As Cidades Que Falam: A BRISTOL DE SKINS, A NOVA YORK DE GOSSIP GIRL.

Por Vinicius Gouveia*

Contrapor as séries de TV Skins (Canal E4) e Gossip Girl (Canal WC) não deve ser das tarefas mais difíceis. Após a exibição de um episódio de cada produto televisivo, fica clara a diferença entre eles. A britânica “Juventude à Flor da Pele” (tradução no Brasil para Skins) dá valor a uma fotografia sugestiva e, maliciosamente, trabalha a imagem e o som em função da potência plástica que elas tem para encantar e encarar o espectador. Já a americana Gossip Girl vai pelo caminho inverso, abusa de uma estética realista e, sem grandes maneirismos, se preocupa com a fidelidade visual dos acontecimentos. Fácil de encarar estes seriados como opostos?

Uma trama adolescente contemporânea no que tange às tecnologias e referências pops, colocando em discussão problemáticas da juventude – que, por sinal, perpassam gerações. De qual série seria esta sinopse? Das duas. Surpreendentemente, Skins e Gossip Girl, tão diferentes da realização ao público, parecem ser baseadas no mesmo conceito. Ambas tampouco abrem mão de drogas, sexo e adolescentes em crise (ritos de passagem e novas experiências). Embora compartilhem premissas semelhantes, o desenrolar de cada seriado toma seu próprio rumo. Enquanto vemos vísceras, artifícios e underground em Skins; Gossip Girl faz questão de zelar pelo realismo, pela assepsia e pelo mundo rico norte-americano. Dessa forma, as matizes sobrepostas à mesma sinopse colabora para a autenticidade de cada trabalho, afastando um do outro. Dentre tantos aspectos de diferenciação, nos debruçaremos sobre a escolha da cidade de cada série: Bristol e Nova York.

 

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No mundo rico e aparentemente perfeito de Gossip Girl, a Nova York (EUA) que conhecemos é a dos cartões postais mais caros. O roteiro não economiza nos locais mais abastados do UpperEastSide, situado em Manhanttan. Parte dos protagonistas vive no hotel The New York Palace da Madison Avenue, notoriamente conhecida pela proximidade com as grifes da 5ª Avenida. Estar em Nova York, ou melhor, viver na área mais rica de Nova York não é para quem deseja ter um cotidiano comum. E, assim como quem escolhe uma roupa pela grife, decidir morar no UpperEastSide é optar não apenas por conforto e uma boa vizinhança, mas também lidar com a imagem, a cultura e a dinâmica tão particulares daquele local, sempre focado nas aparências.

Em Gossip Girl somos apresentado a um mundo de aparências, exigente de uma etiqueta e falsidade típica da era informacional. É preciso parecer ser, muito antes de ser.O século XXI exige uma vida online (representada pelas redes sociais) para manter uma boa aparência e um bom networking. Não por acaso, a série gira em torno de um blog de fofocas de uma anônima, que age sob o pseudônimo “Gossip Girl” (a garota da fofoca, em tradução livre) que não tem dó de detratar os personagens principais.

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Nova York, ou o microcosmo dela onde a série se desenrola, não é um pormenor supérfluo, pelo contrário, sua representação fiel ressalta ao espectador os ares de verdade da história. Tal estética realista e asséptica da Big Apple se choca contra a podridão e hipocrisia do (perfeito?) mundo dos milionários. E, curiosamente, os significados se complementam: enquanto você vê beleza, dinheiro e harmonia no UpperEastSide (parte objetiva, visível), há uma sujeira que cresce e se espalha no espírito mesquinho e egoísta da nata nova-iorquina e entre suas relações de interesses (subtexto). Há uma tensão entre o que é visto e o que há por baixo disto. A Nova York milionária de Gossip Girl é realista em nome de uma representação pura e simples do real, mas que não se julgue essa opção como a saída mais fácil. Esta representação objetiva se confronta diretamente com a degradação moral dos personagens (aspecto mais subjetivo). É constante a tensão entre essa deterioração do caráter humano e a estética que privilegia a “beleza do senso comum” (dos personagens, das locações). É como se esta Nova York realista fosse uma bela Caixa de Pandora – a beleza palpável da embalagem ilude quanto ao seu teor nocivo e invisível aos olhos.

Skins retrata a história de um grupo de adolescentes ordinários, hedonistas e que preocupam-se tanto com o futuro quanto com a droga que logo consumirão. De fato, eles querem sentir a vida pulsar. Mas, ao contrário de Gossip Girl, Skins utiliza a cidade de maneira bem particular se comparado ao que é comumente visto na televisão.

 

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Gravado em Bristol, a série britânica opta por sair das grandes metrópoles e utiliza uma cidade desconhecida à audiência. Esse desconhecimento por parte do espectador oferece aos realizadores mais poder na invenção de uma urbanidade para a cidade, o que seria muito mais difícil em cidades conhecidas, como Nova York ou Londres. Mesmo que a organização da cidade não fique tão clara na cabeça de quem assiste, a série se desenrola sem problemas.

 Numa metrópole não seria possível possuir a liberdade (em vários aspectos) que os jovens do seriado gozam, nem o desprendimento (não total) à imagem on e off line. Entretanto, a cidade não é fator limitante, mas  sim o ponto de partida. Ela vai além do bem e do mal, afastando-se de interpretações rasteiras – não se pode em Skins definir o adolescente apenas pelo meio. Repleta de vicissitudes, esta Bristol também tem seu lirismo e escapismo. Ela abraça os jovens com o seu melhor e seu pior, eles podem trilhar o próprio caminho nesse emaranhado de vícios e virtudes.

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Assim como em Gossip Girl, a cidade é utilizada para fortalecer o conceito da série. A Bristol de Skins tem cores carregadas, é caracterizada pelo artifício. Existe uma poesia nessa escolha. O efeito de realidade é mais volátil nessa cidade, mas não chega a uma sublimação total. Paredes, estradas e o concreto existem fisicamente, mas a artificialização visual parece nos colocar diante de um sonho torto, meio realista. Essa plasticidade cuidadosamente colorida dá asas à imaginação e sensibilidade de quem assiste. A fruição espectatorial é imprescindível, ela evita (enfraquece, pelo menos) interpretações lógicas e valoriza aquelas que são sentidas, são sensíveis aos dramas da série. Por isso, além de alegórica e artificial, a cidade em Skins também é underground, visceral e poética. Embora carregada visualmente, a Bristol do seriado tem a impessoalidade das cidades contemporâneas, ela abriga todos, mas não pertence a ninguém. De uma beleza urbana periférica, a cidade em Skins, como tantas outras, possui uma dinâmica supersônica e hipermodernista próprias do século XXI. Esta cidade não julga, mas também não poupa.

*Vinicius Gouveia é estudante de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Pernambuco

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