Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (Christopher Nolan, 2012)

Por João Paulo Capelloti*

O cineasta inglês Christopher Nolan era um semi-desconhecido em 2005. Havia lançado comercialmente dois filmes engenhosos e elogiados pela crítica – Amnésia (2000) e Insônia (2002) – quando propôs uma abordagem realista para o personagem Batman, nos mesmos moldes dos quadrinhos de Frank Miller na década de 80 (que não só recontavam sua origem, como também o levavam a extremos de contornos trágicos). O tom proposto era arriscado: as adaptações audiovisuais produzidas até ali, e consolidadas no imaginário coletivo, iam num sentido mais fantasioso, do seriado recheado de onomatopeias nos anos 60 aos exageros multicoloridos (e aos mamilos) dos filmes de Joel Schumacher no fim dos anos 90.

Todavia, a Warner bancou as apostas do diretor e de seu roteirista David S. Goyer, e Batman Begins (2005) foi bem recebido pelo público e pela crítica, que o viam como a “salvação” do personagem depois do carnaval de Schumacher. Com maior liberdade (e orçamento) Nolan ousou mais em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), a começar pelo desafio à interpretação icônica e “definitiva” de Jack Nicholson como o Coringa no primeiro Batman, de Tim Burton (1989). Como resultados, uma das maiores bilheterias da história e um Oscar póstumo a Heath Ledger. Agora, com um orçamento ainda maior em mãos e as expectativas da legião de fãs conquistados (que chegaram a cunhar a frase “In Nolan we trust”, substituindo Deus na frase das notas de dólar), o diretor conclui o arco dramático de seu herói de forma grandiosa e satisfatória.

Aliás, se fosse necessário descrever Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge com um único adjetivo, esse seria “coerente”, pois esse capítulo final une-se perfeitamente aos elementos dos filmes anteriores, com os quais estabelece diversas rimas conceptuais.

A história, que se passa oito anos depois dos incidentes retratados em O Cavaleiro das Trevas, encontra um Bruce Wayne recluso e um Batman que se retirou das ruas ao assumir a culpa pela morte do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart) – o qual, elevado a mártir, permitiu a aprovação de uma lei linha-dura que zerou a criminalidade em Gotham. Batman se vê forçado a voltar do exílio quando um terrorista, Bane (Tom Hardy), ameaça a cidade de uma maneira que as instituições não podem combater. Personagens novos e antigos compõem uma galeria em que cada um desempenha um papel-chave, a exemplo do que Nolan já havia realizado em A Origem (Inception, 2010).

No aspecto visual, o filme se irmana a seus antecessores, contando com uma paleta de cores fria, ressaltada por figurinos de cores essencialmente escuras ou pálidas (cores vivas são deixadas para momentos muito específicos). A imagem da caverna, o poço filmado de baixo para cima, que no primeiro filme está associada ao surgimento do Batman, é aqui retomada justamente como parte essencial de seu ressurgimento (noticiado já no próprio título).

E se nos dois filmes anteriores era recorrente a imagem do Batman voando com o auxílio de sua capa (justificando o epíteto “Homem-Morcego”, e reforçando as próprias escolhas simbólicas de Bruce Wayne ao compor seu alter-ego), isso jamais ocorre no capítulo final da trilogia, em que o herói caminha mais do que em qualquer outro filme. Isso não só ressalta sua dimensão humana e frágil – ecoando os problemas físicos de Bruce Wayne, fora de forma quando é forçado a reassumir seu posto –, mas também é uma espécie de preparação para a sagração definitiva do Batman como verdadeiro herói de Gotham, por meio de uma estátua em que, obviamente, ele está de pé.

Na verdade, a transformação de Batman em estátua reverbera um conceito que Nolan martelava incessantemente no primeiro filme da franquia: para combater o crime da forma que se propõe é necessário se tornar mais que apenas um homem, é preciso tornar a si mesmo um símbolo. É a grande lição deixada por seu mentor (e depois inimigo) Ra’s Al Ghul (Liam Neeson), que aqui retorna em um momento de alucinação. Abandonando o elemento fantasioso dos quadrinhos, nos quais o vilão era imortal, ressuscitando graças ao Poço de Lázaro, Nolan propunha, de modo factível, que a identidade de Ra’s Al Ghul fosse ocupada por diversas pessoas, o que, na prática, o tornaria imortal. A proposta de aplicação do mesmo conceito à figura do Batman, embora soe oportunista como medida de continuidade da franquia, na verdade representa conclusão perfeitamente lógica e coerente com um conceito inerente ao personagem e proposto desde Batman Begins. Bruce Wayne não é eterno, mas Batman pode ser.

Outro aspecto que ocupa espaço central desde o primeiro filme é qual a posição do super-herói diante do Estado. Pois uma das regras básicas da civilização é justamente a proibição do uso da violência por particulares (e seu consequente monopólio pelas instituições estatais, notadamente a Polícia e o Exército). Pensando objetivamente, Batman é criminoso ao bater em outros criminosos, e é esse o motivo de ser constantemente perseguido pelos policiais nos três filmes da série. O problema é esclarecido no sermão que Bruce Wayne ouve de Rachel Dowes (então interpretada por Katie Holmes), assistente do promotor, em Batman Begins.

Porém, é justamente a existência de males maiores, irremediáveis por meio das instituições tradicionais, que é explorada por todos os super-heróis dos quadrinhos, embora a questão só seja tratada de modo explícito nessa trilogia Batman. Portanto, onde parte da crítica vê uma propaganda da doutrina da lei e ordem, parece haver na verdade uma discussão que está no subtexto de todos os filmes de herói que, afinal, tratam de uma única pessoa agindo para além das instituições em prol de bens primários, como vida e segurança alheias.

Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, essa discussão está sintetizada nos diálogos entre o Comissário Gordon (Gary Oldman) e o detetive John Blake (Joseph Gordon-Levitt). E do mesmo modo que no primeiro filme é a insatisfação de Bruce Wayne com o julgamento do assassino de seus pais que o leva a se tornar o Batman, é a frustração de Blake com as limitações da Polícia o leva a abandoná-la.

O que está sempre em questão é a tentativa de destruição da sociedade tal como ela se apresenta hoje (para fins dramáticos, isso é constantemente ampliado para o mundo inteiro, ou uma cidade inteira que, por metonímia, transforma-se no mundo inteiro). Então, no fundo, o próprio mundo dos heróis é essencialmente conservador, pois trata de preservar o status quo para evitar a destruição do mundo todo.

Nolan, muito provavelmente, não está alheio a esse subtexto. Tanto que, em sua trilogia, o embate é sempre entre a preservação de Gotham tal qual se encontra, com seus políticos, mafiosos e policiais corruptos, ou a anarquia representada pela ausência de Estado. Em O Cavaleiro das Trevas, essa mensagem era ainda mais explícita, pois o elogio da ordem estabelecida era contraposto à proposta de caos e morte representada pelo Coringa. Neste O Cavaleiro das Trevas Ressurge, concluído o golpe de Estado de Bane, passa a ter vantagem quem tem mais força bruta e logo as novas instituições se revelam tão opressoras quanto as anteriores. É uma visão de mundo pessimista. No entanto, é injusto dizer que apenas a trilogia Batman adota essa perspectiva já que, talvez com exceção de V de Vingança (V for Vendetta, James McTeigue, 2005), todos os heróis lutam pela preservação do sistema, e não contra ele.

Que Batman reconheça isso é um passo adiante, tanto mais salutar quando pontua que esse sistema que será preservado contém, além de tudo, policiais corruptos e um prefeito egocêntrico. A ambiguidade moral, na verdade, acomete o próprio Bruce Wayne, que reconhece, no final de O Cavaleiro das Trevas, que permitiu que dezenas de inocentes morressem para que a identidade do Batman fosse preservada e o Coringa, afinal, detido.

Todo esse substrato político-filosófico da figura do herói consequentemente o torna uma figura trágica, por mais que existam elementos cômicos militando para não conferir seriedade ao personagem (que, afinal de contas, usa uma fantasia). O reconhecimento dessa dimensão trágica, e de todas as discussões e metáforas que se podem levantar a partir de sua própria existência, são as maiores qualidades de O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

*João Paulo Capelloti é graduado em Direito pela UNESP/Franca e mestrando em Direito das Relações Sociais na UFPR.

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