Cabeça a Prêmio (Marco Ricca, 2010)

Pedro Marcondes*

cena do filme "Cabeça a Prêmio"

A adaptação de Cabeça a Prêmio, obra literária de Marçal Aquino, jornalista, escritor e roteirista, para o cinema é o primeiro desafio do jovem diretor Marco Ricca, anteriormente envolvido exclusivamente com a atuação para programas globais (tais como novelas e seriados) e filmes nacionais. Sendo seu primeiro trabalho no exercício de direção de um filme é preciso avaliar os resultados da obra com sensatez, reconhecendo erros e acertos em sua devida medida, sem glorificar ou crucificar quem ainda há pouco se iniciou em uma nova atividade (mesmo sendo um ator de extensa carreira e já tendo lidado com direção teatral, o comando de um longa metragem lhe apresentou situações certamente inéditas).

A narrativa nos apresenta uma hipotética família de pecuaristas do centro-oeste brasileiro, de ascensão econômica por vias ilegais, comandada pelos irmãos Miro (Fúlvio Stefanini) e Abílio (Otávio Muller). Ao que parece, desde os planos iniciais, somos confrontados por uma lógica certa, a de que teremos ao longo do filme uma sucessão de atos ilícitos e imorais que culminarão com a devida punição dos culpados no desfecho da película. E não é diferente, o fim do filme é apenas a constatação de uma narrativa bastante linear e previsível, já apresentada nos primeiros minutos da obra; É válido pontuar que são muitas as referências e semelhanças com outras obras audiovisuais recentes, tais como Arido Movie e Os Matadores, é possível até mesmo dizer que há planos de fotografia e som extremamente similares, assim como parcela da montagem (para quem assistir o filme talvez em seu desfecho venha em mente a cena final de Arido Movie, por exemplo).

Cena do filme "Cabeça a Prêmio".

Em sua primeira prática cinematográfica Marco Ricca busca valorizar a atuação do elenco, segundo ele “é um filme de ator, que não tem plano detalhe”, desta forma pretende amplificar a carga emocional dos personagens já que seu intuito é mostrar essencialmente a reação dos indivíduos defronte a uma situação dramática que será apresentada a seguir. Acredito que este tenha sido o álibi para a inserção de um diferencial que agregasse qualidade e criatividade a obra (em função de um roteiro sem grandes aspirações, o que pode ter sido positivo, visto que soube se utilizar de um conhecimento prévio já bastante familiarizado por ele, as possibilidades de intervenção de um ator e a importância de um elenco de qualidade na composição de uma obra.

A fotografia, desde o inicio, se destaca, junto a atuação, como um ponto forte do filme. São diversos os planos em que a composição nos traz boas imagens, no entanto ela não inova e nem ousa apresentar quadros diferenciados ou experimentais, explora apenas o modelo clássico e alguns recursos já bastante comuns ao cinema nacional (como a câmera na mão). A montagem cumpre seu papel fornecendo ao espectador uma linearidade quase que didática, possibilitando o entendimento da obra e reforçando a coesão do roteiro. O som não é muito criativo, a trilha parece estar nitidamente deslocada da proposta, no entanto, assim como a montagem, cumpre o seu papel.

Cena do filme "Cabeça a Prêmio".

Já o roteiro é fraco, muitas semelhanças com filmes brasileiros recentes não fazem da obra um cânone de ótimas idéias, pois estas, quando aplicadas, parecem apenas o resgate de um lugar comum. Em um primeiro momento temos algumas tensões apresentadas:

– A família que protagoniza o enredo é alvo de investigação da policia;

– Existe uma perturbação recorrente entre os irmãos em vista deste “aperto”;

– A filha de Miro (Alice Braga) tem uma relação escondida com um dos funcionários de seu pai;

Brito (Eduardo Moscovis), um dos capangas de Miro, se apaixona por uma dona de restaurante “beira de estrada” (e ex-prostituta) chamada Marlene (Via Negromonte) após assassinar um radialista a mando de seu patrão.

Todos estes conflitos são conduzidos a uma solução com o desfecho do filme, sem necessariamente haver momentos de criatividade ou que impulsionem um clímax a narrativa.

Cena do filme "Cabeça a Prêmio".

Acredito que Ricca e parte do elenco tenham tido a consciência das limitações do enredo (Alice Braga chegou a sugerir, por exemplo, que Marlene fosse apresentada como dona de restaurante ao invés de prostituta; segundo Ricca “nenhum de nós agüentava mais ver prostituta em filme nacional”) e tenham se esforçado para trabalhar o melhor resultado nesta condição.

Os pontos positivos da obra, por fim, estão vinculados a uma boa fotografia, bom elenco e uma boa condução e a direção por Ricca. É um começo regular, talvez apenas com um roteiro mais ousado e criativo seja possível saber a real capacidade de Ricca em sua condução como diretor, no entanto, para Cabeça a Prêmio, o ator soube explorar bem sua primeira oportunidade no comando de um longa-metragem.

Pedro Marcondes é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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