APRESENTAÇÃO DO DOSSIÊ N°16

Luciana Corrêa de Araújo e Mateus Nagime

Editores

 

Nas últimas décadas, acompanha-se no Brasil o crescimento gradual de estudos e publicações voltados à preservação audiovisual. Livros, artigos, catálogos, teses, dissertações e blogs têm se dedicado a explorar os variados aspectos da preservação, um campo de prática e reflexão que, embora de importância vital dentro do universo do audiovisual, ainda continua por merecer maior atenção, reconhecimento e apoio.

O Dossiê “Preservação audiovisual: trajetória e perspectivas” surge com a intenção de contribuir para as reflexões na área, reunindo artigos que abrangem tópicos variados e juntos formam, a nosso ver, um quadro bastante representativo das questões que hoje mobilizam o campo da preservação audiovisual.

As transformações que se impõem a partir da disseminação da tecnologia digital constituem um dos eixos principais a percorrer os artigos. No entanto, entrelaçadas ou não ao digital, outras perspectivas também se desdobram ao longo do dossiê, explorando dimensões políticas, históricas, tecnológicas, curatoriais etc.

O digital é colocado em questão sob a ótica da programação, do depósito de filmes estrangeiros e da própria identidade dos arquivos fílmicos no artigo de Jon Wengström, “Formando uma coleção de filmes e programando no futuro: o destino de filmes estrangeiros nos arquivos diante da mudança do formato de 35mm para DCP na distribuição cinematográfica”. Ele aponta os principais problemas que a exibição em DCP pode causar no estabelecimento de uma “memória audiovisual nacional” e propõe soluções que valem não só para o contexto da Suécia, onde atua como curador junto ao Instituo Sueco de Cinema, mas também para arquivos em todo o mundo.

A relação dos arquivos fílmicos, no Brasil e no exterior, com a tecnologia digital é abordada por Mateus Nagime no artigo “O digital na preservação audiovisual”. O autor faz um histórico do uso de ferramentas digitais nos principais arquivos brasileiros e também em projetos de restauração fílmica, além de apontar para a dificuldade em se preservar materiais nascidos em digital, especialmente os chamados materiais correlatos: objetos que ajudam a compreender uma imagem em movimento e cuja salvaguarda tem sido historicamente preocupação dos arquivos.

Algumas especificidades técnicas do trabalho com preservação digital são esclarecidas no depoimento “Minha experiência como estagiária em preservação de vídeo usando ferramentas digitais”, de Lorena Ramirez-Lopez, que recentemente concluiu seu Mestrado em Preservação e Conservação de Imagens em Movimento pela Universidade de Nova Iorque (NYU), a instituição de ensino hoje na vanguarda em preservação de arquivos digitais e de internet.

No processo de aprendizado exigido pelas novas possibilidades e ferramentas do digital, mostra-se valiosa a colaboração com profissionais da área de Informática, como apontam Lorena, no seu depoimento, e também Paulo Carneiro da Cunha Filho e Igor Calado no artigo “O conceito de preservação à luz do projeto de implantação da Cinemateca da UFPE”. Neste último, ao discutir conceitos e expor as escolhas implicados na constituição de uma cinemateca universitária voltada para a preservação de matrizes digitais, os autores destacam a parceria com o laboratório Liber, vinculado ao Departamento de Ciência da Informação da UFPE.

A elaboração de projetos na área de preservação e as relações históricas, conceituais e metodológicas implicadas nestes processos, caracterizam tanto o texto de Paulo Cunha e Igor Calado quanto o artigo de Eugenia Izsquierdo, “Antecedentes y reflexiones sobre el desarrollo de los lineamientos generales para la puesta en funciones de la Cinemateca y Archivo de la Imagen Nacional (CINAIN)”, no qual o ambicioso projeto de implementar na Argentina uma política pública de preservação audiovisual é situado historicamente e apresentado em suas principais linhas de atuação. Não são poucas as semelhanças que surgem ao se comparar o panorama argentino com o brasileiro, sobretudo na trajetória irregular e acidentada, marcada por constantes recuos e alguns avanços em prol de uma política pública para o patrimônio audiovisual nacional.

Estudos de casos de duas importantes experiências de preservação audiovisual realizadas no Brasil são apresentados pelos próprios profissionais que estiveram à frente desses trabalhos. Hernani Heffner escreve sobre “A restauração de Bonequinha de seda”, descrevendo o percurso de restauração deste filme de 1936, produzido pela Cinédia e dirigido por Oduvaldo Vianna. A trajetória dos materiais fílmicos, os recursos fotoquímicos e digitais utilizados na restauração, as escolhas quanto às intervenções digitais sobre os “defeitos” do material original e mesmo os limites de sofisticados programas digitais quando confrontados com materiais muito danificados, são alguns dos principais aspectos tratados por Heffner em seu artigo.

Outro estudo de caso, desta vez relacionado ao tratamento de um acervo pessoal composto por documentos os mais heterogêneos, é abordado por Anna Karinne Ballalai, no artigo “O Arquivo Rogério Sganzerla: Percursos de pesquisa e processos de criação”. Sua contribuição não só reforça a importância dos documentos em papel, que formam uma das frentes de trabalho fundamentais na preservação audiovisual, como também expõe os desafios que exigem do documentalista uma atenção especial à dinâmica de criação que rege a própria constituição de acervos pessoais e, no caso, do acervo de um cineasta como Sganzerla, em permanente processo de criação e transformação de suas obras.

A participação em discussões e atividades na área da preservação audiovisual suscita as considerações de Juliana Cardoso Franco em “Os filmes gritam? Ou os filmes silenciam? >Possíveis sons para uma mesma imagem”, artigo no qual se fazem presentes as oscilações entre vida e morte, conservação e destruição, que incidem tanto sobre materiais quanto sobre arquivos fílmicos.

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Graças aos autores e suas valiosas contribuições, este Dossiê tem o privilégio de oferecer um conjunto de estimulantes reflexões sobre a preservação audiovisual no Brasil e em outros países, em um diversificado arco de abordagens que contempla trajetórias históricas, transformações contemporâneas, desafios tecnológicos, discussões conceituais, políticas públicas.

Desejamos a todos uma ótima leitura!

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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