Dersu Uzala (Akira Kurosawa, 1975)

Por Camila Barbosa Marcelino*

Há que se pontuar uma vida extracorpórea ao filme, à película e sua materialidade, ao homem e sua imagem, para que se lance verdadeiramente à necessidade de compreendê-lo.

Em 1971, Akira Kurosawa, após o fracasso de bilheteria Dodeskaden, tentara o suicídio. Alguns relacionaram o ocaso a sua frustração e desapontamento frente às dificuldades de absorção por parte da cultura japonesa. Relevância é tratar tal informação aquém da teoria das eventualidades, e no que diz respeito a Dersu Uzala, abranger a conexão entre tais eventos transcendendo, até mesmo, as causalidades.

Dersu é um filme de transformação; do corpo integral e suas potências. Trata-se da história do militar russo Vladimir Arseniev, responsável pelo mapeamento topográfico da Sibéria, ao encontrar o caçador da tribo Goldi, Dersu Uzala. É da história do homem e do outro, do todo em confluência e do fragmento em diafaneidade. Trata-se da relação entre o homem e sua ferramenta de ação, pela qual sucumbe e ascende. E trata-se mesmo de desasujeitar-se em busca de si mesmo.

O embate entre o homem e o meio não conota um confronto entre forças desiguais, mas de volumes de forças que se deflagram em tempos distintos. O tempo da terra, do fluxo natural da ação, da ascese inevitável dos elementos; e o tempo do homem que constrói e edifica a sua imagem através de um acúmulo de vontades criativas. E aí reside uma das distinções essenciais a que aventa o filme na sua sutileza. O homem é e não é natural. A perspectiva está no outro que lhe compõe.

Enquanto Dersu se revela como o homem natural que se inteira e se transforma no elemento do todo sem deixar de experenciá-lo integralmente, Arseniev é o homem que se dissocia para engendrar paralelamente outro universo. Campo que interage com o do homem natural, a usufruto do homem não-natural, mas desentende o corpo além da razão. O corpo sensível à realidade viva; sanguínea. O caçador é o homem do fluxo, da articulação, da composição visceral com o espaço; sua energia criativa é de circulação e renovação. O explorador, por sua vez, é o homem que acumula, agrupa, separa e denomina para assim criar. Sua criação sustenta-se em paradigmas.

A convivência desses homens provoca o deslumbramento de ambas as partes. Mas o tempo coligado ao espaço determina aquele que melhor se adapta. Enquanto o espaço fílmico se associa à natureza da terra, da água, do fogo e do ar, o homem que se entende a partir da sinédoque com o universo mostra-se condescendente às predileções do espaço, mesmo que em alguns momentos o meio se imponha reafirmando certa “superioridade” sobre ele. Já quando o ambiente a que se depara o espectador é o do homem não-natural, no sentido de que não se agrega de forma absoluta porque engendra sua própria natureza, nota-se o empecilho daquele que sendo in natura encontra ao vivenciar, principalmente, a disritmia urbana.

O que resta a Dersu, como o homem da origem primordial, é retornar à sua nascente percorrendo a morte como trajeto, ou, destituir-se de seu corpo sanguíneo e integrar-se à ode deste outro homem, o urbano.

Morte ressurectu: essa se torna sua decisão e, assim como o homem que constrói o filme fora do filme, o caçador supera a morte.

*Camila Barbosa Marcelino é graduanda em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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3 Comentários para: “Dersu Uzala (Akira Kurosawa, 1975)

  1. Dersu Uzala, filmes que assisti há tanto tempo e, agora, recentemente, veio-me a lembrança bonita dessa história tão comovente. Conversava com um amigo e comentei sobre Dersu Uza e ele, também, assistira ao filme e conhecia bem a história. Emocionei-me com essa história no tempo que assisti ao filme e, hoje, ainda me emociono ao lembrar dele e me dar conta de que toda a luta que se trava para preservação do meio ambiente, encontra nessa história os fundamentos mais autênticos.

  2. Viu ao filme “SONHOS” do Akira Kurosawa e fiquei encantada, especialmente pela sua fotografia.
    Hoje, enquanto aguardava uma reunião, foleei um jornal no qual havia sido postado um artigo de Leitor contando a história do Sabiá e o quintal de sua casa, onde pôs uma rede preguiçosa para ler.
    Ao contar sua história, o autor do artigo se referiu ao filme “Dersu Uzala” e disse que depois que o assistiu, perdeu a coragem de matar até mesmo uma formiga.Fiquei curiosa!
    A partir da busca pelo filme na internet li comentários hiperbacanas e gostaria muitissimo de assistir a este filme. O problema é onde encontrá-lo sem muito custo. Então, como conseguir uma cópia sem muito custo, respeitados os direitos autorais?. Algúem que ler esse comentário, por favor, me dê uma luz. Obrigada. TerezinhaSouto.

  3. Dersu Uzala é um filme que, ao meu ver, além de mostrar as diferenças étnicas e raciais, mostra uma amizade verdadeira e bonita que está acima dessas diferenças. O filme laureado com o Oscar de melhor filme estrangeiro pela Academy Awards e dirigido brilhantemente pelo diretor Akira Kurosawa, mostra aos telespectadores, paisagens lindas e selvagens nas quatro estações da região, bem como os diálogos sábios entre Dersu e o capitão, ambos os personagens muito bem representados pelos seus intérpretes. Enfim, trata-se de um filme lindo, inteligente que mexe muito com todos nós, levando-nos a reflexão sobre a natureza e o ser humano. Vale a pena assistir! Um dos melhores filmes que já assisti!

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