COBERTURA MY FRENCH FILM FESTIVAL

*Por Henrique Rodrigues Marques

 

Um festival de cinema inteiramente gratuito e via internet. Essa é a proposta inovadora do My French Film Festival organizado pela uniFrance films, que em 2014 chega a sua quarta edição. Durante um mês, entre 17 de janeiro e 17 de fevereiro, o festival oferece significativo panorama da recente produção francesa para exibição online, com legendas em 13 idiomas. Além de vasta, a compilação é bem diversificada. No total são 23 obras audiovisuais, entre curtas e longas, que englobam diversos gêneros, até mesmo documentários e animações, que costumam ficar segregados nesse tipo de premiação. Outro diferencial do festival é proporcionar ao público brasileiro filmes do circuito comercial francês, que raramente chegam ao mercado nacional.

É o caso de dois bromances à francesa que compõe a lista da Mostra Competitiva. Em Casamento em Mendonza, de Édouard Deluc (2013), dois irmãos partem em uma viagem pelo interior da Argentina devido ao casamento de um primo. No trajeto, encontram curiosos personagens que catalisam a ebulição de sentimentos reprimidos entre eles. Já em O Trailer, primeiro longa de François Pirot (2012), uma espécie de road movie que não se move, em que dois amigos decidem largar tudo para viver na estrada, mas nunca chegam a sair da pequena cidade em que vivem. Em pouco tempo, o plano quixotesco coloca em xeque a amizade do dois. Dois filmes divertidos sobre as relações afetivas entre homens e a dificuldade masculina de demonstrar e lidar com sentimentos. Outro homem que precisa lidar com sentimentos difíceis é o norte-americano William Hurt, no longa Sua Ausência que Me Consome (2012),no qual vive um homem que volta a Paris para cuidar do inventário do pai, que faleceu recentemente, enquanto precisa lidar com o luto de seu próprio filho, morto ainda criança. Ao reencontrar a mãe da criança, o homem desenvolve uma estranha relação paternal com o filho do segundo casamento da ex. O curioso é que esse retrato da dor masculina é feito através do olhar de uma mulher, a também atriz Sandrine Bonnaire, que assina a direção e nos entrega um filme cru, mas de grande força sentimental.A mostra conta ainda com o A Garota do 14 de Julho (Antonin Peretjatko, 2013) comédia de ares non sense, que mistura uma juvenil ode ao amor a críticas políticas sociais, através de um roteiro irônico e uma direção estilizada. O filme nos remete a clássicos da cinematografia francesa, como Zazie no Metrô (1960) de Louis Malle. Infelizmente, o público brasileiro foi privado de dois longas em competição, devido a questões de direitos autorais. Augustine (de Alice Winocour, 2012), que conta com a cantora SoKo no papel da personagem título, e a animação O Menino da Floresta, dirigida por Jean-Christophe Dessaint e também lançado em 2012.

Fora de competição, o público pode conferir Antes que Meu Coração Estremeça (Sébastien Rose, 2012), filme que reflete sobre a situação de tédio e desesperança do jovem contemporâneo, e o curta O Líder da Matilha (Chloé Robichaud, 2012) sobre uma mulher solitária que recupera as suas esperanças através da relação com um cachorro herdado de sua tia. As duas obras formam um pequeno aperitivo da produção proveniente do Québec. E ainda fora de competição, o festival disponibiliza Os Guarda-Chuvas do Amor, clássico cult dos anos 60, dirigido por Jacques Demy e protagonizado pela musa Catherine Deneuve. Obra obrigatória.

Mas é sem dúvida no setor de curtas em competição que o festival apresenta o seu melhor. Apesar de aparecer em alguns festivais que se preocupam com a exibição de obras nesse formato, o curta-metragem é injustamente renegado pelos cinemas comerciais, e acaba ganhando na internet o seu espaço de difusão. Sendo assim, o curta-metragem dialoga melhor com a proposta do MFFF, já que a internet exige um ritmo mais ágil. Mas além desses fatores, a quarta edição do festival conta com um poderoso time. Os dez curtas, além da excelência técnica,  debatem questões de assaz relevância à sociedade contemporânea, tanto no âmbito local quanto universal. Prostituição, xenofobia, violência doméstica, feminismo, aceitação sexual, religião e traumas da guerra são alguns dos temas abordados entre eles. Torço para que esse viés crítico apresentado nessa amostra da produção de curtas na França seja uma tendência cada vez maior, já que curtas-metragens possuem a característica já citada de encontrar um espaço maior na internet, onde podem viralizar e atingir um grande número de pessoas. Dentre esse grupo de obras sublimes, o grande destaque vai para Antes de Perder Tudo (Xavier Legrand, 2012) indicado ao Oscar 2014 e ao César Awards, considerado a maior premiação do cinema francês. O curta de meia-hora cria um frenético thriller para fazer uma contundente crítica social. Além desse, outros três curtas que participam do festival receberam indicações ao Cesar Awards: Os Lagartos (Vincent Mariette, 2012) A Fuga (Jean-Bernard Martin, 2013) e a animação Kiki de Montparnasse (Amélie Harrault, 2012).

Além de tudo isso, o festival ainda libera ao público entrevistas com todos os realizadores e críticas sobre alguns dos filmes. Com o papel que a internet desempenha na vida cotidiana, inclusive alterando o modo como consumimos o audiovisual, é de se aplaudir a iniciativa e o pioneirismo de um festival como o My French Film Festival, que tira as mostras de cinema dos seus espaços físicos – elitistas por natureza – e coloca a disposição de todos com acesso a internet, rompendo com os obstáculos que dificultam a distribuição dessas obras pelo mundo. O papel pedagógico assumido, como indica o slogan do festival – “alimento para o pensamento, para viagem” -, aponta a necessidade de se criar uma educação audiovisual e estimular a reflexão sobre esses produtos. Se a ideia aqui era oferecer alimento às mentes do público, é justo dizer que nessa cesta básica francesa encontramos muito mais do que brioches.

*Henrique Rodrigues Marques é estudante de Imagem e Som na UFSCar e editor geral da RUA.

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