Da Transilvânia para os trópicos: Drácula nos quadrinhos brasileiros

From Transylvania to the tropics: Dracula in brazilian comics. [1]

Lúcio De Franciscis dos Reis Piedade[2]

Resumo:

O trabalho estuda as relações entre o Drácula literário, os filmes de horror e as adaptações do personagem de Bram Stoker para os quadrinhos brasileiros. Notamos ter sido o cinema diretamente responsável para a transposição de Drácula para suas versões desenhadas, sobrepujando o original literário. Trajetória iniciada nos Estados Unidos pela Editora Marvel, chegando ao Brasil nos anos 1960 pela Editora Taika, em criativa e singular reinvenção.

Abstract:

The paper studies the relationship between the literary Dracula, horror films and adaptations of the character in Brazilian comics. We note the movies have been directly responsible for the development of Dracula magazines, surpassing Bram Stoker’s original. Trajectory initiated in the United States by Marvel Publishing, arriving in Brazil in the sixties by Publisher Taika, in unique and creative reinvention.

Palavras Chave: Literatura Fantástica – Horror – Histórias em Quadrinhos – Drácula

Keywords: Fantastic Literature – Horror – Comics – Dracula

1. Drácula: do romance aos quadrinhos.

Desde que Drácula foi publicado em 1897, a criação do irlandês Bram Stoker ganhou projeção nos meios de comunicação e na indústria de entretenimento. Tanto na literatura quanto no cinema, são inúmeras as produções relacionadas ao tema, o qual sofreu significativas alterações de acordo com diferentes abordagens e contextos culturais. Essa diversificação aparece com destaque nas histórias em quadrinhos, meio em que o personagem foi com freqüência adaptado e representado por roteiristas e desenhistas mundo afora, algumas vezes em títulos periódicos, outras em edições especiais. Artistas que se serviram não só da fonte literária, mas também das encarnações do vampiro no cinema.

Se o príncipe das trevas e sua prole são presença constante nos quadrinhos desde a década de 1930 – Batman, por exemplo, já enfrentava um deles, denominado Mad Monk, por volta de 1939 nas páginas da Detective Comics -, pouco em comum podemos encontrar da caracterização do personagem de Stoker. Conforme sugerem Browning e Picard (2011, 239), o cinema foi diretamente responsável pelo Drácula dos quadrinhos. Segundo os autores citados (2011, 240) essa preferência pela representação cinematográfica sobrepujando a literária iria definir os parâmetros subseqüentes para o vampiro dos comics.

O final de 1960 e início da década seguinte foram anos promissores para Drácula e os vampiros nos quadrinhos, graças à distensão do código de ética que vigorou desde 1954[3] e incidiu diretamente nas revistas de horror A revisão do código em 1971 permitiu o aumento da violência e a volta de seres sobrenaturais. O rei dos vampiros ganhou espaço de honra na Marvel em A Tumba de Drácula (The Tomb of Dracula, 1972), ainda que não fosse o primeiro vampiro a aparecer nas edições da denominada “casa das idéias”. Privilégio concedido ao vilão Morbius, nas páginas de Homem Aranha (Amazing Spider Man 101, 1971). Contudo, Drácula foi o primeiro monstro da editora a ganhar título próprio. A Tumba de Drácula, que teve 70 edições até 1979, remete aos personagens criados por Stoker através de descendentes que enfrentam o vampiro na Londres setentista. Uma estratégia para atualizar os clichês do gênero para a nova geração, em sintonia com a tendência do cinema de horror do período. É relevante o fato que naquele mesmo ano a Hammer – companhia cinematográfica britânica famosa por revitalizar os monstros clássicos – lançava Drácula no Mundo da Mini-Saia (Dracula A. D. 1972), em que um descendente do caçador de vampiros Van Helsing (Peter Cushing) luta contra o arqui-inimigo de seu antecessor na Londres contemporânea do sexo, drogas e rock’n’roll. Bastante influenciadas pelos filmes do lendário estúdio, as histórias desenhadas por Gene Colan e roteirizadas principalmente por Marv Wolfman, têm como ponto de partida um herdeiro do conde, Frank Drake, que vai à Transilvânia tomar posse do castelo da família, desencadeando o despertar de Drácula. Frank Drake acaba se juntando a Rachel Van Helsing (neta de Abraham Van Helsing) e Quincy Harker (filho de Jonathan e Mina Harker, citado no último parágrafo do romance) num time de caçadores de vampiros que enfrenta as artimanhas do monstro a cada edição. Pouco depois se juntaria ao time o vampiro renegado Blade (1973), que conforme sugestão de Browning e Picard (2011, 240), pode derivar de inspiração do roteirista Wolfman nos filmes blaxploitation [4]do período, sendo a criação um cruzamento dos personagens-título dos filmes Shaft (1971) e Blácula, o Vampiro Negro (Blacula/1972). Curiosamente a caracterização de Drácula não ganhou as feições do ator Christopher Lee que encarnou o vampiro em sete produções da Hammer entre 1959 e 1973, sendo agraciado por Gene Colan com os traços de Jack Palance, que o interpretaria pouco depois em uma produção para a televisão[5].

A Tumba de Drácula foi um marco, tanto na construção narrativa quanto na continuidade, com o desenvolvimento de tramas e sub-tramas de profundidade psicológica e maturidade temática, que redefiniram o personagem, criando um novo universo repleto de referências que funcionam como uma extensão – e até mesmo um universo expandido – do romance de Stoker. Vale lembrar também a interação desta versão do vampiro com outros monstros da Marvel, como o Lobisomem e a criatura de Frankenstein; além de confrontos épicos com os carros-chefe da editora: os super-heróis. Sendo assim, Drácula enfrenta desde o Homem Aranha[6], o Surfista Prateado[7] e os X-Men[8], até o ocultista Dr. Estranho[9], que será o responsável pela extinção dos vampiros no universo Marvel com uma antiga magia: a Fórmula Montesi[10].

O primeiro número do Drácula da Marvel nas edições brasileira (Editora Bloch, 1976) e norte-americana (1972).

2. Drácula desembarca no Brasil.

É curioso constatarmos que esse Drácula tão marcante, fielmente calcado na tradição popular, como sugere Melton (1995, 221), “mau, mas com alguns traços de sentimento humano”, nunca teve muita repercussão no Brasil. Publicado três vezes durante os anos 1970 como título regular pelas editoras Saber (O Túmulo do Conde Drácula, 1972), Bloch (A Tumba de Drácula, 1976-1980, com o selo Capitão Mistério) e RGE (Terror de Drácula, 1979 – 1980), sempre foi descontinuado após algumas edições. Principalmente numa época em que os quadrinhos de horror ainda eram populares.

É importante ressaltar, o que talvez explique em parte o fracasso da iniciativa de publicar o Drácula da Marvel no Brasil: quando este aportou por aqui já existia um mercado direcionado ao gênero, formado nas décadas precedentes – a partir de 1950 com Terror Negro[11] da editora La Selva – e que começava a dar sinais de desgaste. Dentro desse filão editorial que era o horror, o conde vampiro passou a figura de destaque em 1966, oito anos antes da Marvel lançar A Tumba de Drácula. Com título próprio publicado pela Outubro (que em 1967 se tornaria Taika)  e um considerável, ainda que irregular, repertório de histórias, foi em terras brasileiras que o príncipe das trevas alçou seus mais altos vôos em singulares narrativas, devendo-se a isso muita ousadia e certa falta de critério na elaboração das tramas pelo trio Helena Fonseca, Francisco de Assis e Maria Aparecida de Godói. Autores que conferiram ao vampiro uma personalidade única, forte e diferente das demais caracterizações. Ao contrário do que Marv Wolfman faria na Marvel, os autores brasileiros se afastaram do universo de Stoker e dos paradigmas vampirescos, reinventando o personagem que, caminhando de forma autônoma, pode ser utilizado nas mais inusitadas situações.

3. Recriando o mito.

E quem era esse Drácula tão singular? As histórias publicadas pela Taika[12] o caracterizavam como sacana e divertido, ao mesmo tempo em que era a própria encarnação da maldade. Sua violência, vaidade e egocentrismo se desenvolviam nas aventuras, em planos mirabolantes (nada infalíveis) para tornar-se cada vez mais poderoso e assim infligir maiores tormentos aos seres humanos. Não tinha nenhum sentimento de culpa ou amargura por sua condição de vampiro, coisa tão habitual nas atuais produções literárias e cinematográficas sobre o tema, em que sanguessugas relutantes choramingam pelos cantos ou viram purpurina. Sua presença causava medo nas vítimas e ele não tinha nenhum charme sedutor, muito pelo contrário. Seu aspecto era velho e mofado. Também raramente transformava alguém em vampiro. Egoísta, não desejava concorrentes. Queria ser único. Só o fazia caso fosse necessário para atingir algum objetivo, e mesmo assim de modo que esse novo vampiro não pudesse prejudicá-lo. Era comum, portanto, após beber o sangue de suas vítimas, cravar ele mesmo uma estaca nos cadáveres. Os roteiros geralmente tinham um tom irônico, mas mantinham sua atmosfera de maldade presente. A continuidade bem estruturada era fiel às características principais desse Drácula, mesmo que freqüentemente algumas liberdades fossem tomadas para efeito narrativo. Criava-se assim uma identificação com o leitor, mantendo interesse. Essas características se mantinham, fossem nas histórias ambientadas em séculos anteriores como nas passadas em tempos atuais. Nas quais transitavam personagens recorrentes: o detetive Fred Carson (o arqui-inimigo do conde), sua namorada Mary e o inspetor de polícia Barney. Mary é filha do Dr. Harold, um cientista que revive Drácula a partir de suas cinzas e é morto por ele na história Drácula volta a atacar. Fred, noivo da garota, jura perseguir o vampiro até conseguir eliminá-lo. Já o inspetor tem a marca do vampiro. Quando morrer deverá ter o coração atravessado por uma estaca para não se transformar, daí sua sede de vingança contra Drácula. Outro ponto importante, não muito presente nos quadrinhos de horror feitos por aqui na época, foi a utilização de uma linha narrativa seriada, com algumas histórias que continuavam na edição seguinte.

Drácula em ação, caracterizado por Nico Rosso (acima): Morte no circo, Almanaque do Drácula no. 13, edição de maio, sem informação do ano de publicação. Ilustração do desenhista (esquerda) para a capa da revista Almanaque Seleções de Terror no. 7, edição de fevereiro, também sem indicação de ano, estrelada pelo personagem.

Os roteiros, se geralmente estavam repletos dos habituais lugares-comuns do gênero e explicitavam a cultura dos anos 1960-70, também evidenciavam marcante influência dos filmes de horror do período. Certamente cinéfilos, os roteiristas dos quadrinhos se apropriavam de personagens e cenários que viam nas telas e os reciclavam de acordo com as tramas que desenvolviam. O que justifica a utilização, além das tradicionais aldeias e castelos em ruínas tão recorrentes nas narrativas góticas, dos habituais parques de diversões (O Parque dos Horrores, 1973), circos (Morte no Circo, O Estranho Mágico) e asilos (O Castelo do Medo). Referências mais explícitas ao cinema encontramos, por exemplo, em Museu do Horror (1974), A Dança dos Vampiros e Fecundação Satânica (1976). O primeiro título remete à produção Museu de Cera (House of Wax, 1953), de Andre de Toth, com Drácula se fazendo passar por atração em museu de cera para surpreender os incautos. Já A Dança dos Vampiros é mais interessante: não apenas cita o filme de mesmo nome dirigido por Roman Polanski (Dance of the Vampires, 1967), como os assassinatos da mulher do diretor, Sharon Tate e dos amigos pelo bando de Charles Manson em 1969. Nesta estória, Drácula, após assistir o filme no cinema e impressionado com a beleza da atriz principal, vai até Hollywood onde invade a casa do diretor e durante um baile de máscaras acaba massacrando os convidados. Fecundação Satânica, primeira parte de O Príncipe (1976) tem como base a obra de Mario Bava A Máscara do Demônio (La Maschera Del Demonio, 1960). A argumentista Maria Aparecida de Godoy nem se incomoda em trocar os nomes dos personagens Asa e Javuto (que já tinha utilizado na história Sexta-Feira Negra para a mesma editora), assim como no filme executados por feitiçaria no início da narrativa passada em tempos medievais.

O Príncipe foi incluído na revista Drácula lançada pela Spell Produções em junho de 1976, edição luxuosa que pode ser considerada à frente de seu tempo pelo acabamento, se assemelhando às graphic novels futuras. É dividido em três partes: a citada Fecundação Satânica, O Herdeiro das Trevas e O Homem de Carlsbad. Consideramos representativo por se inserir em outra vertente que encontramos dentro das narrativas gráficas sobre Drácula no Brasil: as que recontam a origem do vampiro, na maior parte das vezes ligada à magia negra. Em O Príncipe, ele é gerado numa cerimônia satânica, quando a Condessa Asa Van Essen é sacrificada. Seu filho Draco, tempos depois, volta da batalha contra os mouros e fica sabendo do destino trágico da mãe e da vingança do pai contra os bruxos. Satã reanima o cadáver do sumo-sacerdote Javuto, que vai ao castelo e mata o Conde. Draco encontra o corpo do pai e, incentivado pela criada com quem tivera alguns momentos de amor, vai à busca do fruto da imortalidade, gerado pela seiva da “árvore maldita”. Satã aparece e diz que a seiva da árvore e seus frutos são oriundos do sangue do ventre de sua mãe. Ele agora é o herdeiro das trevas, sendo a primeira vítima a criada que o motivou. A história termina com ele se apresentando como o Conde Drácula.

O Príncipe, narrativa em três partes, na edição de luxo Drácula no. 1, da Spell Produções (1976). Desenhos de Nico Rosso.

Em Drácula Volta a Atacar, ele é retratado como um aristocrata estudioso que faz um pacto com o Diabo para viver eternamente. Torna-se vampiro morrendo séculos depois nas mãos do caça-vampiros Van Helsing, em cena inspirada na emblemática seqüência final da produção da Hammer O Vampiro da Noite (Dracula, 1958), na qual o monstro é obrigado por seu perseguidor a ficar sob a luz do sol graças a dois castiçais cruzados. O pacto diabólico é também a essência de Drácula: o conde da Transilvânia torna-se o Vampiro da Noite, elaborada e ambiciosa história em quadrinhos escrita por Francisco de Assis. Em suas noventa páginas, é narrada a saga do personagem, desde o nascimento na Moldávia, filho do Conde Szekelys (referência à palavra szeklers encontrada no livro de Stoker), passando por sua juventude como estudioso das artes místicas, o encontro com Satã e a visita ao inferno, até sua transformação.

Mas não eram os épicos elaborados e as inspirações cinematográficas os elementos dominantes das aventuras deste Drácula desenvolvido no Brasil. Na verdade, encontramos nos episódios em que o vampiro se envolve em situações cotidianas os fatores determinantes para a composição de sua personalidade tão singular, o que iria diferenciá-lo de outras personificações, e colocaria pelo avesso os cânones do vampirismo. Esse vampiro de fértil imaginação e malandragem à flor da pele está presente em autênticos exercícios de nonsense como por exemplo: A Revolta dos Mortos Vivos, em que Drácula decide reformar o seu castelo quase em ruínas usando mortos vivos como operários. É claro que as coisas não correm como ele esperava, enfrentando por fim uma rebelião de seus escravos por causa das condições de trabalho. Em Hóspede Estranho, ele se hospeda em um hotel, onde recebe prostitutas com as quais sacia sua sede de sangue. Como remoçar cem anos (1974) mostra o vampiro às voltas com sua vaidade, ao notar no espelho (contrariando as regras de que vampiros não têm reflexos) as rugas que marcam sua face. Acaba seqüestrando uma cirurgiã plástica para dar um jeito na aparência. Já um “carrão” com chofer é o artifício usado por Drácula para atrair jovens bonitas em Como conquistar garotas. Notamos que esse tipo de narrativa predomina na produção dos quadrinhos nacionais sobre o vampiro, sendo que freqüentemente encontramos convidados ilustres, como Frankenstein e sua criatura (Drácula versus Frankenstein), a condessa Erzsebet Bathory – que no século XVI se banhava no sangue de suas vítimas – em Banho de Sangue, e Joana D’Arc na única história colorida, A Virgem de Orleans (1976). Também merecem destaque os cenários das aventuras, que não seguiam uma continuidade temporal, ora se desdobrando em recantos europeus de inspiração medieval com suas aldeias e castelos, outras vezes em ambientes urbanos contemporâneos. Viajado, nosso Drácula protagonizou histórias passadas em lugares díspares como o Peru (O Segredo de Machu Pichu), o Marrocos (O Pergaminho da Vida), a Índia (O Templo de Katmandu) e até – num arroubo do escritor Francisco de Assis – no Egito dos tempos dos faraós (A Vingança de Drácula).

Ainda que outros desenhistas, como Juarez Odilon e Eugenio Colonnese – que ilustrou a única adaptação fiel ao romance original para os quadrinhos[13] -, tenham dado forma às feições do vampiro nas publicações da Editora Taika, foi o traço do prolífico artista italiano Nico Rosso (1910-1981) que mais se adequou à personalidade criada pelos roteiristas. Assim como Gene Colan em A Tumba de Drácula, se distanciou da descrição de Bram Stoker, do homem alto e idoso, de bigode branco comprido e farta cabeleira. O vampiro de Rosso tinha rosto longilíneo, grossas sobrancelhas arqueadas conferindo-lhe sempre um semblante maldoso, nariz adunco, cabelo em v e presas pontudas sempre proeminentes. Vestia antiquado terno preto e a famosa capa, imortalizada nos filmes pelos atores Bela Lugosi e Christopher Lee.

A arte de Rosso – finalizada por seu constante colaborador Kazuhiko Yoshikawa – traduziu a ambientação gótica dos filmes da Hammer e American International para os quadrinhos, na recriação de cemitérios, florestas densas, castelos e ambientes noturnos e sombrios, engrandecidos pelo contraste entre branco e preto pintado a nanquim com maestria. Suas cenas de cerimônias satânicas e infernos, com nudez, criaturas deformadas, monstruosidades e demônios híbridos – iniciativas ousadas para uma época de censura – remetem às mais delirantes composições de pintores como Bosch e Brueghel. Também são memoráveis as figuras femininas. Fossem inocentes vítimas ou ardilosas e malvadas mulheres fatais, todas eram voluptuosas e sensuais. Desfilavam pelas páginas das revistas seus corpos curvilíneos nunca totalmente despidos, como determinavam as autoridades. O que era compensado pelos trajes sumários e na exibição dos seios, sempre pequenos e bem delineados.

Conclusão

O legado das editoras que publicaram horror em quadrinhos no Brasil, como podemos ver, é vasto, variado e bem característico. O que se deu, em grande parte, graças à contribuição da Editora Continental em 1959, empresa que se tornaria um pouco mais tarde a Editora Outubro (1961) e finalmente Editora Taika Ltda. em 1967. Segundo sugestão de Jaime Rodrigues (1975)[14], foi com o lançamento da revista A Cripta (1968) que o gênero horror ganhou nova dimensão nos quadrinhos brasileiros, “com o propósito principal de atender a um público exigente e amante do horror”, sendo editada “com formato grande, capa plastificada, cinqüenta páginas, desenhos em meio-tom e argumentos cuidadosamente escolhidos e elaborados com planificações cinematográficas”. Também nos chama a atenção Rodrigues, que na década de 1960, a Taika teve a preocupação de apenas publicar histórias escritas e desenhadas no Brasil. Proposta enfatizada, como lembra Gonçalo Júnior (2004), pela tarja verde e amarela no alto de suas capas, com os dizeres: “totalmente escrita e desenhada no Brasil”. O que se revelou campo fértil para diversos ilustradores e argumentistas, que deixaram um grande acervo de obras que acabaram pouco conhecidas das novas gerações e afastadas dos estudos acadêmicos. Provável resultado do fim de um mercado editorial direcionado ao terror, que culminou com o encerramento das atividades das pequenas editoras, sob constantes ataques da censura e os efeitos da instabilidade econômica do país na época.  Ainda de acordo com Rodrigues, no início de 1970 existiam no Brasil cerca de cinqüenta revistas especializadas em histórias em quadrinhos de horror, quase todas editadas em São Paulo por empresas como, além das citadas neste estudo, a Edrel, Gep (Gráfica Editora Penteado), Jotaesse, Prelúdio, entre outras. O declínio foi rápido, já que ainda segundo o relato do autor, em 1975 circulavam apenas seis. Mesmo assim, as narrativas gráficas de terror brasileiras resistiram em iniciativas posteriores, como as da Editora Vecchi, com a Spektro (1977 – 1982) e as da Editora D-Arte, do desenhista Rodolfo Zalla, com Mestres do Terror e Calafrio (1981 – 1993).

O universo dos quadrinhos de horror feitos no Brasil é bastante rico, sendo este estudo um recorte dessa produção, centralizado na figura do vampiro Drácula e a abordagem do tema que consideramos mais significativa, realizada pelos argumentistas e desenhistas da Editora Taika. A pesquisa busca oferecer um vislumbre da necessidade do resgate e análise das revistas do gênero publicadas no país, linha editorial de forte apelo popular nas décadas de 1960 a 1980. Configurando um campo de estudos que permita preencher uma lacuna nas pesquisas sobre a trajetória das narrativas gráficas brasileiras.

Referências bibliográficas:

BROWNING, John Edgar & PICART, Caroline Joan. Dracula in visual media: Film, television and electronic game appearances, 1921-2010. North Carolina: McFarland & Company, Inc., Publishers, 2011.

JÚNIOR, Gonçalo. A Guerra dos Gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-64. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

MELTON, J. Gordon. O Livro dos Vampiros. São Paulo: Makron Books, 1995.

MOYA, Álvaro de & OLIVEIRA, Reynaldo de. História (dos Quadrinhos) no Brasil, in: Shazam! – Série Debates. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.

PIPER, Rudolf. Terror à brasileira, in: O Grande Livro do Terror. São Paulo: Editora Argos, 1978.

RODRIGUES, Jaime. Os quadrinhos de terror no Brasil, in: GUIMARÃES, Edgard (org). Rubens Luchetti, Nico Rosso. Brasópolis, MG: Edgard Guimarães, editor, 1994.

STOKER, Bram. Drácula. Rio de janeiro: Ediouro, 2001.

Histórias em quadrinhos consultadas:

ASSIS, Francisco de (argumento) & ODILON, Juarez (desenhos). Drácula em: A vingança de Drácula. São Paulo: Editora Taika, sem informações complementares (exemplar sem capa).

ASSIS, Francisco de (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula: o conde da Transilvânia se torna o vampiro da noite, in: Almanaque do Drácula, no. 4-a, mês 11. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

ASSIS, Francisco de  (argumento) & COLONNESE, Eugênio (desenhos). O Vampiro da noite. São Paulo: Editora Taika, sem informações complementares (exemplar sem capa).

Drácula versus Heróis Marvel. Mini-série em duas edições contendo as histórias Gritos na Noite, Na trilha do Surfista Prateado, Conflito em famíla, A nau dos insensatos, O príncipe dos vampiros e Livrai-nos do mal. São Paulo: Editora Abril Jovem, junho de 1995.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: Morte no circo, in: Almanaque do Drácula, no. 13, mês 5. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: A revolta dos mortos-vivos, in: Almanaque do Drácula, no. 14, mês 6. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: O estranho mágico e Um hóspede estranho, in: Seleções do Terror, no. 6-a, mês 1. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: Como remoçar cem anos…!, in: Almanaque do Drácula, no. 12, mês 4. São Paulo: Editora Taika, 1974.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: Banho de sangue, in: Revista Drácula, no. 20, mês 2. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: A dança dos vampiros, in: Revista Drácula, no. 25, mês 9. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: O templo de Katmandu, in: Almanaque Seleções de Terror, no. 4-a, mês 11. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: O mistério de Machu-Pichu, in: Seleções de Terror, no. 23, mês 10. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

FONSECA, Helena (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Museu do Horror, in: Almanaque Seleções de Terror, no. 10, mês 4. São Paulo: Editora Taika, 1974.

GODOY, Maria A. (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: O pergaminho da vida, in: Almanaque do Drácula, no. 2, mês 7. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

GODOY, Maria A. (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: Sexta-feira negra!, in: Almanaque Seleções de Terror, no. 20, mês 2. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

GODOY, Maria A. (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). Drácula em: O castelo do medo e O parque dos horrores, in: Almanaque do Drácula, no. 21, mês 3. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

GODOY, Maria A. (argumento) & ROSSO, Nico (desenhos). O Príncipe (Fecundação Satânica, O herdeiro das trevas, O homem de Carlsbad) e A virgem de Orleans, in: Drácula, no. 1. São Paulo: Spell Produções, junho de 1976.

ROSSO, Nico (desenhos). Drácula!: Como conquistar garotas, in: Seleções de Terror, no. 21, mês 7. São Paulo: Editora Taika, ano de publicação não informado.

ROSSO, Nico (desenhos). Drácula versus Frankenstein. São Paulo: Editora Taika, sem informações complementares (exemplar sem capa).

ROSSO, Nico (desenhos). Drácula volta a atacar. São Paulo: Editora Taika, sem informações complementares (exemplar sem capa).


[1] A primeira versão deste artigo foi apresentada no II Colóquio Vertentes do Fantástico na Literatura, realizado de 3 a 5 de maio de 2011 na Universidade Estadual paulista – UNESP, Campus de São José do Rio Preto, São Paulo

[2] Doutor e mestre em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) na área de Cinema, atualmente vinculado ao Mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi (UAM/SP) como Pós-Doutorando, bolsista FAPESP.

[3] O código de ética dos quadrinhos, que entrou em vigor na década de 1950, foi criado com propósitos semelhantes aos do Código Hays, que desde os anos 1930 regulamentava a indústria cinematográfica. Tinha a intenção de banir a violência, alusão a sexualidade e drogas e, notadamente, ilustrações retratando monstros e ações grotescas.

[4] Subgênero dos filmes exploitation destinados ao público negro nos anos 1970, que explorava os paradigmas de outros gêneros cinematográficos – notadamente o policial e o horror – em tramas repletas de sexo e violência. Embalados pela música funk ou soul da época, os filmes eram protagonizados por atores afro-descendentes e se passavam em redutos étnicos urbanos.

[5] O Conde Drácula (Drácula, 1974), dirigido por Dan Curtis.

[6] A nau dos condenados, história originalmente publicada em 1974.

[7] Na trilha do Surfista Prateado, história originalmente publicada em 1976.

[8] Gritos na noite e Conflito em famíla, histórias originalmente publicadas em 1982.

[9] O príncipe dos vampiros, história originalmente publicada em 1976.

[10] Livrai-nos do mal, história originalmente publicada em 1983.

[11] Terror Negro, segundo Gonçalo Júnior (2004, p. 384), “entrou para a história pelo seu recorde de dezoito anos de circulação ininterrupta e mais de duzentos números publicados, além da várias reedições”.

[12] Devemos ressaltar que a não inclusão dos anos de edição da maioria das histórias em quadrinhos editadas pela Taika e citadas no texto, se deve a falta de informação dos mesmos nas revistas. Podemos estimar que foram publicadas entre 1970 e 1976, fase mais prolífera da editora. Mesmo assim é complicado precisar, já que muitas eram reeditadas para preencher lacunas em outros títulos, ou mesmo em compilações, edições especiais e almanaques. Ver referências bibliográficas.

[13] Drácula, o vampiro da noite, sem informações de data.

[14] Texto publicado originalmente em duas partes na revista Tintim portuguesa número 2, em 31 de maio de 1975, e republicado em Mundo do Terror número 10, da Press editorial (1986) com o título Os quadrinhos de terror no Brasil, creditado a Manoel Rodrigues. A versão utilizada foi editada em 1994, por Edgard Gimarães (ver referências bibliográficas).

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