Boca de lixo

“Se eu definisse eu nem fazia, porra, eu não defino, não interesso em definir”. Esta foi a resposta que Eduardo Coutinho, o maior documentarista brasileiro em atividade, deu aos entrevistadores da revista Intermídias[1], quando lhe perguntaram como ele define documentário. Sob a aparente (ou nem tanto assim, a depender do tom de voz que usou) grosseria da resposta de Coutinho, subjazem traços de um programa estético dos mais conseqüentes, em se tratando de produção de documentários: documentar como uma aventura que inutiliza a noção de improviso, aventura que se constrói com o sujeito documentado e não sobre o sujeito documentado. Uma estética despida de esquemas rígidos, calcada na precariedade, na inconclusibilidade, na alteridade.

Abordo aqui uma interessantíssima obra menor de Eduardo Coutinho: Boca de lixo[2]. Em 1992, com uma reduzida equipe de filmagem, sem pesquisa prévia – segundo dizem -, Coutinho chegou ao lixão de Itaoca, a 40 km do Rio de Janeiro. As primeiras abordagens com os trabalhadores do lixo não foram fáceis: pessoas tapavam o rosto, se afastavam e até davam demonstrações de agressividade.
Até que uma criança negra, a cara descoberta, a postura petulante, pergunta: “Que é que vocês ganham com isso? Pra ficar botando esse negócio na nossa cara?”.

Dessa pergunta seriíssima Eduardo Coutinho nunca se esquivou. Ela remete, em última instância, à dimensão ética da postura do documentarista. A coisa mais fácil de ver, em casos de abordagens de grupos sociais como aquele, é o preconceito escamoteado de curiosidade sociológica e antropológica.
Mostra-se “eles”, o modo de vida “deles”, o que “eles” comem – numa palavra, mostra-se a “Realidade” e se saí de mãos limpas; neutramente, cientificamente, num estado quase total de isenção moral e jejum axiológico. Coutinho demonstra outra postura; primeiro, como já dissemos, porque não cai na atitude algo desumana, em se tratando de situações como esta mostra em Boca de lixo, de traçar um plano prévio rigoroso, preferindo antes transformar os documentados em co-autores; segundo, porque não lhe interessa fazer glamour à custa da miséria alheia:  a câmera de Coutinho não busca propositadamente o espetáculo da miséria, a beleza da feiúra. A música de Tim Rescala segue o mesmo ditame: inusitada, asperamente bela e às vezes propositadamente irritante, foi produzida com material oriundo do lixo, coadunando-se rigorosamente à proposta “ética” do filme de não embelezar a visão da miséria. Um doidivanas qualquer poria um hard core ou um trash metal (nada contra estes estilos!) como fundo para imagens trêmulas e desfocadas – isto, com certeza, embelezaria o apocalipse.

Sob a ótica dessa estetização da dor alheia, seria interessante comparar a postura de Coutinho com a de alguns cineastas de filmes ficcionais do chamado cinema brasileiro de retomada. Para não estender o paralelo, pensemos em Claudio Assis. O povo que aparece no cinema de Assis é a própria Besta Fera, imbecilizada, agressiva, sádica e masoquista. Claro está que nem o povo pernambucano nem de qualquer outra parte do mundo o é dessa forma, a não ser pela ótica do niilismo sádico de Assis. Em outras palavras, em filmes como “Amarelo manga” e “Baixio das bestas” o Outro – chame-se ele povo, ou qualquer outro nome – não fala; cortou-se todos os fios da alteridade e o que sobrou, como cinema, foi a beleza da miséria, miséria propalada por um Demiurgo senhor da verdade, pairando acima da situação. Não resisto a citar aqui a síntese mais precisa desse calcanhar de Aquiles de parte do cinema de retomada (pensemos, por exemplo, além dos filmes de Claudio Assis, nos “favela-movies” decalcados de Cidade de Deus); é um tanto longa a citação, mas traz uma reflexão das mais conseqüentes:

Há, em Baixio das Bestas, novo filme de Cláudio Assis, uma contradição insuperável, que, levada ao limite pelo diretor, explica boa parte dos problemas do filme e revela o fracasso de seu projeto. De um lado, temos a necessidade de “denúncia social”, da revelação da existência de um local desgastado e destruído no Brasil, onde a podridão da natureza humana, justificada por nossa enorme desigualdade econômica, aflora de forma inconteste e chocante. De outro, a vontade de afirmar-se de vez como um “bom diretor”, através de ângulos e movimentos de câmera inusitados, da luz meticulosamente calculada de Walter Carvalho, de chamadas metalingüísticas “inteligentes”, de atores previamente marcados de forma quase coreográfica no espaço do quadro. Isto poderia não funcionar como uma contradição caso, no processo do filme, estivesse presente um questionamento sobre como representar uma realidade perturbadora e inédita aos olhos da maioria dos espectadores, sobre os limites possíveis dessa representação e sobre o quanto desta realidade pode realmente chegar, distante física e temporalmente, marcada pelo filtro da criação ficcional, aos nossos cinemas. Mas Baixio das Bestas não é um filme de questionamentos, e sim de imposições. Dito isto, cabe, agora, ao crítico perguntar: ao ter como objetivo maior denunciar um mundo existente, como o filme pode construir este mundo de acordo com a vontade suprema do diretor? [3] .

O contrário dessa atitude de Claudio Assis seria a típica adulação esquerdista do povo, conivente com a máxima supostamente revolucionária de que “a verdade está com o povo”, esquecendo o alerta de um conhecido revolucionário: “Quanto mais o julgamento do povo é manipulado por todo o tipo de interesses, mais a maioria é apresentada como árbitro na vida cultural” (Max Horkheimer). Entre o anátema e a adulação do povo, há uma frincha que é onde se instala artistas da estatura de Coutinho. Para ele, a vivacidade da representação, a força da mímesis do cinema não-ficcional, está na negociação – tensa e difícil de atingir um equilíbrio – entre documentador e documentados.

Por esses fatores, o povo que emerge da obra de Eduardo Coutinho – no caso em comentário, os catadores de lixo – é pouquíssimo estereotipado. Digo pouquíssimo porque, particularmente, não creio muito numa representação do Outro que não seja, minimamente, mediada por “pré-conceitos” (Hans Gadamer) ou por “estereótipos” (Edward Said, Ruth Amossy). Moralmente falando, Coutinho descola, em Boca do Lixo, o povo do ambiente: é o povo do lixo, mas não o povo-lixo – o vagabundo, o louco, o desocupado, o fraco, segundo a representação mental de nossa classe média que assiste ao jornal Nacional e lê a revista Veja. Sim, claro que há aquele tipo de gente lá no lixão, mas a situação não é tão simplória assim. Há gente ali por causas sociais; há gente ali por “fraqueza”; há gente por opção; há por insubmissão a outras formas de exploração que lhes parecem mais aviltantes; há até gente ali por desejo de experimentar as facetas do mundo (veja o caso do “viajado”, “vivido” e sobretudo, na minha opinião, simpático senhor Enoch, vulgo Papai-Noel). Uma mulher diz: “Tem uma porrada de mulher aqui, uma porrada de homem… que trabalha aqui porque é relaxado, porque prefere comer fácil, porque aqui cai batata, porque aqui cai de tudo pra se comer, muita gente come porque quer”; ao que outra, noutro momento, retruca que está ali porque não quer sofrer humilhação como doméstica em “casa de família”.

Boca do lixo extrai sua força mimética de sua opção por uma estrutura aberta e co-participativa. Ali está um retrato humano e comovente, um drama lumpen rico porque enxuto e despido do intuito de legislar, moralizar ou consertar o mundo. Não que Eduardo Coutinho se isente de dizer; o que ele se isenta é de dizer sem ouvir.

Uma confissão pessoal: na primeira vez em que assisti ao filme, ano passado (2009), lamentei o fato de Coutinho não “epicizar” o fato, não realizar tomadas em plano geral, não ficcionalizar aquele balé involuntário de miseráveis catando restos, não sinalizar naquele particular uma situação geral, não procurar ângulos mais inusitados para mostrar aquela situação dolorosa. Depois de ver o filme com mais atenção, tive que concordar com o diretor e encarar minha porção classe média e meu sadismo adormecido. Errare humanum est, afinal.

Wanderson Lima é poeta e ensaísta. Professor de literatura da Universidade Estadual do Piauí – UESPI e doutorando em Literatura Comparada pela UFRN. É co-editor da revista dEsEnrEdoS (http://www.desenredos.com.br/) e mantém o blog O Fazedor (http://blogdowandersonlima.blogspot.com/).


[1] Piana, Alcimere; Nastes, Daniela. Entrevista com Eduardo Coutinho. In: Intermídias. Disponível em: http://www.intermidias.com/anterior/categorias/entre_edcout.htm. Acesso em: jan. 2010.

[2] Boca de Lixo, talvez por ser um média-metragem, não teve lançamento individual, foi inserido como bônus no DVD que contém um dos mais importantes documentários de Coutinho: Peões (2004).

[3] Levis, Leonardo. Baixio das bestas. In: Contracampo, nº 86. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/86/critbaixiodasbestas.htm. Acesso em: jan. 2010.

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