Contatos de 4º Grau (Olatunde Osunsanmi, 2010)

Filme de Olatunde Osunsanmi que dirigiu apenas outros dois filmes antes deste: WIthIN (filme de terror feito em 2005) e Etat (curta-metragem de 2000). Não conhecendo a obra anterior deste cineasta me atenho ao filme em questão. A primeira imagem que vemos é uma bela indefinição que aos poucos ganha nitidez e reconhecemos Milla Jovovich conversando diretamente conosco e dizendo que irá interpretar a Dra. Abigail Tyler e que estamos prestes a ver um filme baseado em fatos reais, em que as cenas ficcionais serão reconstruídas com base em depoimentos e materiais de vídeo e áudio.


O filme “reconstrói” um período misterioso da vida de Abigail Tyler, no qual ela perde o marido, sua filha e lida com estranhos acontecimentos em seu consultório de psicologia em Nome, no Alaska. Ao fim desta introdução da própria atriz, ou de sua persona como atriz perante o público, a história começa. Ouvimos a real Dra. Tyler falando a respeito de sua história e aos poucos som e imagem passam a ser ficcionais na imagem e na voz de Milla interpretando a Doutora. Com esse recurso direto, o cineasta, de maneira rápida, já identifica qual a respectiva voz e imagem da Dra Tyler na ficção.

Aos poucos, com a história se desenrolando, descobrimos que vários de seus pacientes tem sintomas muito parecidos e relatam a mesma visão durante uma insônia que acontece sempre às 3:33h, porém nenhum deles consegue, com detalhes, descrever o que viu durante a noite, portanto ela hipnotiza seus pacientes para ter acesso à memória que conscientemente essas pessoas não conseguem ter e, a fim de registrar para um estudo posterior do caso, a Dra. filma essas sessões. A partir daí os espectadores tem acesso ao material originalmente gravado pela psicóloga e ao material ficcional do filme de Osunsanmi. A tela é dividida em duas partes, numa delas a ficção e na outra a filmagem original. A qualidade da imagem original é um tanto ruim, cheia de imperfeições típicas de gravações antigas e caseiras, contém informações sobre o tempo de gravação e etc, além disso a imagem é estática, a câmera está sobre um tripé e há apenas uma câmera sendo usada. Já a imagem ficcional, muito bem iluminada, tem ótima qualidade e está em constante movimento, é uma câmera instável que cria a sensação de leve incômodo e já que a imagem original é fixa a barra que divide a tela fica se mexendo de um lado para o outro para dar essa sensação de instabilidade ao conjunto da obra. É um tanto impressionante quando vemos a cena ficcional ser apresentada na imagem originalmente filmada. No filme a ficção é utilizada como ferramenta de ambientação, que prepara o terreno para as imagens documentais, ou seja, você entra no clima do filme com a ficção, através da interpretação dos atores, dos diferentes ângulos filmados e a imagem real chega com um poder muito maior depois da ficção.

Em outro momento interessante do filme um dos personagens está prestes a matar a família e se suicidar e este diz querer falar com a Dra. Tyler. Quando ela chega no local inicia-se uma seqüência de montagem muito interessante, a tela é dividida em duas, três e depois quatros partes, em cada canto da tela vemos um pedaço da cena e, o mais interessante, ficção e realidade vão se misturando aos poucos até que envolvidos pela força do acontecimento e por tantas telas pedindo nossa atenção não é possível lembrar o que era original e o que era ficcional. Essa construção faz com que fiquemos confusos, mas a confusão se restringe apenas à forma, pois o conteúdo (assassinato e suicídio) são muito bem compreendidos e ganham ainda mais dramaticidade.

Durante todo o filme há inserções de material documental e algumas vezes a força da imagem documental é tão grande que a cena ficcional é suprimida e assistimos apenas a imagem original, como na seqüência em que um de seus pacientes é “possuído”: assistimos a reconstrução da cena por atores profissionais e num pulo entramos em contato com as imagens documentais.

Ao final do filme, mais interessante do que saber se a história é verídica, ou, melhor do que ficar no dilema: crer – não crer, é atentar para o fato de como o cineasta soube dosar muito bem as cenas documentais com as cenas ficcionais, como montou as telas divididas, como soube utilizar no momento certo as cenas de depoimento e esconder alguns fatos que aos poucos são revelados. Apesar da temática ser um tanto clichê, volto a repetir que algumas imagens documentais tem uma força muito grande no filme e junto com a maneira na qual foi agregada a ficção, elas ganham mais vitalidade.

Alguns podem achar que o filme se apóia num estilo televisivo, mas diferentemente dos documentários comuns de canais especializados o filme chama atenção para sua forma dinâmica, sem ser cansativo e nem demasiado pedante.

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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2 Comentários para: “Contatos de 4º Grau (Olatunde Osunsanmi, 2010)

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