Alemanha, Ano Zero (Roberto Rossellini, 1948)

Entre o real e o ficcional

*Por Marcella Grecco

Da imagem movimento à imagem tempo. O cinema moderno chega para romper com a excessiva objetividade do cinema clássico e abre espaço para uma forma subjetiva de apreciação: no pós Segunda Guerra Mundial uma imagem vale mais do que mil palavras.

O cinema ganha outra roupagem a partir da necessidade de se retratar uma Europa em crise: econômica, política, de valores, de tradição e, acima de tudo, do indivíduo. O Neo-Realismo Italiano tem como um provável marco inaugural o filme “Roma, cidade aberta” (1945), de Roberto Rossellini, promovendo um projeto de integração entre o ficcional, o experimental e o documentário. A Europa do pós-guerra era o palco perfeito para se retratar o momento histórico e o sentimento imperante, não havia necessidade de cenários, tudo estava em pedaços, a vida se assemelhava a um filme e podia-se caminhar entre os destroços de uma guerra recém terminada, os ânimos ainda estavam à flor da pele e o nó continuava na garganta.

Neste momento o cinema trabalha como testemunha, registrando o real através de ficções com grande dimensão social. Era menos a estética, o texto, a ação, e mais a imagem, o mundo como ele é. Faz-se muito o uso de atores não-profissionais e de cenas ao ar livre. A luz natural é aproveitada ao máximo, assim como o som ambiente. Muita improvisação e poucos cortes: as longas sequências são destaques no cinema moderno.

Um filme muito interessante e surpreendente pela frieza com que lida com a situação retratada é “Alemanha, Ano Zero” (1947), também de Rossellini. Nele fica evidente a nova concepção de cinema representada por esta corrente cinematográfica. O objetivo primeiro é o mundo. Não a história ou a narração, mas sim, as coisas do cotidiano. Longas sequências em planos abertos acompanham o garoto Edmund Meschke perambulando pela cidade de Berlim em ruínas. Ele circula pelos espaços e a câmera o segue. Nós contemplamos. Esperamos. Participamos. Exige-se o pensamento e o cinema abre espaço para tomarmos fôlego e refletirmos entre os acontecimentos.

Diante dos resquícios da guerra, Edmund não pode mais agir como qualquer criança. Apesar de ser preciso trabalhar para sustentar um pai doente e a família, sempre é rejeitado devido a sua idade. O jovem luta para sobreviver e as preocupações não condizem com a sua fraqueza tanto emocional quanto física. Até que, certo dia, um conhecido lhe sugere uma maneira de acabar com parte de seu sofrimento e o aconselha a matar o pai doente, desta forma, Edmund não teria que gastar com a família o dinheiro duramente conseguido por ele.  O filme tem um desfecho frio: sem ladainhas, sem jogo de câmera, sem manipulação de tempo. É o baque da realidade, é entender que as coisas acontecem e que o cinema retrata, neste momento, a vida como ela é.

O Neo-Realismo Italiano deixa claro que cinema não é só diversão. Pelo seu potencial de representação e por atingir um grande público, deveria ser utilizado também como uma ferramenta social. Com a recuperação da Europa e a reconstrução das cidades atingidas pela guerra o movimento foi perdendo força, entretanto, podemos notar traços desta corrente em diretores posteriores como Fellini e Antonioni, nos quais cotidiano e realidade continuavam a dividir espaço com os questionamentos do homem. Era outro momento histórico e havia outras crises, porém, no cinema italiano, o psicológico continuava a grande estrela.

*Marcella Grecco é graduada em Comunicação Social – hab. em Midialogia pela UNICAMP e pós graduanda em Jornalismo Cultural pela FAAP.


Referências Bibliográficas

MASCARELLO, Fernando (org.). História do Cinema Mundial. Campinas: Papirus, 2006.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus, 2006.

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