Cavalo de Guerra (Steven Spielberg, 2011)

Por Thiago Jacot*

O findado ano de 2011 trouxe dois lançamentos de Steven Spielberg aos cinemas. O primeiro é o espetacular As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, EUA, 2011), mostrando toda a potência criativa do diretor, que extraiu o melhor, senão toda a essência das histórias de Hergé e, por assim dizer, selou a evidente bem-sucedida parceria com outro talentoso diretor, Peter Jackson. Contrariamente, o mesmo não ocorre com o fraco e mediano (para não dizer medíocre) Cavalo de Guerra (War Horse, EUA, 2011). Nem bem se desligou da produção de Tintim, Spielberg adquiriu correndo os direitos do livro homônimo de 1982, de Michael Morpurgo, para adaptar nas telas a história de amizade entre um menino e seu cavalo que são separados durante a Primeira Guerra Mundial.

O filme concorre ao Oscar 2012 nas categorias de Melhor Filme, Direção de Arte, Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som e Trilha Sonora Original. Categorias que não são estranhadas pelas indicações, pois todos os elementos fílmicos que a Academia gosta estão presentes. No entanto, o inconcluso está justamente na apelação que elas agregam ao filme. A grande problemática da condução do longa se encontra nos exageros formais e narrativos, em que Spielberg se prende. Não aparenta o realizador criativo e inventivo que estamos acostumados a ver.

O contexto da Primeira Guerra Mundial nos alivia parcialmente da saturação que o cinema norte–americano nos proporcionou com a temática da Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, parcialmente. Isso não quer dizer que os filmes de Holocausto e Segunda Guerra Mundial não sejam excelentes e não toquem nas feridas certas. O mundo se esquece rápido demais da sua própria podridão. Não é esse o ponto. Falo do seu uso enquanto tema. É demasiado freqüente e garante prêmios da Academia pelo uso de fórmulas certas e pré-estabelecidas. A guerra em si não é um ambiente bonito e floreado para ser registrado com tanta superficialidade pela fotografia enquanto se tem como objetivo uma reprodução histórica, como no caso de Cavalo de Guerra. A distribuição é da Disney, entende-se o apelo que provoca e a qual platéia atrai. Recebe o rótulo de filme família e ajuda a vender ingressos.

O cerne, a raiz nervosa do filme, está na trajetória do cavalo. Assim que se separa do seu fiel amigo, passa de dono em dono, de mão em mão, personagem em personagem até que finalmente é usado pelo exército inimigo para carregar artilharia. Os animais geralmente não duravam dois meses nesse trabalho pesado. O sofrimento do animal é usado como um apelo fácil ao compartilhamento da dor. O melodrama, que até então estava sendo jorrado em doses homeopáticas, vem com tudo e é aplicado até o último plano da última cena. Quebra o ritmo que vinha aos solavancos. A própria relação com os personagens e o cavalo ao longo do filme é repetitiva e desnecessária. O cavalo os conhece, é adotado pelas pessoas, mas algo terrível irá separá-los. A eterna redundância na sua pior forma.

O uso equivocado do melodrama faz com que o ultra sentimentalismo barato seja usado gratuitamente a fim de fazer chorar. Chora-se muito fácil aliando ainda a manipulação das emoções pela trilha sonora “excessiva” de John Willians, autor célebre de tantas outras trilhas sonoras, que quase transforma o filme em ópera. Precisando de lágrimas, recorre-se a trilha sonora.

Por outro caminho, o filme é muito bem executado. Spielberg não é diretor desde ontem pela tarde. Tem reputação, história e excelentes trabalhos. Os movimentos de câmera, especialmente as gruas em belas paisagens montanhosas, mostram a destreza do olhar de um diretor. Há uma seqüência muito empolgante do filme quando o cavalo corre no meio de um bombardeio por trincheiras e arames farpados, em alta velocidade de câmera nos travellings, somados ao som de um bombardeio frenético. A única impressão que estamos em guerra durante o filme. Tristemente, essas imagens estão lá apenas para serem bonitas. Somente. A arritmia continua até o fim, quando o “demais de tudo” chega ao seu ápice.

Dessa forma, Cavalo de Guerra é um filme menor do que Spielberg é capaz e não contribui muito no potencial de sua cinematografia. Autor de Indiana Jones, Tubarão, A Lista de Schindler, etc. A expectativa era maior, sem dúvida. Ver um filme desse nível, na mão de um realizador como Steven Spielberg, é angustiante. Calmamente, esse fato foi suplantado por Tintim, uma obra infinitamente melhor que Cavalo de Guerra, cuja única injustiça sofrida foi não ter sido indicada ao Oscar de Melhor Animação. Os caprichos e caprichosos da Academia jogam os louros aos gladiadores mortos em combate de vez em sempre.

*Thiago Jacot é graduando do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e editor da Revista RUA.


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