Curta-metragem Metalinguistico de Baixo Orçamento ou Aceita Mais Café? (Byron O’Neil, UFMG, 2003)

Curta-metragem Metalingüístico de Baixo Orçamento – ou aceita mais café? é um filme feito entre amigos que exibe questões enfrentadas pela maioria das produções audiovisuais de baixo orçamento. O curta estabelece uma interação direta com o público e ganhou diversos prêmios, incluindo vários de júri popular. Confira o curta e uma entrevista exclusiva com seu diretor Byron O’Neil e com a produtora e atriz Gisele Werneck.

Por Fernanda Sales* e Nayton Barbosa**

RUA: Como surgiu a ideia para o curta?

Byron O’Neil: A ideia surgiu como uma maneira de se fazer um curta-metragem de baixo orçamento (já que eu não tinha dinheiro) que brincasse com a própria falta de recursos e utilizasse isso a seu favor. Eu não queria esperar que algum projeto fosse aprovado em alguma lei de incentivo ou outra coisa do gênero para poder fazer o filme. Hoje em dia é possível produzir curtas de baixo orçamento com qualidade, ainda mais depois do surgimento do formato digital.

RUA: Como foi a produção do filme? Quais foram as condições para sua realização? A universidade o apoiou?

Byron O’Neil: “Curta-metragem metalinguístico de baixo orçamento ou aceita mais café” foi gravado no campus da UFMG, atrás da Escola de Música, durante um final de semana. A universidade nos deu autorização para gravar o curta e utilizar as dependências da Escola de Música como base. O curta foi produzido com recursos próprios e contou com a ajuda da família e de amigos, que trabalharam de graça. A equipe de gravação era composta por 07 pessoas: meu irmão Thiago Cotta (analista de sistemas), Rafael Nelvam (músico), Daniel Ducato (artista plástico), Mariana Simões (atriz), Grace Souza (atriz), Gisele Werneck (atriz e escritora) e eu. Além da Gisele e da Grace (que eram as atrizes), eu era o único da equipe que já havia colocado os pés em um set de filmagem antes durante um curso livre de cinema em BH.

curta-metragem metalinguistico de baixo orçamento ou aceita mais café

RUA: Comente as escolhas estéticas tendo em vista o filme ser uma proposta de baixo orçamento. Como, por exemplo, o uso do preto e branco e de película.

Byron O’Neil: Eu escrevi o roteiro do curta pensando em aproveitar ao máximo os equipamentos que eu tinha à disposição. E de uma maneira em que as possíveis falhas técnicas do filme fossem justificadas pelo fato de ser um curta-metragem metalinguístico de baixo orçamento. Na época eu havia acabado de ganhar uma filmadora Mini DV modelo SCD67 da Samsung, que era a mais barata na época. A câmera não era muito boa para captar cores e eu resolvi que iria fazer um curta em preto e branco. Além disso, resolvi que o curta seria gravado todo em externas já que eu não tinha refletores. O fato dos microfones de lapela poderem aparecer, por se tratar de um curta-metragem metalinguístico, ajudava a dar menos trabalho para captar o som. Tudo foi pensado para facilitar a gravação já que éramos poucos e sem experiência. Eu só finalizei o curta em película 16mm (transfer tape-to-film) porque achei um lugar nos EUA que cobrava 5 vezes mais barato do que no Brasil. Era só enviar a fita Mini DV pelo correio que dentro de 3 semanas eles mandavam a cópia para exibição e o negativo. Na época um curta só podia participar dos festivais de cinema se fosse finalizado em película. Caso contrário ele ficava restrito aos festivais de vídeo, em sua maioria menores. Em muitos festivais existia ainda a divisão por “categoria de bitola”. Um curta finalizado em 35mm era considerado “mais importante” do que um finalizado em 16mm pelos organizadores. Ainda bem que os festivais importantes pararam com essa bobagem de aceitar apenas curtas finalizados em película. Acredito que essa história de bitola serve apenas para bitolar as pessoas.

curta-metragem metalinguistico de baixo orçamento ou aceita mais café

RUA: Como foi o trabalho de atuação?

Byron O’Neil: No meu caso foi tranqüilo, pois interpretei a mim mesmo. O mais difícil foi decorar o texto que escrevi.

Gisele Werneck: Foi ótimo. O Byron é um excelente diretor de atores, até por ser ator também, e soube trabalhar com o melhor que eu e a Grace Souza tínhamos para oferecer, cada uma em seu estilo. Foi maravilhoso trabalhar entre amigos, a gente se sentia muito à vontade, principalmente eu, que só ficava deitada na cama (risos).

foto 3 curta-metragem metalinguistico de baixo orçamento ou aceita mais café

RUA: O filme rodou diversos festivais e ganhou alguns prêmios. Como foi a interação com os públicos?

Gisele Werneck: Ver o filme em grandes festivais com a sala cheia foi uma surpresa e uma alegria enorme para nós, que tínhamos feito o curta entre amigos, com muita leveza e da maneira mais despretensiosa possível. Pude estar no Cine Ceará, onde o filme ganhou melhor curta em 16mm. Lembro que a sala vinha a baixo quando pedíamos para a platéia votar no nosso filme caso o festival tivesse um júri popular. E acabamos mesmo ganhando vários prêmios de público pelos festivais, parece que o pedido funcionou né (risos).

Byron O’Neil: Foi maravilhosa. Ele foi feito para ser visto, prioritariamente, em festivais e a interação com o público era maravilhosa. O curta ganhava muito mais sentido e o riso de um acabava contagiando o outro. É completamente diferente você assistir um curta em um cinema lotado. As pessoas gostavam do filme porque ele é muito sincero. Algumas vinham para conversar depois e diziam que tinham ficado com vontade de também fazer um filme, pois viram que não era necessário tanto dinheiro assim.

*Fernanda Sales é graduanda do curso de Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e  faz parte da editoria geral da Revista Universitária do Audiovisual (RUA)

**Nayton  Barbosa é graduando do curso de Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e editor da seção Curtas na Revista Universitária do Audiovisual (RUA)

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