Bang Bang (Andrea Tonacci, 1971)

Por Felipe Carrelli*

Se Bang Bang, de Andrea Tonacci, em uma televisão de 29″ com um VHS mofado era bom, em 35mm no cinema superou minhas expectativas. Não pelo saudosismo ou pela masturbação intelectual, mas pelo simples fato de poder ver e ouvir com clareza. E se o 3º Festival de Cinema Latino Americano ensina que cinema não se assiste na sala de aula, Tonacci ensina que cinema não se aprende com fórmulas.

Dentro da sessão “Desdobramentos do Cinema Novo”, Bang Bang ocupa lugar de respeito entre tantos filmes dos homenageados Fernando Solanas e Tomás Gutierrez Alea se encaixando perfeitamente na proposta do festival, no desenvolvimento do cinema latino-americano como linguagem… Tonacci brinca e satiriza os elementos do filme americano, especialmente os filmes policiais, desconstruindo os tiroteios, perseguições de carro e a figura do bem versus mal.

Pertencente ao movimento do Cinema Marginal, Bang Bang apresenta continuando a idéia do cinema barato, feito com “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, voltados à realidade brasileira e com uma linguagem adequada à situação social da época., mas com uma abordagem escatológica, ligada ao movimento de contracultura do final da década de 60, encaixando-se no movimento udigrude, como ironizaria Glauber Rocha em referencia ao movimento “underground” que influenciava jovens ao redor do mundo. Essencial dizer que a abordagem do filme é muito mais urbana – mostra-se a classe média com ironias, sátiras, sem abandonar as questões sociais e culturais, mas ignorando a ética do cinema novo para retratar a realidade de forma tosca e debochada.

A construção de Bang Bang parece muito influenciada pela alucinada, incansável  e frenética veia da literatura do movimento “beatnik”, liderado por Jack Kerouak e seu livro On the Road, que buscava uma escrita sonora e celebravam a não-conformidade e a criatividade espontânea. Além disso, o filme nasce em um tempo de pessimismo causado pelo insucesso do cinema novo, que, aliás, juntamente com a crise política vigente na época levaram os filmes da “boca do lixo” – outro termo para designar o cinema marginal – a assumir o seguinte lema: “Já que não podemos fazer nada, a gente se avacalha e se esculhamba”.  Erotismo, pornografia e o grotesco eram elementos indispensáveis nesse período.

Experimental, confuso, desconexo, dinâmico, alucinado. O filme de Tonacci esbanja planos seqüências de longa duração que, quase sempre, não estão diretamente relacionados com o plano anterior ou seguinte. Um espectador desatento poderia até pensar que não existe relação alguma, o que não estaria de todo errado. O grande segredo de Bang Bang, para mim, é justamente esse caos narrativo. A história é o que menos importa, e Tonacci deixa isso bem claro no final quando pela primeira vez a “mãe” dos ladrões começa contar a história do filme, mas é interrompida por uma torta sem remetente. O destinatário é claro: a todos aqueles que precisam e procuram uma narrativa transparente. Para eles o diretor manda uma torta, a la Gordo e Magro ou os Três Patetas.

“Porque a gente tem sempre que entender o que as coisas falam? Palavras são sensações também, sopros”, diria mais tarde Cao Guimarães, outro mestre da experimentação, na mesa Realidade: Apreensão e Representação, do Ciclo de Debates do festival. Andrea Tonacci parece seguir esse mandamento “Não explicarás” a risca em Conversas no Maranhão, em que mostra um índio contando seus causos por um longo tempo, mas seu falar impossibilita o entendimento da narrativa. Pesca-se uma ou outra palavra nesse oceano de informação. Para mim, é a metáfora de nossa sociedade, em que a informação é jogada aos baldes, e nós somos obrigados a absorver, filtrar, entender e expressar nossa opinião no meio dessa enxurrada de cultura inútil e ressaca jornalística. No caso do índio, ele pede socorro a sua aldeia, ameaçada pelos fazendeiros que querem tomar as terras da tribo, e nós somos incapazes de entender sua linguagem, quiçá suas necessidades.

Mas esse texto está fugindo ao tema: cinema. Deixemos essa discussão para depois, talvez em um bar, tomando os restos das cervejas, ouvindo o telefone tocar sem parar e sem garçom para atender (o aparelho ou o pedido). O bêbado (então su eu prefiro não colocar o nome do filme, pra dar mais ritmo ao texto, mas se vc achar indispensável pode colocar)de Bang Bang é sensacional: “ele não vai vir não, pede tudo de uma vez: cerveja, cigarro, telefone… Vai tomar resto? Você vai se dar mal!”. Repete-se coisas desse tipo durante toda a seqüência e irrita o personagem. Se a cena diverte o espectador, o mesmo não se pode dizer do maldito telefone, que toca sem parar, alto e incessante.

Irritar o espectador, esse parece ser o objetivo de Andrea Tonacci em seu filme. Quebrar a catarse não parece ser o bastante. O diretor confunde e atordoa aquele que assiste Bang Bang, tentando despertar o público da monotonia e mesmice do cinema. “Oi, tudo bom.”, “Mas porque você falou tudo bom, se eu não perguntei?” E a conversa não prossegue, e começam de novo, e novamente não está certo e recomeçam. Uma clara ironia aos diálogos vazios do cinema narrativo hollywoodiano – o diálogo inútil, uma narrativa inútil, um cinema inútil do ponto de vista social, ideológico e cultural.(opa!? Ou seja, inútil eheeh). Tonacci joga a torta em tudo isso, enquanto os ladrões continuam fazendo piquenique e comendo a vontade, do bom e do melhor, em todas as cenas.

O motorista dirige o taxi tranquilamente quando o personagem se joga na frente do carro. Começa ai uma briga, que se repetirá depois. Como se dirige? Com calma, nas leis, ou no instinto, na ânsia? Os dois brigam. Motorista muito cauteloso, passageiro frenético. O carro continua enguiçando, mas o motorista não se abala, continua seu dia a dia. É difícil passar a marcha, mas é mais difícil mandar arrumar, então não importa. Um louco tenta mudar seu rumo e por isso ele o expulsa do carro. A história se repetirá e o final será o mesmo.

Enquanto nada muda, uns dançam no telhado, outros bebem no bar, e outros comem e se esbanjam. A perseguição nunca tem fim, os carros continuam se afastando, mesmo quando parecem estar se acercando. Uma batida e uma explosão. “A melhor grua do cinema brasileiro”, alguém escreve.

O mágico denuncia: ainda emitamos Meliés. E o público se diverte. O filme termina feliz, aberto e pessimista. Enfim, sem final.

*Felipe Carrelli é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

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