “Timmy!”). São episódios politicamente corretíssimos, onde Timmy, que sofre de retardo mental, é inserido sem a síndrome do coitadinho entre as crianças ditas normais – o preconceito fica por conta da estupidez adulta, abertamente rechaçada no decorrer da história. O mesmo se diga sobre o episódio que envolve a enfermeira da escola infantil (“Conjoined Fetus Lady”).

É preciso lembrar ainda que o ridículo da condição humana que o desenho aponta é reforçado pelo estilo da animação, isto é, a animação em recortes ou “cutout animation”. Gabriel Martins, num excelente texto publicado na Filmes Polvo, resumiu esta harmonia entre forma e conteúdo da seguinte maneira:

a série buscou se estruturar desde o início com uma linguagem que gerasse sempre um estado de primitivo, de colagem, de brusco. Com o tempo a animação da série visivelmente evoluiu, mas sua essência no que diz respeito a desenhos, movimentos e recortes permanece próxima da proposta inicial de ressaltar o ridículo das situações apresentadas. O posicionamento praticamente sempre em um mesmo plano, sem profundidade, traça um espaço “teatral” ao desenho, uma perpendicularidade com o olhar que não só enfatiza o caráter 2D como direciona os personagens sempre para o espectador. Existe o mundo dentro de South Park, completamente absurdo, como um espelho distorcido da nossa mediocridade. Não há lugar para poesia, portanto, neste universo. Toda e qualquer forma de expressão é apenas uma deixa para que a estupidez, o preconceito, o sarcasmo e o cinismo se sobreponham a qualquer virtude.

Não é que a técnica da animação em recorte seja ridícula em si (no desenho “Charlie e Lola”, por exemplo, ela sugere uma atmosfera de ingenuidade e lirismo), ela se faz ridícula no contexto do desenho, porque invalida com sua graça tosca a falsa seriedade de alguns personagens, os adultos principalmente. Esta técnica é tão evidentemente uma simulação quanto o modo de vida que é forjado pelos habitantes de South Park, microcosmo dos Estados Unidos.

Singularidade da sociedade americana

Henri Bergson observa que o maior inimigo do riso é a emoção. O riso, segundo Bergson, afina-se com a insensibilidade. Talvez a reflexão valha para South Park: seu riso da sociedade americana é sem concessões e revela um dos traços singulares da democracia americana. Recorro, mais uma vez, a uma citação de Gabriel Martins:

Ainda que existam claras diferenças, conflitos entre estúdios e canais, o show business [norte-americano] se estruturou através de uma prática autofágica de publicidade que não só sustenta os Estados Unidos no imperialismo cultural como enrijece um verdadeiro grande negócio, uma máquina que funciona com vários braços. Está lá, na primeira emenda da Constituição, uma liberdade de expressão que se traduz na “não intervenção” do Estado e que, com isso, possibilita a circulação de idéias – que representa, em muitos casos, alguma possibilidade de retorno mercadológico. É quase inexistente no Brasil uma análise da mídia nacional tão libertária, direta, mordaz e inteligente como South Park é para os Estados Unidos. [...] a aceitação do humor negro, da referência direta a figuras em instâncias de poder e da completa ausência de limites no que diz respeito aos bons costumes encontram, em South Park, representatividade das mais geniais na televisão norte-americana.

A citação acima permite afirmar que a “insensibilidade” do humor, para maturar plenamente, exige um Estado que respeite ao máximo a liberdade individual. Quanto mais “insensível” o humor, mais livre; quanto mais livre o humor, mais questionador. O humorismo de South Park força o alargamento das bordas; testa, para o bem ou para mal, o nível de tolerância da sociedade americana. Como afirmar William Young, “By ceaselessly testing the limits of our culture’s tolerance,  South Park  asks us to examine the things we think we know, why certain words and actions are prohibited,what we desire, and what we are teaching our children” [Por testar incessantemente os limites de tolerância da nossa cultura, South Park nos solicita a examinar as coisas que pensamos que sabemos, por que certas palavras e ações são proibidas, o que nós desejamos, e o que estamos ensinando nossos filhos]. E em outra parte: “Through its vulgarity, South Park verbalizes the drives and desires that we often repress; and, it allows us to laugh so as to reveal these inhibitions” [Através da sua vulgaridade, South Park verbaliza as pulsões e desejos que nós muitas vezes reprimimos; e isso nos permite a rir de modo a revelar essas inibições]. Diante desse quadro, é tentador fazer uma pergunta, que, no entanto, só pode ser respondida satisfatoriamente num outro texto: por que o Brasil não possui seu equivalente de South Park?. Talvez se trate de uma forma de humor alheia à nossa índole. Talvez, ainda, South Park caiba tão bem à realidade brasileira que nem precisamos reinvetá-lo. Mas talvez nossa democracia, falhando, restrinja o desenvolvimento da “insensibilidade” de nossos humoristas

* Wanderson Lima é escritor e professor de literatura da UESPI. Co-edita a revista dEsEnrEdoS [http://www.desenredos.com.br/] e mantém o blog O fazedor [http://blogdowandersonlima.blogspot.com/], onde escreve sobre cinema e literatura.

Referências Bibliográficas

BAKHTINM. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987.

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983.

CARVALHO, Wandercy de. A sátira menipéia no contexto da Revolução de Abril: Alexandra Alpha, de José Cardoso Pires. Dissertação (mestrado). Rio de         Janeiro: UFRJ/ FL, 2008.

MARTINS, Gabriel. South Park – pois é preciso desconcertar a mídia. In: Filmes Polvo. Disponível em: < http://www.filmespolvo.com.br/site/artigos/plano_sequencia/669>. Acesso em jun. 2011.

STEINER, George. Linguagem e silêncio: ensaios sobre a crise da palavra. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

YOUNG, William W. Flatulence and Philosophy. A Lot of Hot Air, or the Corruption of Youth? Disponível em: < http://media.wiley.com/product_data/excerpt/30/14443345/1444334530.pdf> Acesso jun. 2011.

3 Comentários para: “A sátira sem limites de South Park

  1. Prezado Wanderson

    Foi com grande alegria que, por puro acaso, descobri meu nome citado, juntamente com um fragmento da minha tese de mestrado, nesse seu magnifico texto. Esta referência muito me agradou, não só por ser incluído em tão brilhante trabalho, como, também, por você reativar esse importante gênero literário que a humanidade, por mais conservadora que se torna, jamais se livrará.

    Atencosamente,
    Wandercy de Carvalho

  2. Muito interessante sua resenha sobre South Park, apesar de eu continuar achando a serie politicamente incorreta
    Porem, nao ficou claro qual a sua posicao sobre o desenho

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