Biutiful (Alejandro González Iñarritu, 2010)

*Felipe Carrelli

Pôster do filme "Biutiful".

Não costumo ler muitas informações sobre um filme antes de assisti-lo, no máximo uma sinopse. No caso de Biutiful (direção de Alejandro González Iñarritu) a única informação que sabia antes de entrar na sessão era a filmografia do diretor: 21 gramas, Amores Brutos, Babel. Gostei da trilogia e, portanto, comprei o ingresso.

O fato é que na primeira meia hora do filme eu tive certeza que o filme se passava em Buenos Aires. Aquele sotaque castelhano, quase portenho; garotos jogando futebol nas vielas sujas; uma miséria escura do mundo subdesenvolvido, contrabando, pirataria, sistema de semi escravidão e exploração dos trabalhadores chineses. Sem dúvida, só poderia ser Buenos Aires, algum bairro perto de Boca ou no máximo Montevidéu. Então, um plano mudou tudo.

Cena do filme "Biutiful".

Uxbal (Javier Bardem) é um atravessador por profissão e médium nas horas vagas, depois de mais um dia de intensa negociação com imigrantes africanos ilegais, policiais corruptos, chineses exploradores, seu irmão trambiqueiro e sua ex-esposa bipolar, ele observa o por do sol laranja, empoeirado e entrecortado pela precária fiação dos postes. Bem ao fundo, a revelação: O Templo Expiatório da Sagrada Família. O principal símbolo turístico de Barcelona. A principal obra de Antoni Gaudí. Catedral cuja construção começou em 1883, ainda não está terminada. A exuberância que relata o desperdício e a luxúria espanhola. Cabe aqui então uma pequena, porém pertinente, digressão.

Nesse mês de fevereiro, o ex-prefeito de Curitiba por três vezes, e ex-governador do Paraná por duas, Jaime Lerner foi o entrevistado do programa Roda Viva na TV Cultura. O arquiteto e urbanista é uma das principais referências mundiais em planejamento urbano e defende que as cidades devem tornar-se sustentáveis. Em sua entrevista, Lerner comentou de passagem que a Espanha possuía três aeroportos imensos na região das ilhas canárias, dois deles aeroportos internacionais em Tenerife. Segundo ele, apenas um seria suficiente para a demanda local, e que por essas e outras a Espanha estaria colhendo os frutos podres da crise econômica mundial.

Esse desperdício não é retratado no filme, também não é o tema direto. Vemos dois planos da catedral Sagrada Família em construção. Na primeira vez, aparece ao longe e também divide espaço com os enormes guindastes que constroem suas torres, inconfundíveis mesmo a essa distância. No segundo, logo depois, um plano mais abstrato, fechado em uma das torres, mas que está focado em um cabo elétrico que corta o quadro na diagonal. Para o mundo de Uxbal e os outros personagens, a igreja é só uma paisagem longínqua e desfocada de sua realidade. Mas talvez as conseqüências (desta crise) sejam bem mais palpáveis. A pobreza e a luta pela sobrevivência em meio ao desemprego que assola mais de 20% da população espanhola (final de 2010) são relatadas de forma impecável no filme.

A contradição de Barcelona é a contradição de seu personagem principal. Uxbal parece ser como Barcelona em vários momentos. Biutiful conta a historia de um homem que caminha para o fundo do poço. Seus esforços em busca da redenção aumentam ainda mais seu inferno astral. Um herói trágico: mercenário solidário, pai dedicado, mas nem um pouco delicado com seus filhos, um médium oportunista. Para cuidar de seus dois filhos pequenos, Mateo e Ana, Uxbal se desdobra entre as oportunidades que a pobreza revela. A narrativa, apesar de seguir um personagem, apresenta um esquema parecido com os filmes anteriores do diretor.

Cena do filme "Biutiful".

Uxbal está com câncer terminal e tem apenas dois meses de vida para ajeitar suas pendências. Sua amiga e conselheira (que também possui o dom de conversar com os mortos) parece ser a única personagem ainda não afetada pela miséria psicológica que assola a comunidade Tentando arrumar sua vida, Uxbal entra cada vez mais em um labirinto sem volta. Sofre com sua ex-esposa bipolar Marambra. Seu amor em relação a ela também é bipolar, variando entre a afeição do passado e o ódio das diversas recaídas de Marambra que insiste em não tomar os medicamentos. Ela já esteve internada, mas saiu da clínica e agora tenta recuperar a confiança do marido. No entanto, suas recaídas são constantes e levam a atos de auto flagelação, tendo inclusive relações com o irmão de Uxbal, Tito. Este é um aproveitador, como seu irmão, mas difere daquele, pois já não tem escrúpulos nenhum. Sua vida consiste em drogas, dinheiro, traição e sexo. Sua relação com o irmão é meramente comercial, e ambos estão envolvidos com a exploração de trabalho imigrantes ilegais para a construção civil. Seu único elo familiar com Uxbal é o túmulo de seu pai, que será vendido a uma empreiteira para a construção de uma área comercial. Uxbal, por sua vez, tem uma relação próxima a seu pai, morto no México aos 20 anos de idade quando fugiu da ditadura que Franco impunha a Espanha. Sua única lembrança do pai nunca conhecido é uma foto antiga. Após descobrir seu câncer de próstata, Uxbal tem medo que seus filhos esqueçam seu rosto.

O personagem de Javier Bardem (papel que o premiou como o melhor ator em Cannes 2010) tem uma relação muito próxima com imigrantes ilegais. Uma relação contraditória, que mescla ganância e afeição. Em um momento, chega a ser preso por tentar evitar que seu companheiro africano fosse espancado por policiais. Em outro momento, porém, economiza ao comprar aquecedores a gás (o mais barato da loja) para aos imigrantes chineses que trabalham e dormem sob o frio em um porão escondido. A situação social impõe uma relação de ganância e egoísmo enquanto que os valores humanos de cada personagem se esforçam para aparecer perante tantas dificuldades. A direção de fotografia consegue dar o tom das cenas com muita propriedade. Na única cena em que existe uma relação mais amena e na qual o tom de felicidade e paz se emprega é quando Uxbal, sua mulher e seus filhos estão à mesa comendo sorvete com as mãos. Eles se divertem, sonham com o futuro e projetam uma viagem. Contam também sobre o passado, e como haviam se conhecido. Ao fundo, o por do sol tinge a cena com um laranja forte, quase dourado. Temos então um contraponto com o restante da cor do filme, sempre pálido, escuro e com pouquíssimas cores quentes.

Cena do filme "Biutiful".

Biutiful é um filme muito comovente. Entramos no universo do personagem principal. O diretor consegue reproduzir as angustias e tristezas com pequenas sutilezas. Uma obra muito interessante e atual, retratando uma situação contemporânea que a comunidade européia não estava disposta a enfrentar tão cedo .

*Felipe Carrelli é graduado em Imagem e Som pela UFSCar.

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