Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010)

Cena do filme "Cisne Negro".

*Arthur Souza Lobo Guzzo

Cisne Negro, último filme do aclamado diretor Darren Aronofsky, inicia com uma seqüência que mostra a bailarina Nina Sayers (Natalie Portman) em ação como o Cisne Branco de O Lago dos Cisnes, juntamente com o príncipe Siegfried e o feiticeiro/demônio Rothbarth. A câmera é quase um bailarino adicional, movimentando-se com suavidade e precisão ao capturar minuciosamente o desempenho eficiente de Nina. Logo sabemos se tratar de um sonho da protagonista, que almeja vividamente o papel do Cisne Branco (princesa Odette) em uma nova produção do balé dramático de Tchaikovsky coordenado pelo diretor Thomas Leroy (Vincent Cassel). O recado está dado: como em outros filmes de Aronofsky, essa fronteira entre o real e o onírico vai ser extensiva e ousadamente explorada por todo o filme, em cenas por vezes dolorosas de se ver, que mostram a entrega total e irrestrita de Nina ao Cisne Branco e à sua contraparte obscura, o Cisne Negro. Em suma, a transformação/desconstrução de Nina para a vida/construção de sua obra, o Cisne Negro, que vai explorar todos os limites dela como pessoa e artista.

No balé O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, a princesa Odette é afetada pela maldição de um feiticeiro, sendo transformada em um cisne. Ela disputa o amor do príncipe Siegfried – a única coisa que pode libertá-la do feitiço – com Odile, que é uma versão sombria (O Cisne Negro) de Odette (O Cisne Branco) O balé dramático é ensaiado por uma companhia que integra as dançarinas Nina (Natalie Portman) e Lily (Mila Kunis), além do diretor Thomas Leroy (Vincent Cassel). Nina é esforçada e disciplinada, sendo perfeita para o papel do Cisne Branco, mas lhe falta a paixão necessária para compor o Cisne Negro, algo que Lily tem de sobra. Este pressuposto vai pautar o filme todo, em uma relação sinuosa e por vezes conflituosa entre Nina e Lily. Fica logo evidente que a paixão que falta a Nina para compor o cisne negro também é escassa em outras esferas de sua vida. Sexualmente reprimida, Nina é oprimida pelo zelo excessivo da mãe (Barbara Hershey), que é frustrada por não ter alcançado a glória desejada como bailarina, e desconta tal sentimento em sua filha.

Cena do filme "Cisne Negro".

Esse contraste entre o inocente e o obscuro vai ser explorado pelo filme em várias nuances. Na fotografia e direção de arte, por exemplo, a distinção entre branco e preto é tão intensa que é quase expressionista. Matthew Libatique, diretor de fotografia, novamente faz um trabalho original e impressionante com Aronofsky. Um ponto interessante a ser citado é a extensa utilização de espelhos durante todo o filme, o que reflete a busca pela “outra” Nina, o oposto da Nina que conhecemos, para que o Cisne Negro venha à tona. Os efeitos visuais e sonoros, minimalistas, mas altamente impactantes, retratam com perfeição a paranóia de Nina enquanto o Cisne Negro assume controle e traz as suas contradições à luz. Clint Mansell, atual colaborador de Aronofsky, também faz um trabalho memorável ao combinar partes importantes da música do próprio Lago dos Cisnes com uma trilha que serve fielmente à história, evocando as emoções que determinadas cenas pedem com precisão cirúrgica. Mansell se revela um mestre em elaborar trilhas que são absolutamente complementares aos filmes de Aronofsky, de modo que fica difícil pensar em outro compositor para esta tarefa.

Natalie Portman e Mila Kunis se revelam escolhas mais do que acertadas. Portman encarna com perfeição a certinha e rígida Nina, enquanto Kunis parece transbordar certa leveza e espontaneidade a todo instante. Vivendo a sua metade Odile (Cisne Negro/Lily), Portman também impressiona ao conseguir apresentar uma personagem completamente distinta da Nina a que somos apresentados. A cada cena de dança somos lembrados do quão difícil deve ter sido o processo preparatório para as filmagens. Aliás, o detalhismo de Aronofsky, que já era algo notável em Réquiem para um sonho (2000) e O Lutador (2008), por exemplo, aqui atinge novos patamares – pés massacrados pelo exercício implacável, unhas machucadas, alucinações elaboradas, enfim, um corpo em transformação interna e externa a serviço da do balé, em particular, O Lago dos Cisnes. Barbara Hershey também impressiona como a superprotetora mãe de Nina, conseguindo transmitir algo sutil e sinistro, mesmo quando é carinhosa. E Vincent Cassel faz um Thomas Leroy obcecado e ególatra – um personagem intrigante, diga-se – sem precisar de muito esforço. Leroy exerce grande influência sobra Nina para trazer o Cisne Negro à tona, apelando para a liberação da libido e da sensualidade da bailarina que por não ter amadurecido não consegue demonstrar a paixão necessária ao papel e, com isso, não consegue seduzir o público.

Cena do filme "Cisne Negro".

É imediata a associação com O Lutador, outro filme que retrata a entrega total do indivíduo ao seu ofício/arte. Como a bailarina Nina se transforma para dar vida ao Cisne Negro, o lutador Randy Robinson (Mickey Rourke) dizia adeus a um mundo que lhe era hostil para um mergulho na única coisa que sabia fazer, no único espaço em que era aceito. Da mesma maneira, o Cisne Negro nasce das entranhas de Nina – perfuradas com um pedaço do espelho do seu camarim. Os reflexos de Nina são abundantes e estão em toda parte, desde o camarim, passando pelas pinturas de sua mãe, até a janela do trem que a leva para casa. É essa outra Nina, um reflexo, que tem de ser buscada. A pergunta que Aronofsky nos faz é: como seria para alguém que é o Cisne Branco em carne e osso buscar o Cisne Negro? Daí a tortura, a agonia, a entrega. De qualquer maneira, são temas bastante definidos e profundos com que lida o filme. Nada diferente do que se espera de Darren Aronofsky, considerado um dos mais talentosos cineastas da atualidade, e não sem razão.



*Arthur Souza Lobo Guzzo é graduado em Comunicação Social pela PUC-Campinas e em Ciências Sociais pela Unicamp.

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