Dente Canino (Giorgios Lanthimos, 2009)

*Gabriel Dominato

Cartaz do filme "Dente Canino"

Selecionado para a mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2009, o filme grego de Giorgos Lanthimos, “Kynodontas”, lançado aqui como “Dente Canino” faz uma análise de como a educação dos pais pode influir no comportamento e percepção de mundo de seus filhos.

Influenciado parcialmente pelo fato de que vários de seus amigos estavam se casando e tendo filhos, o fato levou-o a se questionar como seria se um casal criasse seus filhos isolados de toda e qualquer influência externa, a idéia para o filme se inicia a partir daí.

Em algum lugar no interior da Grécia, numa casa com todo luxo e conforto um casal cria três filhos, entrincheirados dentro do próprio lar, cercados por muros altíssimos, os quais eles jamais cruzaram, sendo o limite do que conhecem do mundo lá fora as montanhas que podem ver por cima do muro e pelas frestas dos portões. Com um ímpeto doentio de protecionismo familiar, o pai (Christos Stergioglou) é o único que saí de casa, e trás tudo que a família necessita, roupa, comida, nunca explicando de onde surgem tais coisas, retirando os rótulos dos produtos antes de inseri-los no lar.

Para afastar toda e qualquer impureza da criação da prole o pai e a mãe (Michele Valley) deixam fitas gravadas com exercícios de linguagem, onde re-significam quaisquer palavras que considerem prejudiciais à educação dos filhos, como “mar” sendo uma espécie de sofá, “xoxota” uma grande luz e “zumbis” pequenas flores amarelas. O filho um dia no jardim diz “Mamãe encontrei alguns zumbis, quer que leve para você?” Palavras como mar são perigosas, se descobrissem o que era o mar, iriam querer ir lá fora vê-lo, afinal o que representa melhor as crianças senão sua instintiva curiosidade, e no fim, se a palavra não existe para você, a coisa a que ela é ligada passa virtualmente a não existir também.

Cena do filme "Dente Canino"

Para suprirem o tédio do isolamento, criam seus próprios jogos, a irmã mais velha (Aggeliki Papoulia) propõe no inicío do filme um deles, todos devem enfiar o dedo na água quente da pia, e quem ficar lá por mais tempo vence.

O pai trás uma mulher que trabalha em sua empresa para satisfazer as necessidades sexuais do filho, paga-a e a traz vendada para proteger a segurança e o segredo da localidade da casa. Porém uma vez lá, será veículo fundamental para o resto da trama da qual falaremos depois.

Existem elementos exteriores dos quais os pais não tem poder para controlar, logo precisam inventar uma explicação para conter a curiosidade das crianças, creio que de todos o mais emblemático é o avião que aparece em vários momentos do filme, os pais fazem os filhos acreditarem que são de brinquedo e que ocasionalmente caem no jardim, a filha mais velha certa hora diz quando um está passando sobre a casa “Tomara que caia. Se cair será meu!”. Mais tarde quando outro está passando sobre a casa a mãe lança um de brinquedo no jardim e o pai diz “Olhem, caiu no jardim!”, e as crianças vão lá correndo para pegar o brinquedo.

Cena do filme "Dente Canino"

O filme nos mantém no escuro quanto ao porque destes pais optarem por este tipo de educação, porém Lanthimos não tinha qualquer interesse em responder esta questão, questionado em um entrevista a este tocante “No que eu estava mais interessado era exatamente isso: o quanto você pode influenciar a mente de uma pessoa, quanto você pode direcionar o comportamento de uma pessoa se você o controla desde muito jovem. Você pode literalmente mudar a perspectiva que ela tem de mundo. É muito assustador e sério, se você pensar sobre isso. Então eu estava interessado nisso, e não no porque eles fizeram isso”

Por isso o filme possuí um final inquietante e aberto a várias interpretações, porém talvez este não seja de vital importância para a trama mas sim os momentos contidos na película que o justificam.

Cena do filme "Dente Canino"

Analisemos uma rápida explicação do treinador de cães (Alexander Voulgaris)  quando o pai vai buscar o cachorro e o treinador explica o porque ele não está pronto “Um cão é como barro. Nosso trabalho aqui é moldá-lo. Um cão pode ser dinâmico, agressivo, um lutador, covarde ou afetivo. E isso requer trabalho, paciência e atenção nossa. Todo cachorro espera de nós que ensinemos como se comportar. Entende? Nós, nós estamos aqui para determinar que comportamento o cachorro deve ter. Você quer um animal de estimação, um amigo, uma companhia? Ou um guardião, que respeita seu mestre e obedece às suas ordens? Entende?”, com esse pequeno monólogo Lanthimos traduz todo o comportamento dos pais em relação aos filhos, eles os criam com técnicas comportamentais capazes de moldá-los da forma como querem. Em certo momento ficamos sabendo que existe um irmão, que provavelmente havia conseguido fugir e ido embora, mas que o pai diz estar do outro lado do muro, e faz os filhos acreditarem nisso, a irmã mais velha até corta bolo escondida e atira para o irmão do outro lado do muro, o irmão mais velho começa a atirar pedras do outro lado e justifica ao pai que o irmão mais velho havia começado primeiro. Depois, em outra atitude behaviorista o pai, percebendo alguns sinais de insurgência de sua prole se cobre de tinta vermelha que serve de sangue e rasga suas roupas, chegando em casa em farrapos, ele diz que o irmão do lado de fora do muro fora morto por um “gato”, um animal feroz e perigoso que tem predileção por crianças e devora seus corpos e rostos. Mas completa que enquanto não saírem de casa estarão protegidos.

Esta sendo apenas uma das desesperadas mitologias que criam para manter os filhos isolados, mas a mais importante e a que dá o nome do filme é a história sobre o dente canino. Num jantar o pai pergunta “Quando um homem está pronto para sair de casa?”, os filhos respondem em uníssono “Quando seu dente canino caí”, então ele pergunta “Mas um homem só pode sair de casa de carro, e quando um homem está pronto para dirigir?”, o filho responde “Quando seu dente canino nasce novamente”. Essa lenda torna ainda mais óbvia a intenção de que os pais tem de nunca deixar os filhos saírem de casa, pois seus caninos jamais nasceram outra de novo uma vez caídos.

Falamos sobre a mulher que o pai traz para satisfazer a lascívia do filho, Christina (Anna Kalaitzidou), ela é a responsável por fazer a filha mais velha começar a se questionar, certo dia indo embora depois da cópula com o filho, ela diz que tem uma tiara que brilha no escuro, e que dará ela se a irmã mais velha a lamber, a irmã considera razoável e aceita, Christina abaixa as calças e pede que a irmã a lamba nas partes intímas. Uma vez que o sexo é introduzido naquele lar aparentemente imaculado a revolta juvenil comum a qualquer jovem do mundo parece se insurgir e a irmã mais velha parece começar a se questionar e não aceitar mais passivamente as ordens que os pais lhe dão.

Cena do filme "Dente Canino"

Na bodas do casal os pais fazem com que façam uma apresentação comemorativa, num dos momentos de humor mais negro de todo o filme, enquanto o filho toca um violão as irmãs dançam uma coreografia estranhíssima que é uma versão excêntrica de “Flashdance“, a irmã mais velha como que tomada por sua nova rebeldia começa a dançar rápido e fazer passos exagerados e por vezes cômicos, a irmã mais nova para de dançar e a mais velha continua com seus movimentos beirando ao esdrúxulo, até que o pai mande que pare.

Christina volta à casa no episódio que irá despertar o desejo inadiável da irmã mais velha em partir, ela pede que a irmã lhe lamba, mas ela não quer mais qualquer presente em troca, quer duas VHS que estão na bolsa de Christina, ela reluta mas acaba aceitando – o significado das fitas de vídeo é o mais importante, pois é lá que a irmã mais velha descobre que existe um mundo lá fora, sendo os filmes Rocky e Flashdance, ela percebe que nem tudo que lhes fora ensinado era verdade, que o gato no jardim não era um monstro feroz e que lá fora atrás dos muros existe um mundo o qual ela nem sabia existir. Ela se pega certa hora imitando Rocky treinando boxe no ar, e a dança maluca que ela faz nas bodas dos pais vem de ter assistido Flashdance numa das fitas de vídeo de Christina. Talvez uma observação de Lanthimos de como o cinema pode nos influenciar assim como os nosso pais.

Cena do filme "Dente Canino"

Quando o pai descobre que Christina dera as fitas, e pega a irmã mais velha com elas, pede que traga as fitas e uma fita adesiva, ele cola uma das fitas nas mãos e bate violentamente na cabeça da filha com elas, o que aumenta ainda mais a raiva e revolta desta.

Por mais coisas que ela tenha visto nas fitas, ainda assim ela não sabe o que há lá fora, ela não entende aquele mundo exterior, e como Lanthimos disse em sua entrevista quando se controla uma pessoa desde muito nova sua visão de mundo fica muito alterada, então ela ainda tem apego ao que aprendeu ainda que tenha sido contestado pelas imagens que vira no vídeo, então ela segue até o banheiro, pega um peso de malhação e ataca a si mesma várias vezes numa cena dura e sangrenta, até arrancar o dente canino. Mas como ensinara o pai, não se pode sair de lá a não ser de carro. Então ela se esconde no porta-malas e aguarda até o amanhecer para que o pai dirija para fora dos portões. Vemos o carro lá fora, mas não sabemos se ela abre ou não o porta-malas.

Cena do filme "Dente Canino"

Esta é a questão chave, uma pessoa que foi condicionada a pensar de um modo distorcido, se confrontado pela verdade do mundo real, ou ao menos um partícula desse como o que ela encontra no vídeo, será capaz de enfrentar este novo mundo que a ela deve parecer um outro planeta. O final nos fornece muitos meios de discussão sobre ela abrir ou não o porta-malas, mas pouco creio ser importante, pois não se sabe quais os efeitos reais na mente de um jovem que sofreu tal tipo de criação em um ambiente deturpado como aquele, então seria impossível dar um final conclusivo, e até estragaria a oportunidade reflexiva do espectador que é sempre valorizada neste tipo de cinema, em que o espectador é considerado uma pessoa com pensamento crítico e não como o espectador padrão do chamado cinema padrão que parece exigir um final fechado, deixando qualquer possibilidade de reflexão condicionada apenas à “moral da história”, que geralmente é superficial e duvidosa. Então Lanthimos nos dá um final respeitoso, sabendo que seus expectadores não querem tudo mastigado e que apreciam sua própria análise, nem tudo precisa ser contado a eles, e a isso o filme não faz concessões, pouco se conta de qualquer coisa, a análise cabe quase que estritamente a nós. O próprio Lanthimos responde a isso “…se você faz a escolha de deixar o filme em aberto para as pessoas, elas podem assisti-lo livremente e com base em sua própria experiência, formação e educação – se você constrói um filme de forma a permiti-los pensar sobre as coisas, e não força-los a aceitar sua opinião, então o filme pode ser sobre qualquer coisa que essas pessoas estejam interessadas ou preocupadas”. Saúdo o diretor a isso.

Giorgos Lanthimos tem um currículo ainda muito pequeno, sendo Kynodontas seu segundo longa metragem com exposição a um público maior. É considerado um diretor semelhante a Todd Solondz diretor do aclamado Felicidade (Happiness,1998). Mas apesar das comparações do público e da crítica, os filmes não tem muito em comum. No filme de Solondz são os métodos de criação tradicionais que trazem a disfuncionalidade aos lares, enquanto no filme de Lanthimos é o novo tipo de educação que trás todos os problemas, o que tem em comum é somente a temática da família desestruturada das últimas décadas e o belo humor negro, Lanthimos prefere analisar os efeitos da criação no comportamento dos filhos enquanto Solondz tenta mostrar os efeitos das relações sociais no mundo exterior, por tanto um anula a hipótese do outro, Solondz nunca poderia analisar seus personagens sem a influência da sociedade enquanto Lanthimos jamais poderia analisar os seus com a interferência desta.

O filme tem uma belíssima direção de arte de Elli Papageorgakopoulou, que causa até certo estranhamento por ser tão incrivelmente sensível e delicada em contraponto à violência e primitividade com que os filhos agem, como quando a irmã mais velha corta o irmão com uma faca para recuperar um dos aviões de brinquedo, mas se analisados vemos que da mesma forma que não há malícia no ataque de um animal ali também não há, como na cena em que a irmã lambe Christina, é com tanta inocência que chega a ser doloroso, Lanthimos afirma “Eles estão mais próximos de seus instintos primitivos mais que qualquer outra pessoa”, e por conseqüência também da inocência. O ar tristonho e delicado de Elli contribuí muito para isso devido a forma como contrasta a delicadeza com a violência, além é claro da fotografia do ótimo Thimios Bakatakis que consegue criar o clima da desolação daquelas crianças e da solidão daquele lugar com maestria. Mas o que realmente se destaca é a direção de atores de Lanthimos, com destaque para a irmã mais velha que beira o sublime em algumas cenas tamanha inocência que consegue representar seu papel de criança, mesmo sendo uma mulher com mais de trinta anos. A loucura que os atores conseguem injetar naquela família incrivelmente complicada e confusa ajuda a criar a consistência e credibilidade que nos leva a acompanhar toda a trama até o fim sem perder o interesse, devido ao longo treinamento que Lanthimos fez com os atores para que estes passassem a agir de forma infantil.

Dente Canino mostra que o cinema ainda é uma fonte inesgotável para se contar histórias, e que com criatividade e ousadia pode-se levar o comum a um novo nível, onde pode-se analisar o objeto de quase todo o cinema – o ser humano – de maneiras antes não imagináveis. Todos estes fatores fazem que “Dente Canino” dificilmente  conquiste a estatueta do Oscar na categoria de melhor filme de língua estrangeira, mas, ainda que não ganhe, seu mérito já foi reconhecido, foi escolhido na mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes, e esta é uma honraria muito maior e mais importante que qualquer premiação no Oscar.

*Gabriel Dominato é graduando em direito no Centro Universitário de Maringá e é redator do blog Avant, Cinema!

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2 Comentários para: “Dente Canino (Giorgios Lanthimos, 2009)

  1. duas reflexões esse texto provoca e evoca
    primeiro a temática do filme – a educação dos pais e sua influência sobre os filhos – pessoalmente sou mais interessada justamente nas dificuldades que os pais têm de exercer influências sobre os filhos – penso que existe mais uma tremenda lacuna entre as gerações familiares do que identidades ou culturas comuns – principalmente desta forma tão direta que seria uma “influência” – penso que sim a família é uma referência – mas uma referência tremendamente indireta, lacunar até falha eu diria
    segundo sobre o primitivismo – relacionar com um estágio infantil do ser humano é problemático – mais ainda se relacionarmos primitivismo com infantilidade ou infantilsmo na perspectiva da inocência – penso que devemos rever urgentemente a idéia de infância ligada à inocência – a infância em qualquer época da história está permeada de fatos, atos e práticas nada inocentes
    também questiono essa tal crise da família moderna que pressupõe que um dia a família não esteve em crise mas esse é um outro tema pra discussão

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