Ao Abismo – Um Conto de Vida, um Conto de Morte (Werner Herzog, 2011)

Por Gabriel Tonelo *

Durante a 17ª Edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, no início de 2012, aconteceu a pré-estréia de Ao Abismo, Um Conto de Vida, um Conto de Morte. O documentário, de mais de cem minutos de duração, surpreende tanto temática quanto estilisticamente, levando em consideração a obra de Herzog como documentarista. Poucos meses atrás, o diretor lançava A Caverna dos Sonhos Esquecidos que, entre imagens inéditas da caverna de Chauvet, expunha a beleza das inéditas pinturas rupestres, celebrando mais uma vez a vida e a humanidade. O caso de Ao Abismo, entretanto, surpreendeu por mostrar uma faceta bastante contrária ao que normalmente é tematizado por Herzog.

O filme gira em torno do universo de uma sequência de crimes acontecidos em 2001 em Conroe, no estado do Texas, que resultou no assassinato de três pessoas (uma mulher de cinquenta anos, Sandra Stotler, seu filho e um amigo). Os acusados pelo crime foram dois jovens, Michael Perry, condenado à pena de morte, e Jason Burkett, condenado à prisão perpétua. Os crimes teriam sido motivados pelo desejo de poder dirigir o carro de Stotler, um Camaro vermelho.

Toda a atmosfera que circunda o crime nos é explicada através de conversas de Herzog com diversas partes envolvidas na história. Descobrimos como de fato aconteceram os assassinatos – do ponto de vista legal e das acusações – através da conversa de Herzog com o delegado de polícia encarregado do caso. Para a polícia, os crimes teriam sido de fato premeditados com Jason Burkett e Michael Perry, o que levou à condenação dos dois. Tanto Burkett quanto Perry negam que tenham matado e um acaba por colocar a culpa no outro. Colegas dos dois prisioneiros afirmam que ambos teriam confessado os crimes informalmente, o que também é sustentado pelo delegado de polícia. Devido à complexidade do caso e pelo fato dos acusados defenderem-se invariavelmente nas conversas com Herzog, torna-se um pouco difícil compreender o que de fato poderia ter acontecido, apesar de que se possa crer, ao fim do filme, que os acusados não foram condenados injustamente.

Entretanto, como há de se esperar do diretor, as conversas de Herzog não são apenas uma maneira de entender e de explicar o crime. Além do delegado de polícia e dos dois condenados (Perry e Burkett), Herzog conversa com familiares das vítimas, com um ex-funcionário do Corredor da Morte, com a advogada de Jason Burkett (que se tornou sua esposa após pegar o caso), com um morador de Conroe (a cidade onde se passaram os crimes) que conhecia um dos assassinos, com o pai de Jason Burkett (também presidiário e que passou a maior parte de sua vida na cadeia) e com um padre, conversa que inicia o documentário. O clima que paira sobre as entrevistas é o de despedaçamento da vida, tanto dos acusados – um sendo entrevistado por Herzog apenas oito dias antes de sua execução e o outro constatando ao diretor que, com sorte, sairá da cadeia aos sessenta anos -, quanto dos familiares das vítimas, cujas vidas são marcadas pela perda de entes queridos. Principalmente na primeira metade do documentário, Herzog também insere – especialmente sobre as falas do delegado – vídeos feitos pela própria polícia das cenas dos crimes: na casa de Sandra Stotler e nos lagos onde os outros jovens foram mortos e desovados. Sendo assim, além do tom sombrio marcado pelas conversas de Herzog com os entrevistados, o diretor decide utilizar as imagens “cruas” da perícia, que mostram respingos e rastros de sangue, bem como partes dos corpos das vitimas no momento em que foram achados.      A utilização de entrevistas com os condenados, com os familiares das vítimas e a inserção de vídeos de cena do crime são procedimentos que remetem a documentários como o paradigmático Paradise Lost (Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, 1996), Life with Murder (John Kastner, 2010), ou até a filmes classificados como shockumentaries.

Como esse tipo de abordagem poderia ser relacionado com a autoria de Herzog como documentarista em sua produção anterior? É pertinente notar o desvio que existe na temática de Ao Abismo se comparada à temática de tantos outros documentários de Herzog. Se lembrarmos de protagonistas como Fini Straubiger (Terra do Silêncio e da Escuridão), Reinhold Messner (The Dark Glow of the Mountains), Graham Dorrington (The White Diamond), as pessoas encontradas na Antártida (Encounters at the End of the World) ou da celebração do Kalachackra (Wheel of Time), pode-se pensar em situações onde o sopro da vida e o aproveitamento da existência (das mais variadas formas) é algo latente nas narrativas.

O tema da morte e sua representação, de fato, já teriam sido abordados em documentários anteriores do diretor. Desde um nível brando onde moradores solitários da ilha de Guadalupe esperam sua morte anunciada (que de fato não chega a acontecer) em La Soufrière (1977), nas perigosas empreitadas de Reinhold Messner (que vitimam seu próprio irmão), ou até em níveis mais complexos dessa representação, como na relação entre Herzog e a memória de Timothy Treadwell. Entretanto, a proximidade da morte, nesses casos, mostrava-se determinantemente ligada à liberdade pessoal de cada indivíduo e às suas escolhas de vida. Como sabemos, Timothy Treadwell sabia que poderia ser engolido por um urso a qualquer momento, mas via na convivência com eles o motivo de sua existência. Da mesma maneira, Reinhold Messner continuava escalando montanhas incessantemente, mesmo após ter perdido os dedos dos pés e ter seu irmão vitimado por uma escalada. São coisas completamente distintas se comparadas à abordagem proposta por Herzog em Ao Abismo. A questão da pena de morte – ainda existente no estado do Texas – sempre vem à tona em entrevistas com o diretor sobre o filme. Herzog diz que não se trata exatamente de um filme sobre a questão da pena de morte, apesar do fato de Michael Perry (que espera sua execução no corredor da morte) ser um dos motes do documentário. O que fascina o diretor, segundo ele próprio [1], é o fato de que essas pessoas sabem exatamente quando vão morrer e a maneira através da qual isso acontecerá: cada detalhe do ritual, cada procedimento, eles sabem exatamente. Da mesma forma, a entrevista de Herzog com o ex-funcionário de uma das prisões expõe exatamente como é o último dia de um condenado à morte, desde suas refeições até o momento em que o amarram no momento da execução e após a consumação do ato.

As conversas de Herzog com os familiares das vítimas são bastante tristes, onde o diretor pergunta sobre a relação com os parentes assassinados: no caso de Lisa Stotler-Balloun, seu irmão e sua mãe, e no caso de Charles Richardson, seu irmão mais novo. As vidas dos dois entrevistados são marcadas por outros tipos de tragédias: perdas de outras pessoas da família em circunstâncias violentas, envolvimento com drogas, prisões. Não é um cenário diferente da vida dos condenados, como Herzog descobre durante as conversas com Michael Perry e Jason Burkett (e seu pai), frutos de infâncias difíceis, pobreza, envolvimento com drogas e outros tipos de crime. Mesmo a sequência inicial, em que Herzog entrevista um capelão que conforta condenados à pena de morte, também é melancólica. Ao conversar com Herzog sobre o fato de Deus ser misericordioso, o padre chora ao dizer que gostaria, mas que nada pode fazer para impedir a morte dos condenados.

O desvio do documentário em relação a outros filmes de Werner Herzog não se aplica somente ao tema proposto, como também ao leque estilístico utilizado pelo diretor: inexiste no filme a tradicional narração de Herzog, característica incorporada pelo diretor a partir de 1974 e dominantemente utilizada em suas narrativas desde então. O voice-over de Herzog é o principal instrumento utilizado pelo diretor para refletir-se em seus documentários, sendo visto por Roger Ebert, crítico que acompanha de perto as produções do diretor, como uma característica central para o appeal de seus documentários [2]. Diversas funções são extraídas da narração de Herzog através das décadas, desde comentários expositivos e descritivos, passando pela tradução da fala de entrevistados não-anglófonos ou, dependendo do caso, não-germanófonos (ele não utiliza legendas), e indo até a expressão pessoal do diretor de suas opiniões, sentimentos e julgamentos do tema por ele proposto (O Homem UrsoEncounters at the End of the World são bons exemplos). Através da narração, Herzog cria um vínculo indissociável entre si próprio e a narrativa, muitas vezes fazendo do vínculo uma arma argumentativa que acaba por sobrepor sua figura à do objeto de sua filmagem.

A ausência da narração de Herzog em Ao Abismo suscita uma série de questões, principalmente levando em consideração a temática proposta. A voz over é uma característica que, por sua própria natureza, comporta-se como uma voz vertical, impossibilitadora de qualquer tipo de resposta ou argumentação direta. Como sabemos, também, a narração de Herzog frequentemente adquire um aspecto “dramatizador”, onde a voz do diretor acaba por ser um instrumento que adiciona emoção ou tensão à narrativa criada. Acredito que, nesse caso, Herzog escolhe por não se colocar acima dos envolvidos na narrativa, ao roteirizar e narrar um discurso. Talvez exista sofrimento demais em Ao Abismo para que o diretor corra o risco de estabelecer algum julgamento moral que não possa ser imediatamente contestado pelos entrevistados do filme.

O fato de não haver narração em over de Herzog, entretanto, não faz com que a presença do diretor inexista no filme. Em primeiro lugar, a função “vertical” da narração do diretor é substituída pela inserção de letreiros explicativos, contextualizadores, que, apesar de esparsos, podem ser relacionados à atividade da voz over. Vale frisar que esse tipo de letreiro explicativo também é uma característica certamente incomum – da maneira que a vista em Ao Abismo, inédita – na carreira do diretor. Em alguns momentos do filme, principalmente no hiato entre um depoimento e outro (onde Herzog possivelmente inseriria sua voz over), temos a adição de um letreiro informativo. Em alguns deles pode-se sentir o estilo da narração do diretor, mesmo que através de um estímulo visual. Um exemplo pode ser dado quando vemos o vídeo da cena do crime dentro da casa de Sandra Stotler, em sua sala de estar. O letreiro informa: “Dias depois do assassinato. As luzes continuam ‘queimando’ e a televisão está ligada, intocada.” [3]. Outro exemplo dessa abordagem surge quando o pai de Jason Burkett (um dos condenados), Delbert Burkett, diz a Herzog que sairá da cadeia em 1941. Herzog o corrige e diz que o certo seria 2041 e, em seguida, diz que o tempo para ele deve se comportar de maneira diferente, dentro da prisão. Ao fim da passagem, antes de se iniciar uma sequência onde vemos o carro de Sandra Stotler no pátio da polícia, o letreiro diz: “Que século… que década… dez anos após seu assassinato, o carro de Sandra Stotler ainda está em um parque de custódia da polícia, na ameaçadora companhia de outros crimes” [4]. Tanto a reflexão acerca da passagem do tempo quanto a humanização do carro da vítima são aspectos que ultrapassam a simples explicação ou contextualização e são vinculados a um processo reflexivo de Herzog, mesmo sem a utilização de sua voz própria.

Ainda que se possa pensar em uma reflexão de Herzog na narrativa através dos letreiros, sua interação no documentário vai bastante além. Ao Abismo é certamente o documentário, na carreira de Herzog até aqui, onde sua atividade como entrevistador tem o maior peso. Em todas as conversas feitas pelo diretor no filme podemos escutar sua voz como um ativo interlocutor. Sente-se que Herzog está de fato investigando e sendo introduzido a informações novas ao mesmo tempo em que as experienciamos como espectadores. Uma razão para isso reside no fato de que Herzog teve apenas (no máximo) uma hora com cada entrevistado no filme, sem ter tido nenhum contato prévio com eles [5]. O diretor já tinha conhecimento sobre o crime e sobre as acusações em si por já ter lido milhares de páginas da transcrição dos julgamentos. No entanto, a relação direta com os familiares das vítimas, com os condenados e os outros participantes do documentário é o lugar onde Herzog utiliza sua posição de entrevistador para descobrir as nuances das personalidades com as quais está lidando e, ao mesmo tempo, trazê-las à luz para os espectadores.

Seria supérfluo registrar todas as intervenções de Herzog como entrevistador, pois, de fato, é uma característica que está dominantemente presente em todo o documentário. No entanto, o que é pertinente ressaltar é o fato de que o diretor desempenha diversas funções como entrevistador, através de sua voz off. O que comumente é feito pelo diretor através de sua narração em over, como o comentário explicativo e a expressão de suas próprias opiniões, por exemplo, é sumarizado em Ao Abismo pela atividade de Herzog como interlocutor na própria ocasião da tomada. Alguns pontos-altos da atividade do diretor como entrevistador podem ser aqui ressaltados, principalmente no que diz respeito à expressão de opiniões pessoais durante as conversas ou à maneira através da qual se pode inferir que o diretor está vivenciando novos conhecimentos na ocasião da tomada.

A primeira entrevista de Herzog com Michael Perry, logo nos primeiros minutos do filme, é um subsídio para a análise dessa característica. Após Perry sentar-se do outro lado da cabine, através da qual ele e o diretor conversarão, o diretor diz ao entrevistado que ele ainda não está com o microfone ligado e o vemos limpando o vidro da cabine para a filmagem. Com o dispositivo já preparado, Herzog diz a Perry: “Michael Perry, de toda nossa equipe gostaríamos de oferecer condolências. Seu pai faleceu.”. Após isso, Perry diz que seu pai morreu há treze dias e que – se de fato ocorrer – deve ser executado em oito dias e que está sem energias, como que sofrendo de algum tipo de depressão. Herzog então fecha a sequencia com a seguinte fala:

Tenho a sensação que, de certo modo, o destino te deu uma “mão” de cartas muito ruim. Isso não te exonera e, quando eu falo com você, não quer dizer necessariamente que eu tenha de gostar de você. Entretanto, eu te respeito. Você é um ser humano e eu acho que seres humanos não devem ser executados.

Essa fala do diretor revela desde o início do filme algumas prerrogativas de sua posição diante do tema abordado. Herzog revela, no momento da tomada e em conversa direta com o entrevistado, que não é a favor da pena de morte e que sua posição diante dos acusados não é necessariamente a de cumplicidade. Entendemos que Herzog, ao longo das entrevistas, vê os homicídios cometidos pelos dois jovens certamente como atrocidades, mas que, ao mesmo tempo, não concorda com a pena capital aplicada como pena. Como exemplo, durante a conversa com Lisa Stotler-Balloun (filha de Sandra Stotler e irmã de Adam Stotler, ambos assassinados), Herzog pergunta desolado “Por que eles morreram…?” em um sentimento de indignação e cumplicidade às vitimas, mas, em outro momento, diz a Lisa que a pena de morte parece uma coisa do Velho Testamento (a Ira de Deus) e que Jesus Cristo provavelmente não seria adepto da pena de morte.

O principal debate acerca de Ao Abismo, portanto, reside no fato de que Herzog acaba por trocar utilizar-se da indeterminação da tomada e do embate direto com os entrevistados do filme como um contraponto a um estilo narrativo pelo qual tornou-se conhecido. Frente à densidade e à profundidade do tema proposto, a representação da morte – tanto das vítimas dos homicídios quanto de Michael Perry, morto durante o próprio tempo cronológico do filme – o diretor decide deixar de lado diversos procedimentos estilísticos recorrentes de sua carreira e focar-se em manter uma posição ética. Ainda que Herzog tenha sido cuidadoso no caso de O Homem Urso ao lidar com a memória de Timothy Treadwell, existe menos modéstia de sua parte ao fazer de sua voz over um instrumento de contestação que não pode ser diretamente rebatido. Em Ao Abismo não houve a mesma coragem da parte de Herzog em tornar-se um comentador “soberano” dos fatos apresentados. Como dito anteriormente, Timothy Treadwell tinha consciência de que seu trabalho era perigoso e sua morte era iminente, porém correu livremente os riscos de sua empreitada. No documentário de 2012, entretanto, a posição de Herzog não poderia ser a mesma quando trata sobre comportamentos desumanos e psicóticos. Uma extensão desse pensamento reside no fato de a fruição sensória dada através da combinação de belas imagens da natureza e peças musicais igualmente belas, passagem tão recorrente na obra de Herzog, também inexistir no documentário.

Pode-se pensar que a sensação de tristeza e desolamento que entrecorta toda a narrativa de Ao Abismo está intimamente relacionada com o fato de Herzog abrir mão dessas características, sendo uma espécie de luto cinematográfico da parte do diretor. É como se a tristeza das pessoas retratadas na narrativa também o atingisse. Perante a isso, Herzog realiza um filme alertando aos espectadores – como também a si próprio – que entre paisagens belas e exóticas (florestas, geleiras, desertos) e pessoas iluminadas, coexistem os muros da prisão, o arame farpado e os recônditos mais agressivos e dolorosos da existência humana.

*Gabriel Tonelo graduou-se em Midialogia pela Universidade Estadual de Campinas, no ano de 2009, e tornou-se mestre em 2012 pelo Programa de Multimeios da mesma instituição.

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[1]Video: Werner Herzog on Into the Abyss. Disponível em http://www.guardian.co.uk/film/video/2011/sep/09/werner-herzog-into-the-abyss, acessado em 09/10/2012.

[2]EBERT, Roger. A letter to Werner Herzog: In praise of rapturous truth. Disponível emhttp://rogerebert.suntimes.com/apps/pbcs.dll/article?AID=/20071117/PEOPLE/71117002, acessado em 09/10/2012.

[3]“It is days after the murder. The lights have been burning and the TV has been left on, untouched”

[4]“hich Century… which decade… ten years after her murder, Sandra Stotler’s car still sits in a Police impounding lot in the ominous company of other crimes”

[5]ASDOURIAN, Raffi. Director Werner Herzog talks ‘Into the Abyss’. Disponível em http://thefilmstage.com/features/interview-director-werner-herzog-talks-into-the-abyss/, acessado em 09/10/2012.

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