CROSS_Olhares Justapostos sobre Realidades Distantes (Sandra Schmitt Soster e Anja Pratschke, Nomads.usp, 2012)

Organizamos em 2012, uma ação cultural CROSS_Olhares Justapostos sobre Realidades Distantes que faz parte do projeto de politicas públicas Territórios Híbridos: meios digitais, comunidades e ações culturais , realizado pelo Núcleo de Estudos de Habitares Interativos – Nomads.usp – e com apoio da FAPESP. O objetivo central do projeto visa utilizar ações culturais para a construção coletiva de espacialidades híbridas – que mesclem o concreto e o virtual – nos espaços urbanos. Através de tais ações, busca-se ampliar visões de mundo e explorar as diversidades de pessoas e grupos de realidades distintas entre si, desenhando coexistências e instigando o desejo de que estas aconteçam.

Neste contexto, a ação CROSStrabalha,através do universo do audiovisual, a remoção de barreiras invisíveis socialmente pré-concebidas. Em um processo em que o curta-metragem é utilizado como motivação para a reflexão sobre o cotidiano de duas cidades geograficamente distantes. São Carlos, no interior de São Paulo, e Rio Branco, a capital do Acre. Duas realidades culturalmente diferentesinstigadas a se entreolharem.

Os vídeos foram produzidos com imagens captadas em São Carlos-SP para retratar Rio Branco-AC. Uma metodologia que instigou os autores a olharem em seu cotidiano as semelhanças e as diferenças entre as duas culturas, produzindo uma reflexão sobre sua própria realidade,olhando o outro, que passou a configurar um olhar-se a si mesmo.

Participaram moradores das duas cidades com uma diversidade de formações profissionais que proporcionou uma desejável pluralidade de visões de mundo. Os workshops ocorreram nas instalações das instituições parceiras e abordaram os seguintes temas: 1. Roteiro, 2. Filmagem, 3. Produção, 4. Storyboard, e 5. Edição . A infraestrutura disponibilizada contou com um professor para ministrar as aulas e dois assistentes para as aulas práticas; equipamento para exibição das aulas; câmeras fotográficas e tripés para as filmagens; computadores e HDs externos para edição. O diferencial dos workshops esteve pautado na metodologia de apresentação do conteúdo, pois foram trazidas à tona as noções de filmagem absorvidas inconscientemente no dia-a-dia dos participantes: ministrados conceitos básicos de manuseio das câmeras, o ministrante apenas explicou os conceitos de filmagem (como enquadramentos e planos) nos vídeos produzidos pelos participantes. As duas cidades, colocadas em diálogo via rede social, analisaram e discutiram informações coletadas online em busca de um entendimento sobre a realidade do outro. Dessa forma foram derrubadas concepções generalizadas e superficiais. Desse intercâmbio surgiram as temáticas dos curtas-metragens, que apresentaram diferentes pontos de vista sobre o cotidiano de Rio Branco . Uma pluralidade de assuntos que reflete a dificuldade e a curiosidade de retratar um local pouco conhecido. Uma diversidade de visões que, quando apresentadas em conjunto, refletem apenas uma pequena parcela do que é a cultura e o cotidiano acreanos, mas que são fortes ferramentas para instigar os espectadores a também buscarem mais informações sobre cidades, bairros ou grupos que desconhece.

Este formato de ação cultural tem o intuito de ser reproduzido por outros agentes em outras cidades e bairros. A metodologia de colocar em diálogo pessoas que jamais conversariam pode ser utilizada para a construção colaborativa de outras formas de arte e expressão, como um poema ou uma música, por exemplo. O importante é ampliar a visão de mundo dos participantes e ressaltar a importância de olhar para realidades desconhecidas.
Um processo de despertar o olhar para o outro e para si mesmo.

Dos Rios aos Rios


Autor: Diogo Martino Fernandes Almeida

Sinopse: Este filme lança um olhar livre e poético sobre a relação do homem com o rio. A partir de uma paisagem urbana do interior de SP o documentário tenta trazer à tona algumas questões sobre como o acreano interage com o rio.

 

Realidades Partilhadas

Autores: Sabrina Hövener e Ricardo Andrade

Sinopse: Através de temas do cotidiano, o vídeo traça similaridades e diferenças entre São Carlos-SP e Rio Branco-AC, apresentando as “fronteiras invisíveis” e “torres de defesas artificiais” que são construídas. Assim, nos perguntamos: “O que nos une, então?” É rapidez, é lentidão?! É fluxo e inércia?! São obrigações, são necessidades?! É natureza, é artificialidade?! É expressão, é medo, é paz e luta, é alegria e tristeza ou é vida e morte?!

 

Santo Acre


Autores: Iasha Salerno e Yago Barbosa

Sinopse: Santo Daime é uma manifestação religiosa que surgiu no século XX no interior da Floresta Amazônica. Conhecida também como “religião das florestas”, cresceu e se concretizou como uma doutrina no Acre e é marcada pela presença da bebida enteógena Ayahuasca. Muito mais do que uma doutrina de sensações, o Daime está presente hoje em todo o território brasileiro, guiando seus adeptos ao autoconhecimento e ao desenvolvimento espiritual.

 

São Carlos existe?

Autores: Maria Julia Andrade Carvalho e Leonardo Ferreira Reis.

Sinopse: Em um bate-papo descontraído, dois acreanos que vivem na cidade de São Carlos contam um pouco de suas impressões e sensações sobre os tão distantes territórios.

Tua existência, minha voz


Autores: Kamila Souza e Paulo Alberto da Silva Mendes

Sinopse: Quatro narrativas de pessoas que visitaram ou não o Acre expressam diferentes óticas sobre a cidade de Rio Branco, aproximando realidades e construindo uma relação que nos faz pensar a distância, os modos de vidas, as diferenças e similitudes entre Rio Branco e São Carlos. Em especial o depoimento de um acreano, morador de São Carlos e descendente de indígenas. Assim, o curta pretende mostrar formas diferentes de apropriação de outras realidades, diminuindo afastamentos e mitigando preconceitos.

 

Pergunta: Como foi o processo de escolha das temáticas dos curta-metragens?

Diogo Martino, autor de “Dos rios aos rios”: Nunca fui ao Acre e minha pesquisa se baseou em conversas com algumas pessoas de lá e coleta de notícias, fotos, textos e vídeos na internet.

Sabrina Hövener e Ricardo Andrade, autores de “Realidades partilhadas”: Os documentaristas nunca foram e pouco conhecem o Acre. Inclusive Sabrina, por ser intercambista alemã, nunca ouvira falar desse estado do Brasil antes desse documentário. Durante o planejamento e a realização das filmagens, pensamos num tema bem diferente do que o apresentado no resultado final. Queríamos focar o nosso documentário na história de Chico Mendes e na problemática situação da floresta. Pesquisamos especialmente na internet sobre a subsistência da população do Acre, porque nos interessava não só os perigos da natureza, mas principalmente como os habitantes do Acre lidam com isso. Assim encontramos a fonte de renda principal no campo, nos seringueiros e castanheiros. Para saber se os são-carlenses conheciam o Acre, fizemos entrevistas na praça do Mercado Municipal. Muitos responderam de forma imaginativa, comentando sobre uma terra pobre e cheia de mata. Assim, decidimos mostrar por outro lado a vida urbana e as semelhanças entre as duas realidades diferentes. Por conseguinte, pesquisamos e aprendemos mais sobre o Acre por meio de canções e poemas.

Iasha Salerno e Yago Barbosa, autores de “Santo Acre”: Ficamos bastante empolgados com a ideia de fazer um documentário sobre algum aspecto cultural do Acre. Nunca fomos e também nunca tínhamos pensado em nada que nos remetesse ao estado. Mesmo nunca tendo visitado o Acre, a escolha do tema foi feita pensando num ponto cultural que também estivesse presente em nossa cidade. Assim, escolhemos o tema conversando com um nativo de lá, que reside atualmente em São Carlos, pela internet, que nos mencionou a importância e a ocorrência do Santo Daime na vida dos acreanos. Definido o tema, começamos a pesquisar mais sobre o culto na internet, em páginas oficiais do Santo Daime e fizemos entrevistas com adeptos da doutrina.

Leonardo Reis e Maria Julia Carvalho, autores do curta “São Carlos existe?”: O desafio foi falar sobre o Acre, um lugar em que nunca estivemos presentes e do qual pouco sabíamos além do que é transmitido pela mídia. A partir desse referencial, a primeira decisão da dupla foi fugir do simplista “Acre dos desastres naturais” apresentado por tantos sites, jornais impressos e canais televisivos. E no intuito de captar impressões mais subjetivas, que fogem desse senso comum acerca da região, fomos em busca de pessoas que nasceram no Acre e que também viveram na cidade de São Carlos a fim de construir uma comparação.

Sem um roteiro fixo – foram discutidos somente quais seriam os assuntos de maior relevância a serem tratados – teve início a gravação da conversa. A opção de colocar a equipe em cena explicita a subjetividade na construção do documentário: nele não foram gravadas “verdades absolutas” narradas por uma voz over, mas sim pontos de vista, informações não menos relevantes sobre o que se passa no Acre e em São Carlos.

Após uma sucinta apresentação dos “personagens” em cena, variados assuntos surgem com espontaneidade e constroem o enredo do filme. O plano sequência gravado no material bruto tem a oportunidade de ganhar forma através da montagem realizada posteriormente. Além de reordenar os assuntos abordados, os cortes brincam com os movimentos dos personagens dentro da câmera em posição fixa.

Kamila Souza e Paulo Mendes, autores de “Tua existência, minha voz”: A dupla é composta por uma manauara que nunca esteve no Acre e um rondoniense que morou por alguns meses em Rio Branco. A experiência de ambos na região norte e suas formações em Ciências Sociais proporcionaram um ponto de partida mais voltado a questões do cotidiano. Os temas foram se moldando em entrevistas realizadas com moradores de São Carlos, inclusive um acreano.

Pergunta: Como foi a experiência e quais as contribuições para sua formação profissional e pessoal?

Diogo: Fazer esse vídeo me fez aprofundar em uma ideia que já tenho há um bom tempo, justamente sobre essa relação entre o homem e o espaço em que ele vive, nesse caso, sobre o que chamei de “identidade fluvial”. Sempre acreditei que essa relação é um ponto chave para diagnosticar e trabalhar as questões ambientais na cidade.

Leonardo e Maria Julia: Pensar e falar sobre o Acre com os pés em São Carlos proporcionaram inúmeras reflexões ao longo do processo de realização do curta-metragem. A começar pela famigerada ignorância da população do sudeste em relação a cultura de outros estados do país. Enxergamos que ao depender da midia e dos meios de comunicação convencionais, pouco sabemos sobre o que se passa no Norte e Nordeste do país além de assuntos relacionados a beleza natural ou catrástofes ambientais. Ao mesmo tempo em que nos surpreendemos como a globalização proporciona uma incrível disseminação nas formas de consumo e que leva diversas informações do “Sul para o Norte”, notamos que ela não faz o caminho inverso.

Sabrina e Ricardo: A experiência foi muito boa em muitos aspetos. Aprendemos mais sobre a diversidade do Brasil e suas realidades diferentes. As filmagens e a pesquisa de áudio não só nos ajudaram a saber mais sobre este estado muitas vezes esquecido, mas também a sentir a vida diferente com todos os sentidos do nosso corpo. Lemos poemas, escutamos música, visitamos campos de seringueiros, cachoeiras e vimos noticias sobre catástrofes naturais. Essa pesquisa e esse trabalho intensivo foram muito mais do que uma pesquisa normal para umaprova de universidade, por exemplo. No entanto, só com uma viagem ao lugar se pode imaginar, ver e entender como realmente é esta outra realidade. Os meios digitais mediaram a pesquisa, e proporcionaram uma noção do lugar e o contato com pessoas locais. Em comparação a tempos anteriores, as possibilidades de imaginar-se um lugar longe melhoraram enormemente, mas para compreender a outra realidade,é preciso visitá-la e vários anos de convivência.

Iasha e Yago: Como graduandos de Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos, tivemos pela primeira vez a oportunidade de relatar um tema até então desconhecido para nós, o Santo Daime. Num formato também novo, o documentário. Misturando o modo poético com a presença de entrevistas, Santo Acre foi o nosso primeiro trabalho no gênero, e nos inspirou a pesquisar e a criar muito para os próximos trabalhos. Em dupla, nos familiarizamos com modos totalmente novos de produção, realização e pesquisa. Através dessa produção audiovisual criamos então uma visão sobre o Acre, um estado tão distante física e culturalmente de nós. Sendo assim, afirmamos que o conteúdo produzido para o meio de comunicação em questão, a internet, nos fez conhecer mais sobre a cultura brasileira e a enxergar a importância do projeto como um todo.

Kamila e Paulo: A experiência com o projeto proporcionou a construção de outros olhares sobre esta realidade vivida por um dos componentes e desconhecida pelo outro. Através das narrativas dos entrevistados, alguns elementos foram fundamentais para que repensássemos a ideia que tínhamos sobre o Acre, a partir de uma relação de alteridade. E mais ainda, fizeram pensar São Carlos em uma perspectiva de distanciamento para entender de forma cosmológica cada lugar por que passamos, a forma de organização de cada cidade, a cultura do lugar e o cotidiano. O projeto também foi importante por questões mais técnicas e não menos importantes. As oficinas teóricas sobre as características do documentário, os tipos de construção do documentário a partir do teórico Bill Nichols. A oficina, as conversas sobre diversos temas que incluíam desde ética documental até apropriações estéticas e textuais no vídeos. O acompanhamento da montagem do curta foi fundamental na formação técnica, no sentido de ampliar as formas de criação e estabelecer novos horizontes de possibilidade no que concerne a experimentações estéticas e narrativas.

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Figura 1. Workshops realizados em São Carlos-SP. De cima para baixo: Filmagem, Storyboard e edição.

Os participantes de São Carlos-SP:


Diogo MartinoFernandes Almeida, 27 anos, paulistano, estudante de Música, já formado em Engenharia Ambiental.

Sabrina Hövener, 25 anos, alemã, aluna de Ciências Culturais.

Ricardo Andrade, 25 anos, são-carlense, artista gráfico.

Iasha Salerno, 19 anos, paulista, aluna de Imagem e Som.

Yago Barbosa, 20 anos, paulista, aluno de Imagem e Som.

Maria Julia Andrade Carvalho, 20 anos, paulista, Bacharel em Imagem e Som.

Leonardo Ferreira Reis, 26 anos, paulista, mestre em Engenharia de Produção.

Kamila Souza, 26 anos, socióloga, amazonense.

Paulo Alberto da Silva Mendes, 26 anos, historiador, rondoniense.

Agradecimentos:


ÀFundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP.

Ao Nomads e a seu coordenador Prof. Dr. Marcelo Tramontano.

A todos os parceiros e envolvidos em São Carlos-SP e Rio Branco-AC.

Para maiores informações sobre como realizar esta ação, entre em contato com o Nomads.usp

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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