BOARDWALK EMPIRE (Terence Winter, 2010)


Por Mariana Lanchoni Alves* e João Paulo Capelotti *

Um homem bem vestido encara o horizonte enquanto fuma um cigarro. Olha o mar em frente como quem tem o controle da situação. Logo uma e depois dezenas de garrafas chegam à praia. Os pés do homem, bem protegidos por sapatos caros, aparecem sujos de areia para após surgirem limpos, lavados pela onda do mar. Em seguida, sempre sozinho, o homem caminha em direção à cidade, com passos determinados.

É desse modo que a abertura da série Boardwalk Empire apresenta seu protagonista, Enoch “Nucky” Thompson, o chefão do contrabando de bebida alcoólica em Atlantic City, costa leste dos Estados Unidos, no início dos anos 20 do século passado. Criado por um pai abusivo e alcoólatra junto com o irmão invejoso, Nucky perdeu mulher e filho e é um solitário por natureza. Comanda esquemas de corrupção, mas é o tesoureiro da cidade. O sangue eventualmente derramado por sua ordem não lhe suja as mãos, embora as inevitáveis mortes advindas dos negócios com a máfia estejam mimetizadas no funesto cravo vermelho que enfeita sua lapela. Tampouco a proximidade de Nucky com os negócios ilícitos afeta sua imagem de cidadão respeitável e benemérito, a quem poderosos e populares vão pedir favores.

O mar à frente, do ponto de vista da semiótica, além de símbolo de transformação – no caso, a aprovação do Volstead Act, a lei que proibiu o comércio de álcool nos EUA – é também o meio pelo qual a bebida contrabandeada chega à cidade, como demonstrado logo na primeira cena da série. Além do vai e vem das ondas, a intensa movimentação das nuvens e os raios que lampejam no horizonte indiciam que a série abordará um período de intensas e turbulentas mudanças. Numa perspectiva mais próxima, aliados se tornarão inimigos, e inimigos serão chamados à negociação: a luta pelo controle da cidade será dinâmica e volátil. Numa perspectiva mais distanciada, os gângsteres se profissionalizaram graças à “Proibição”, as mulheres conquistaram direito ao voto, os imigrantes irlandeses, italianos e poloneses haviam se estabelecido de vez na América do Norte, enquanto os negros ainda eram marginalizados mais de cinquenta anos depois da Guerra de Secessão.

O cuidado com a abertura (por vezes, tida como um aspecto “secundário” de uma obra audiovisual) demonstra a solidez criativa por trás de Boardwalk Empire, uma das melhores séries da tão comentada efervescência criativa da televisão norte-americana dos últimos anos. As imagens que acompanham os créditos iniciais refletem cuidadosamente aspectos cruciais do roteiro, que, ao lado da recriação de época esmerada e do harmônico conjunto de atuações, constitui o principal destaque dessa premiada produção. Com arcos dramáticos bem desenvolvidos e subversões de expectativa, o roteiro tem a seu favor a maior disponibilidade de tempo de uma série de televisão em relação à duração reduzida de um longa-metragem para cinema. Este tempo maior permite aos roteiristas contar uma história mais repleta de nuances e detalhes e desenvolver com maior esmero a trajetória de diversos personagens.

Se no início a série foi bancada principalmente pelo renome de Martin Scorsese como produtor executivo, as temporadas seguintes só aconteceram pela qualidade da produção em si, que rendeu boa audiência – o fator principal para sua sobrevivência – apesar de conter grandes doses de violência, nudez, conflitos psicológicos acentuados e temas politicamente incorretos que talvez fossem cortados de uma “sessão-teste” de longa-metragem para o grande público. Exemplos de tais ousadias dramáticas, apenas na primeira temporada: Chalky White (Michael Kenneth Williams), o negro que tem um importante papel no esquema de Nucky, tortura cruelmente um membro da Ku Klux Khan acusado de ter matado um de seus funcionários; Angela (Aleksa Palladino), a mulher de James “Jimmy” Darmody (Michael Pitt), aguenta como pode as loucuras e o ciúme doentio do marido recém-chegado da I Guerra Mundial, mas, de fato, o trai – ainda que não com quem ele imagina.

O próprio protagonista, Nucky Thompson, interpretado com diversas nuances e camadas por Steve Buscemi (um ator talentoso até então quase sempre relegado pelo cinema a coadjuvante), só corresponde às investidas da viúva Margaret Schroeder (Kelly Macdonald) depois de levar uma puxada de tapete dela. Mas acima de tudo, Nucky não é o clássico gângster que tem prazer em matar, um vilão por natureza. Ao contrário: mata só quando “necessário” aos negócios e chega a ter até atitudes de compaixão. Inicialmente, desempenha com naturalidade e competência seu papel de chefe do contrabando de álcool, mas de certa forma se incomoda ao ter de “sujar as mãos” para manter seu esquema. Suas sentenças de morte são sempre dadas com meias palavras e monossílabos. A transformação do protagonista é gradual, e o trágico assassinato no fim da segunda temporada marca definitivamente a assunção de seu lado obscuro: a atitude extrema de Nucky, ao passar por cima de laços antigos de amizade, é uma medida para impor-se definitivamente como o único dono dos negócios ilegais de bebida em Atlantic City, eliminando aqueles que ameaçavam seu império na cidade.

Do mesmo modo que Nucky é um personagem esférico, ocupante de uma incômoda zona cinzenta, de um modo geral não há vilões e nem mocinhos na série. Há a lei estabelecida e os que a desobedecem; e estes últimos podem estar tanto do lado dos traficantes de bebidas quanto dos políticos e da polícia. De fato, os agentes Van Alden (Michael Shannon), na primeira temporada, e Knox (Brian Geraghty), na quarta, lançam mão de métodos nada ortodoxos para cumprir seu serviço, igualando-se muitas vezes àqueles a quem deveriam combater. Os personagens de Boardwalk Empire em geral também não têm uma moral definida, e podem ter atitudes nobres ou reprováveis a depender da situação, a exemplo de Eli (Shea Whigham), que, apesar de invejar e trair seu irmão, é um pai de família exemplar, e Richard Harrow (brilhantemente interpretado por Jack Huston), um assassino frio que estabelece uma relação de afeto com o filho de Jimmy.
Não se trata, porém, de uma série só sobre gângsteres e assuntos relacionados ao crime. Sob essa superfície, estão temas mais profundos e universais, como a luta pelo poder; os efeitos psicológicos e físicos devastadores da guerra (no caso de Jimmy e Richard); a obsessão que ocasiona a transformação de caráter do agente Nelson Van Alden; entre outros.

Para compor esse painel de forma orgânica, os personagens comentam sobre temas contemporâneos da época, de livros a esportes, de música a política, passando pelo noticiário internacional (veja-se, por exemplo, o interesse de Margareth por Anastácia, a “princesa perdida” da Rússia). Além disso, personagens criados pelos roteiristas são misturados a figuras históricas como Lucky Luciano, Arnold Rothstein, John Torrio e Al Capone (aqui ainda imaturo, um gângster em formação), contribuindo a um retrato fidedigno de um passado que não é romantizado nem demonizado.

Na verdade, o próprio protagonista da série é vagamente inspirado em Enoch L. Johnson, político e mafioso que controlava Atlantic City durante a época da Proibição. O personagem é retratado no livro “Boardwalk Empire: The Birth, High Times, and Corruption of Atlantic City”, de Nelson Johnson, no qual a série livremente se inspira.

É verdade que nem sempre o roteiro – o grande mérito da série como um todo – acerta a mão. A divisão excessiva de subtramas, especialmente na segunda e na terceira temporadas, dilui demasiadamente as histórias e as torna por vezes confusas. Com isso, personagens ricos, como Richard Harrow e Nelson Van Alden, foram subaproveitados. Felizmente, a série retomou seu foco e a quarta temporada demonstrou o vigor da primeira.

Entre altos e baixos, Boardwalk Empire fica melhor apreciada de modo panorâmico, em seu conjunto, justamente porque não tem caráter folhetinesco, isto é, não se sustenta em cliffhangers, ganchos que despertam a curiosidade da audiência de um episódio para outro. Suas tramas não se resolvem rapidamente, nem têm respostas fáceis.
Esta e outras séries recentes, como Breaking Bad e Game of Thrones, junto a outras já clássicas, como The Sopranos, apontam que não é preciso pasteurizar obras de ficção, evitando polêmicas e densidade dramática, para se obter repercussão junto ao público e boa audiência. Ainda há público disposto a consumir entretenimento de boa qualidade.

*Mariana Lanchoni Alves é graduada em Direito pela UNESP/Franca

*João Paulo Capelotti é mestre e doutorando em Direito pela UFPR

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