Bagdad Café (Percy Adlon, 1987)

Raphael Fonseca*

Alemão e inglês

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.
(Vinícius de Moraes)

Eis um filme que pode começar a ser analisado em torno do número dois. Temos dois títulos habitualmente dados a ele. O primeiro, que foi pensado por seu diretor, Percy Adlon, é “Out of Rosenheim” (“Fora de Rosenheim”). Esta cidade existe de fato e fica localizada na região da Bavária, na Alemanha. Estas palavras deixam clara a primeira situação do filme: deslocamento geográfico. Nossa personagem principal, oriunda da fria Rosenheim, encontra-se imersa em uma “desert road from Vegas to nowhere” (“estrada deserta de Vegas para nenhum lugar”), como diz a célebre faixa principal de sua trilha sonora, “Calling you” (regravada até mesmo por Gal Costa).

Já no título mais conhecido, “Bagdad Café”, também encontramos as tais duas palavras. Aqui elas apontam para dois macrocosmos: um deles é dado pela geografia já citada no outro título, ao passo que o outro gira em torno da alimentação. Dentro da narrativa fílmica encontramos duas mulheres que podem ser interpretadas como as personagens principais. Uma gorda, uma magra. Uma branca, uma negra. Uma delas advém da Alemanha, a outra metralha palavras exaltadas em inglês. É sobre quando os dois tornam-se um (sem conotações sexuais, por favor). A temática que salta aos olhos nesse filme é a dos encontros casuais, nada premeditados, assim como quase tudo em nossas vidas.

Não se trata aqui de destino, já que o filme não aponta para transcendências desse tipo; tudo se dá no campo da solidão e do agir em separado. Temos uma turista que sofre o descaso de seu marido e acaba por deixar-se perder nesta paisagem desértica, conhecida nossa de road movies como “Sem destino” (1969, de Dennis Hopper). Em vez de retornar ao seu habitat natural, ela opta por vagar em seu entorno, chegando ao Bagdad Café, coordenado pela outra mulher.

Temos aqui a construção de um grupo de relações geográficas que acaba por envolver Europa, América e Oriente Médio, nesta ordem. Curiosamente, é neste último espaço que os personagens conseguem encontrar uma mínima sintonia e possibilidade de diálogo. Ao contrário disso, na capital do Iraque dos anos 80, contemporânea ao filme, encontramos a guerra contra o Irã e a Guerra do Golfo, além de mais recentemente a campanha norte-americana anti-Saddam Hussein.

Os pólos opostos dão-se para além da narrativa, sendo demonstrados nas opções de linguagem do diretor. Em um plano presente nos quinze minutos iniciais do filme, quando Jasmin e Brenda ficam frente a frente pela primeira vez, ele divide a tela em dois espaços.

Sentada em uma poltrona, à frente de seu estabelecimento, aquela que já é natural deste ambiente seco. Do outro lado vemos a estranha, a exótica, trajando roupas tradicionais alemãs, mala próxima e olhando para o “outro”. A alteridade cultural dá o tom ao filme. Separando ambas, uma parte de arquitetura começa a enferrujar, no centro da composição. É possível interpretar a chegada de Jasmin justamente no caminho oposto ao enferrujar. Ela e sua bagagem cultural (metaforicamente lida nesse mesmo plano através de sua mala) inicialmente causam espanto aos habitués de Bagdá – e vice-versa, já que em um rápido plano, ao deparar-se com uma série de pessoas cuja cor de pele não é a sua própria, ela se imagina sendo devorada por canibais.

Mas não teriam sido ambas as partes devoradas, transformadas? Se os clientes da cafeteria são atingidos pela mania de limpeza da mulher alemã, esta também se entrega à família de Brenda, mudando sua forma de vestir e mesmo servindo de modelo para as pinturas do mais velho dos freqüentadores do espaço. Lidamos com uma recodificação cultural de ambas as partes; a “outra” servindo como modelo do “outro”, dentro do ponto de vista diagonal de cada um deles.

Podemos utilizar as palavras do personagem de Vittorio Gassman em “O jantar” (1998, de Ettore Scola), e dizer que “Bagdá Café” é um filme sobre conviver, viver em conjunto, dentro de um espaço construído para tal, ou seja, uma cafeteria/restaurante, projetado para o “comer-beber-viver”, já sob uma perspectiva de Ang Lee. Se a inconstância da qualidade do café servido em Bagdá poderia ser um problema, rapidamente transforma-se em um detalhe e aquele ambiente permeado pela imanência das refeições, uma de nossas necessidades fisiológicas, acaba dando espaço para a mágica, o inusitado, o irreal. O conviver cobre o comer-beber.

Raphael Fonseca é graduado em história da arte pela UERJ e mestrando em história da arte pela UNICAMP

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