Cobertura Programação em Curso – Kinoforum 2018

Exibida concomitantemente ao  29º Festival Internacional  de Curtas de São Paulo a sessão de curtas realizada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) surgiu de uma atividade proposta pelo Festival de curtas – Kinoforum em parceria com as escolas de cinema e audiovisual do estado de São Paulo chamada Programação em Curso.

A programação foi resultado da atividade de elaboração, por parte de grupos de estudantes, de uma sessão de até 80 minutos de duração para exibição na própria instituição de ensino. A atividade leva até os cursos de cinema uma experiência muito particular e pouco explorada pelos estudantes: processos de curadoria e a programação.

Os filmes enviados pelo festival para serem programados pelos alunos fazem parte da Mostra Brasil, seção dedicada a propor um recorte panorâmico sobre a produção brasileira contemporânea. Em sua 29ª edição o texto curatorial que que acompanha a lista dos 53 curtas selecionados indica a presença constante nos filmes do que é colocado como uma busca através do audiovisual para compreender e definir a complexidade do momento histórico em que vivemos. O texto destaca também as diversas formas estéticas e narrativas empreendidas no sentido de afirmar relações entre contextos pessoaIMG_9467is e políticos.

A partir desses filmes que já são um recorte do universo original de mais de 700 curtas de 26 estados inscritos neste ano, os estudantes de audiovisual que integram a atividade passam a lidar com suas próprias questões e reflexões a fim de selecionar dentro desse panorama um programa de filmes a ser exibido para a comunidade na qual estão inseridos.

Exibição Cine UFscar

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“Pensando nesse nosso desejo de ouvir e de nos reconectarmos, essa seleção de filmes procura costurar algumas pessoas e experiências que talvez nunca tenhamos visto, ouvido ou entrado em contato. De forma mais profunda, encontramos nessas histórias um sentimento que une e percorre qualquer vida humana: a perda. A perda de um companheiro, no momento mais solitário da vida, em “A Retirada para um coração bruto”; a perda de grandes ídolos, seja no seio familiar ou no futebol, como em “Brasil X Holanda”. A ida de grandes amigos que nos lembram de quem somos, em “Guaxuma”. E ainda podemos ver as duras marcas que deixam essas relações despedaçadas em ‘Uma bala’, ‘O Órfão’ e ‘Aquarela’.” (texto curatorial da sessão)

No exercício de colocar em contato a minha forma de perceber os filmes organizados na sessão, o olhar curatorial dos estudantes que a construíram sessão e a proposta do Festival de Curtas, procurei refletir sobre a presença de cada filme em no mesmo programa de exibição. A programação elaborada pelos estudantes Ana Caroline de Olveira, Murilo Morais e Lucas Nunes, ambos no sexto período do curso apresentou os filmes (em ordem de exibição): Uma Bala (Piero Sbragia, 2018, SP), O Órfão (Carolina Markowicz, 2018); Brasil x Holanda (Caroline Biagi, 2018, PR); Guaxuma (Nara Normande, 2018, PE); Aquarela (Thiago Kistenmaker Rosa, Al Danuzio Coutinho Aguiar, 2018, MA); A Retirada para Um Coração Bruto (Marco Antônio Pereira De Freitas Junior, 2018, MG).

Como parte da atividade de programação o grupo curador encaminhou ao Festival um texto onde elabora o eixo de desenvolvimento da sessão. Nesse texto eles  apontavam a relação entre os filmes através da sensação de perda, sensação é que pontuam ora em abordagens mais figurativas, ora adquirindo materialidade nas histórias e temáticas dos filmes.

Procuro retomar as minhas impressões e sensações  ao assistir a sessão na ordem proposta. A escolha de iniciar a sequência de curtas com Uma Bala  soa política e necessária. O filme que tem pouco mais de um minuto organiza em sua duração a voz de várias mulheres num discurso pela memória de Marielle Franco, política, socióloga e feminista negra brasileira. Algumas escolhas estéticas como a marcação sonora e visual da transição dos planos fazem com que o filme perca força discursiva, no entanto acerta pontualmente ao resgatar nos créditos uma fala de Marielle na câmara dos vereadores do Rio de Janeiro.

O aspecto de material de arquivo reforça a potência de recepção do discurso da  militante, que enfatiza importância da luta por direitos e igualdade e aponta para ação conjunta como forma de tornar possível a transformação social, fazendo referência a filosofia Ubuntu. A presença material da voz de Marielle não retoma sua ausência num sentido negativo, mas afirmar sua presença dando força ao discurso que ultrapassa o filme num chamado à mobilização.

A sessão prossegue com O Órfão, vencedor da Queer Palm no festival de Cannes em 2018.  Baseado em fatos reais o filme de Carolina  Markowicz tem como personagem central Jhonatas, um garoto homossexual que passa por alguns processos frustrados de adoção. Ao abordar o tema da homosexualidade no complexo contexto do sistema de adoção brasileiro, o  curta promove uma sensível crítica à forma velada como se instauram diversos processos de violência simbólica e preconceitos no país. Construindo uma impressão temporal não linear, marcada por elementos de direção de arte integrados a acontecimentos narrativos o curta também opera muito bem com uma outra camada de suspensão da temporalidade: a inserção de sequências performáticas de forte tendências a estetização e irrealidade. Essas sequências são bem mais estilizadas que o restante do filme e promovem pequenas fissuras narrativas, que para além do trabalho plástico com a imagem operam num movimento duplo entre o filme a personagem, trazendo para superfície e conferindo visualidade a subjetividade de Jhonatas.

BRASIL x HOLANDA assume também o tom de drama, mas a partir de aspectos minimalistas, reforçado pelo trabalho com luz natural e através do uso dos elementos de direção da arte. Com referências melodramáticas em sua estruturação o filme  se  desenvolve em torno do ritual familiar.  A final da copa do mundo de 1976 entre Brasil e Holanda é o motivo usado para contextualizar da experiência de Marina, uma pré-adolescente que viaja com os pais para o casamento de sua irmã mais velha. Deslocada para um outro período histórico a delicadeza na forma de retratar os rituais de feminilidade e as convenções sociais familiares em torno do casamento põe em evidência as tensões e contradições desse ambiente.

Guaxuma, de Nara Normande assume uma interessante e afetiva estratégia de relato em primeira pessoa a partir da técnica de animação, explorada em diferentes vertentes como a partir de bonecos ou mesmo manipulação de areia. Num movimento oposto ao filme anterior aqui é a narrativa pessoal que dá conta de perpassar diversos momentos e questões históricas a partir da vida de Nara, sua amiga Thaira e da própria comunidade de Guaxuma.

Aquarela também toma como base uma situação documenta: a denúncia de que mulheres  eram violentadas por grupos de presos durante as visitas aos seus companheiros em presídios no estado do Maranhão. Num contexto onde a discussão sobre a representação feminina no audiovisual é sempre uma questão latente,  o filme se lança em um terreno complexo ao apresentar a personagem feminina num cenário complexo de violência. Há um naturalismo agradável nas escolhas da direção de arte, no entanto algumas escolhas de movimentos de câmera e decupagem lidam com uma espécie de exagero que parece não funcionar muito bem. Nesse curta novamente há a presença nos créditos de registros sonoros de aspecto documental, talvez o uso da sobreposição de vozes talvez tenha distanciado a relação com seu conteúdo.

A Retirada Para Um Coração Bruto

Penso muito em como esses filmes podem nos por movimentar a olhar com mais alteridade para outras subjetividades, o que leva a uma segunda reflexão: com quem se compartilham essas visões de mundo?

Para além da questão da forma como os filmes se comunicam com o público, parece imprescindível na atual conjuntura política e ideológica brasileira, refletir sobre as formas de democratização do acesso à discursos plurais e diversos, assim como o acesso aos meios de produção de tais discursos.

É importante fazer filmes, festivais, mostras e é importante que esses espaços se comuniquem com as pessoas e as comunidades e sejam construídos por elas.  É preciso compartilhar, é preciso cada vez mais dar a ver e tornar sensível a experiência do outro.

texto por Letícia Gomes

Itinerância

CEU das Artes

Esse ano, além da exibição que ocorreu na própria universidade, houveram outras duas num trajeto de itinerância pela cidade, com o intuito de estender a experiência de curadoria nos alunos interessados na atividade e, também, em outras pessoas fora do circuito universitário, em uma tentativa de entrar em contato com a cidade ao mesmo tempo que entendíamos melhor a relação desses filmes com nós mesmos.

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No dia 18/09/2018, houve uma sessão no CEU das Artes Emílio Manzano e com uma curadoria feita pelos alunos Letícia Gomes, Laís Torres, Rafael Burguer e Thierry Vasques, a exibição contou com os filmes Apenas o que você precisa saber sobre mim (Maria Augusta Vilalba Nunes, 2018), Nome de batismo – Alice (Amandine Goisbault, 2017), Travessia (Safira Moreira, 2017), O Órfão (Carolina Markowicz, 2018), Peripatético (Jéssica Queiroz, 2017) e Uma Bala (Piero Sbragia, 2018).

Após a exibição, na discussão a cerca desses filmes, conversamos como eles e a produção independente de modo geral busca por filmes mais representativos para minorias ainda sub-representadas no cinema, como mulheres, negros e LGBT+. No final, percebemos como esses filmes todos lidam com uma questão íntima e pessoal da identidade.

Em Apenas O Que Você Precisa Saber Sobre Mim, conhecemos as questões de Laura, uma adolescente trans, que acaba se envolvendo com um menino na pista de skate. Essa questão só surge quando Fábio vai atrás dela após seu desaparecimento. O filme foca suas questões na relação dos jovens, em sua amizade e no surgimento de algo além, o que faz com que as questões de transição que Laura está passando. Os personagens são bem desenvolvidos e cativantes. A representação da juventude é interessante com o apelo da fotografia, cenário e montagem. E apesar de lidar com questões fortes, o filme mantém sua sutiliza e delicadeza ao desenvolver como Laura busca sua indenidade nela mesma.

Processo inverso do que acontece em Nome de Batismo – Alice, onde a protagonista, brasileira e filha de uma de refugiados angolanos, decide iniciar uma busca por sua identidade em uma comunidade da Angola, onde ela procura as histórias que motivaram seus pais a lhe batizarem com esse nome. Aqui, Alice está a procura da sua identidade no outro, que ela ainda não conhece e que é maior do que ela própria. É um processo que revela algumas dicotomias do pertencer, pois ao mesmo tempo que há parte dela entremeada naquelas pessoas e de sua história se fazer presente naquele lugar, essas relações ainda estão distantes da sua realidade e não formam necessariamente quem ela é. Um filme de busca com uma história honesta, cheia de sentimentos e questionamentos com relação à ancestralidade, família, raça e originalidade.

Em Travessia, somos colocados à frente de uma busca de identidade coletiva de famílias negras e da estigmatização do negro. Um filme curto e afirmativo em suas críticas, sem se desapegar de uma linguagem poética e fotográfica, um recurso interessante, pois traz à tona a relação que temos com a fotografia e como isso também está conectado com nossas relações pessoais, nossas histórias individuais e coletivas. O filme consegue ser crítico, potente e delicado ao mesmo tempo.

O Órfão, com uma narrativa não linear, muito belo e poético, mostra a dificuldade de um menino órfão de ser aceito por uma família, devido à suas características mais afeminadas. O roteiro traz uma nova visão sobre o tema, com bons diálogos e desenvolvimento de personagens. O filme ainda conta com ótimas atuações e ainda se arrisca em trazer planos que são como viagens oníricas, que apesar de serem narrativamente justificados, realizam uma ruptura estética muito interessante e bonita. É uma outra produção que se revela potente e sutil e quando a cronologia se torna clara, ele te atinge com uma força quase inexplicável. Jonathas, o protagonista não tem muitos problemas com sua identidade, mas sim com a forma que os outros lidam com ela, o que nos propõe uma pergunta interessante: qual a melhor e mais amável maneira de lidar com o outro?

Em Peripatético, nos deparamos com a identidade da periferia, a identidade do jovem que acorda morto com um tiro nas costas depois de uma incursão policial no morro. O filme é inspirado na luta do movimento Mães de Maio, que foi uma reação à violência contra inúmeros jovens inocentes que foram assassinados durante o conflito entre policiais e uma facção criminosa em Maio de 2006 na cidade de São Paulo. Por esses motivos, o filme tem mensagens fortes, mas consegue até ser engraçado em alguns momentos, se apoiando no cotidiano que vai se tornando-a ameaçado. Ele não é nenhum pouco sutil nas bandeiras que ele levanta e nos discursos, mas se assume assim, fala da própria forma que ele usa e é consciente sobre tudo que trata e como trata. É objetivo ao dizer várias coisas usando a narrativa da protagonista e dos seus amigos. Quando a personagem diz que “aqui a vida não respeita o desenvolvimento do personagem”, fica claro o quão coerente e assertivo o filme é, e como os seus realizadores entendem o que estão fazendo. Além disso, é muito bem filmado, a direção opta por planos muito interessantes e ele utiliza uns recursos estéticos diferentes para contar certos trechos do filme (desde animação, até material de arquivo e cenas ilustrativas).

Encerrando com Uma Bala, filme que em alguma instância trata das identidades políticas e é realmente como uma bala: rápido, forte e que com certeza, tem um discurso que deixa marcas, fazendo-nos lembrar da luta de Marielle Franco.

O que esses filmes trazem para nós, além de suas próprias questões, é a questão de quem está realizando esses filmes? Quem é essa juventude que agora está conseguindo trazer átona, histórias e personagens que não vemos com frequência nos filmes nacionais. São filmes que se comunicam enquanto narrativa, mas que também, são autoconscientes sobre seu papel artístico e suas potências.

texto por Lucas Nunes

CDCC

O Cineclube do CDCC exibiu, no dia 29 de setembro, filmes da segunda sessão da Itinerância do festival Kinoforum, na cidade de São Carlos. A curadoria ficou sob a responsabilidade de um grupo de estudantes do curso de Imagem e Som, da UFSCar. Os filmes selecionados são todos produções de 2017 ou 2018 e vem de diversas regiões do Brasil.

_DSC0037A exibição do conjunto selecionado deixou clara a intenção, por parte da curadoria, em construir uma programação diversificada: para além de títulos de várias partes do país, os formatos e os recursos narrativos empregados variaram bastante, o que mostra a decisão acertada de criar um programa que reflita os diversos caminhos que o cinema e o audiovisual pode tomar para exprimir uma ideia.

 

Dentre os filmes em live-action, foram exibidos tanto ficções – As melhores noites de Veroni (Ulisses Arthur, 2017) e Convite Vermelho (João Victor Almeida, 2017) – quanto documentários e filmes ensaísticos, a exemplo do impactante Mini Miss, que flerta com o gênero do cinema direto e outros dois títulos mais heterogêneos: Um Filme de Baixo Orçamento (Paulo Leierer, 2018), um “misto de institucional, imagens de arquivo, documentário e making of” e Impávido Colosso (Marcelo Ikeda, Fábio Rogério; 2018), filme que se apropria do material de arquivo resultante de anos de propaganda política em período eleitoral no país. O filme se classifica como obra de ficção, fato significativo levando em conta o objetivo da obra de desconstruir o aspecto de verdade que reveste os discursos eleitorais.

A sessão em conjunto demonstrou também que, para além da diversidade das obras, houve uma preocupação por parte da programação em construir um discurso crítico e coerente, indo além das particularidades de cada obra. O riso, a paródia e a festa surgem em boa parte dos filmes como recursos para desestabilizar e denunciar um cotidiano opressor. Das fugas noturnas de Veroni e Cristina, protagonistas dos filmes de Ulisses Arthur e João Victor Almeida respectivamente, até a presença sempre contraventora das crianças do documentário Mini Miss, travestidas forçosamente como exemplares em miniatura da cultura elitista e objetificadora dos concursos de beleza, nunca se adequando harmoniosamente com papel imputado a elas pelos familiares autoritários. O filme é bem-sucedido em registrar o descaso e o desprezo frente a esse jogo autoritário que as crianças são forçadas a se submeterem pelos familiares, na medida em que ainda não assimilaram por inteiro as regras de comportamento desumanas do mundo adulto.

Os problemas técnicos no momento da exibição de um dos títulos, Um filme de baixo orçamento, foram propícios pois acabaram reforçando positivamente a mensagem do diretor Paulo Lereio de que excelência técnica e condições materiais favoráveis nunca foram pré-requisitos para a produção e disseminação da arte e da cultura, ferramentas que podem encontrar incentivos para se realizarem também ao se apropriarem de condições adversas, como forma de denuncia e resistência.

Aconteceu naquela manhã é uma das animações do programa, que retrata a situação surreal e cômica de personagens perdendo as próprias cabeças sem motivo aparente, somente para mostrar que na sociedade em que eles se encontram eles nunca tiveram uma realmente. Quer dizer, no trabalho e demais relações sociais sob o capitalismo a falta de autonomia dos indivíduos é a regra, e não a exceção. A segunda animação do programa foi Òpárà de Òsún: Quando Tudo Nasce, curta-metragem baiano que retrata de maneira deslumbrante o mito de Òsún, deusa da fertilidade no Candomblé.

texto por Pedro Pimenta