A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Werner Herzog, 2011)

por Felipe Carrelli*

Me fascina a tecnologia 3D utilizada no cinema. Uma nova experiência de ver cinema. Quase um estar cinema. Há algum tempo tinha ansiedade de assistir a um filme 3D realizado por um mestre do cinema que explorasse essa nova linguagem de uma forma única, inusitada, surpreendente.

Assisti filmes bem interessantes e que utilizaram bem os recursos técnicos dessa forma de fazer cinema. Mas faltava algo além da representação naturalista da realidade pelo 3D. Faltava algo que não saberia explicar. Se ao menos Fellini ou Bergman estivessem por ai, eles saberiam explicar, sentir, fazer… Imagine um filme 3D do Glauber Rocha?! Provavelmente a sensação seria de estar em um liquidificador ligado!

Quando soube que Werner Herzog havia feito um documentário 3D, minha expectativa foi imensa. O tema é extremamente sugestivo: a Caverna de Chauvet localizada na França mais conhecida como A Caverna dos Sonhos Esquecidos.

Além de ser particularmente bela com estalactites e estalagmites reluzentes e coloridas, a caverna possui os desenhos rupestres mais antigos até hoje encontrados. Estudos apontam que os desenhos tenham sido realizados a cerca de 32.000 anos e que parece ter sido ocupada por humanos em dois diferentes períodos. A última ocupação (25.000 a 27.000 anos) deixou poucas marcas, como a impressão de um pé de criança, restos de fogueiras e a fuligem das tochas usadas para iluminar o ambiente.

A caverna ganhou esse nome por seu descobridor, Jean-Marie Chauvet, que a descobriu em 18 de dezembro de 1994, juntamente com Christian Hillaire e Eliette Brunel-Deschamps. Os pesquisadores acham que a caverna ficou intocada por 20.000 a 30.000 anos, devido a um desmoronamento que lacrou a entrada original.

Hoje apenas um reduzido grupo de pesquisadores é permitido no local que é fechado por uma grossa porta de ferro. O turismo é proibido na caverna, afim de conservar ao máximo a integridade das pinturas, evitando o mofo causado pela respiração humana dentro da caverna, que nunca havia sido filmada por uma equipe externa. O diretor apresenta os desenhos primeira vez, reaprendendo o cinema através da recente linguagem 3D e da mística por trás das antigas pinturas.

Centenas de desenhos de animais foram catalogadas, descrevendo treze diferentes espécies, incluindo algumas que pouco ou nunca tinham sido encontradas em sítios equivalentes. Leões, panteras, ursos, aves predadoras parecidas com corujas, rinocerontes e hienas, além das espécies mais comuns, como cavalos, bovinos e veados. Tipicamente, como em outras cavernas, não existem figuras humanas completas.

As imagens são tocantes. Os desenhos não são significantes apenas por serem antigos, mas são acima de tudo, belos. Obras de arte, imensas e coloridas, muito além de símbolos primitivos, mas pinturas com composição, luzes, sombras, textura, profundidade e, o mais incrível, movimento.

E é justamente através desse elemento que Herzog une as duas pontas da história. A linguagem do cinema 3D possibilita com

Pinturas criam noção de movimento por meio das paredes são ressaltadas pela utilização do 3D

que o espectador perceba – e isso é destacado pelo diretor em sua tradicional narração over – que os antigos artistas se utilizavam da textura da caverna para representar o movimento dos animais. As pinturas acompanham a profundidade do relevo, se esticam e contornam a superfície rochosa. Em outras obras, podemos reparar em cavalos com oito patas: uma tentativa de representar o movimento do animal?

Vemos e viajamos sobre esses traços milenares em planos longos, contemplativos e muito bem enquadrados. A sutiliza dos contornos evidenciam a técnica utilizada pelos autores da obra, e em alguns casos podemos identificar parâmetros entre os desenhos que poderiam ter sido feitos pelo mesmo individuo.

Com a mais nova tecnologia de representação, Herzog dialoga com a mais primitiva. O documentário é carregado de simbolismo, metáforas e mistérios. O diretor passeia com a câmera pelas ranhuras da rocha enquanto constrói uma narrativa com a experiência e os trabalhos de cada membro de pesquisadores da caverna. Paralelamente, monta sua própria hipótese do quem seriam aqueles homens e mulheres, até chegar ao prólogo de seu documentário, onde expõe uma alternativa bizarra, perturbadora, mas acima de tudo, inteligente. O documentarista faz pensar. Seriamos a continuidade daquilo que passou, ou mutações extremas dissociadas desse remoto e longínquo passado.

Felipe Carrelli é graduado em imagem e som da Universidade Federal de São Carlos e diretor do Curta Metragem em documentário  ” Temporão”.

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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