Ensaio sobre a Cegueira (Fernando Meirelles, 2008)

Por Felipe Carrelli*

Sucesso de bilheteria no Brasil e de críticas, nos dois sentidos da palavra, o novo filme de Fernando Meirelles estreou em Cannes de 2008 e logo gerou polêmica e expectativa.

Em tempos de caos ambiental, crise financeira e tensões políticas, Ensaio sobre a Cegueira propõe um novo problema (ou seria solução?) a essa bagunça global. Inexplicavelmente, a população de uma cidade genérica começa a ficar cega. Essa epidemia se torna uma pandemia e o mundo inteiro é afetado pela desconhecida doença.

Antes da catástrofe se alastrar, os governos decidem criar centros para isolar os infectados. A ignorância acarreta medo e pânico, e a medida se mostra absurdamente desumana com os cegos, que são largados sem cuidados e tem que se organizar sozinhos dentro desse local estranho.

O enorme hospital, dividido em varias alas logo é preenchido pela superpopulação de cegos. Cercados por muros e guaritas com homens armados, os cegos recebem a alimentação semanal e o único contato com o mundo externo é a televisão que passa notícias cada vez mais pessimistas.

O núcleo principal do filme é composto por um elenco de peso. Danny Glover, Mark Ruffalo e Alice Braga, Julianne Moore entre outros. Os personagens não têm nome. Conhecemos um rápido background de cada um. São os primeiros a chegar ao local e vamos acompanhando sua trajetória de conflitos e dificuldades que só não é pior graças a personagem de Julianne Moore. Ela é casada com um doutor oftalmologista (Mark Ruffalo) que diagnostica o primeiro caso de cegueira e logo depois também contrai a doença. Ela é imune à doença e, disfarçada de cega, auxilia os outros.’

Dada a premissa e a inicial apresentação, o espectador começa a visualizar a verdadeira cegueira embutida no filme.  A falta de comida, o excesso de pessoas e o ódio perante aquela situação levam os grupos a se organizar como sociedade dentro daquela ambiente anárquico. A partir daí os conflitos se expandem para um nível político ideológico e a estrutura de nosso próprio cotidiano é colocada em questão.

Um grupo, liderado pelo personagem de Gael García Bernal possui armas de fogo, controla a comida e explora o restante das pessoas que, em maioria, mas que sem acesso ao poderio bélico, sucumbem às demandas.

O quadro é mais irônico ainda quando descobrimos que dentre essa minoria dominante existe um deficiente visual que utiliza suas habilidades de leitura em braile para contabilizar as ganâncias exploradas. A experiência do poder através da escrita versus a impotência e submissão do analfabetismo. O individualismo e o oportunismo causado pelo conhecimento. O conservadorismo da ignorância da população é também a conservação do status quo. Nossa cegueira é ver e não enxergar esses sintomas. O filme quebra tabus e expõe suposições.

Meirelles, convidado especial da Semana do Audiovisual na ECA no começo de Outubro, contou que uma associação de deficientes visuais organizou um protesto antes mesmo do filme ser lançado em cartaz nos EUA, acusando Blidness de abordar o tema da cegueira de forma preconceituosa e desrespeitosa. “Como podem falar sobre um filme que eles não viram?”, foi a pergunta de José Saramago, autor do livro ao qual o filme se baseia. O sarcasmo do escritor é genial e reflete muito o objetivo de seu livro e depois do filme, na minha opinião: mostrar a cegueira mental da sociedade moderna.

Esforçam-se em manter-se cego. A cegueira não é fácil, tampouco menos dolorosa. Gasta-se tempo com a individualidade ao mesmo tempo que sofre-se coletivamente. Não se trata do bem contra o mal, democracia versus ditadura, certo ou errado. Os dois lados estão cegos. Fernando Meirelles disse na palestra que acredita que vivemos em um período em que a crise maior é estarmos perdidos e desorientados. Bombardeados por informações cruzadas e superficiais. Diferentemente de outras décadas não temos um inimigo real para atacar. A modernidade tornou os problemas complexos e globalizados, sendo difícil fazer a diferença sozinho. É difícil seguir um líder, pois talvez ele também esteja cego.

O diretor apontou os obstáculos de se adaptar o livro. Sua maior dúvida era como construir um filme onde ele não poderia utilizar o recurso da subjetiva, já que os personagens eram cegos. Um filme em primeira pessoa (na visão da personagem interpretada por Julianne Moore) não agradava por isso resolveu construir uma estética abstrata, com imagens desconstruídas. Branco muito estourado, imagem fora de foco, reflexos do reflexo, enquadramento errados e planos abertos sem chamar atenção para quem estava falando tentaram driblar o cinema convencional. Ele confessou, entretanto, que em muitos casos acabou optando por plano dos atores prezando pela bela atuação deles.

Um filme frio, sem relações amorosas. As pessoas vivem para sobreviver. Lutam sem saber porque. A esperança de recuperar a visão parece tão pequena quanto a chance de sobreviver naquele lugar.

A escolha de São Paulo como locação para as externas foi, segundo o próprio diretor, além da facilidade de produção, porque Saramago queria uma cidade genérica, não conhecida pelo público. A capital paulista acabou sendo então o cenário da catástrofe global. Na minha opinião a escolha não poderia ter sido melhor. Em planos como o do Rio Tietê e do caos urbano causado pelo colapso dos sistemas de coleta e transporte, os efeitos especiais seriam redundantes. A animalização das pessoas que sem rumo e destino vagam pela cidade em busca de alimento… Em muito elas se parecem aos nossos mendigos. Sacadas e ironias estão espalhadas por todo o cenário. Em um plano geral da rua, ao atravessarem por uma faixa de pedestre podemos ler “Olhe” e flechas para ambos os lados pintadas no chão. Se antes alertavam sobre o trânsito, agora apontam para o desastre latente.

A personagem de Julianne Moore parece sofrer muito mais que os cegos. Sua missão humanitária é desgastante e sua visão lhe denomina uma grade responsabilidade. Felizmente ela não solta teia ou tem um “spider sense”, o que torna sua trama humana e não fantástica. Os defeitos e a fraqueza mostram sua incapacidade e sua angústia. A sua maior qualidade não é ver e sim sentir. Para ela aquilo não é apenas um sonho, é uma realidade. Na cidade, vai a frente da fila, guiando os outros como uma missionária. O ditado “o que os olhos não vêem o coração não sente” parece ser a filosofia de vida da sociedade moderna. A visão é para a personagem sua melhor arma mais também seu pior escudo.

No meu ponto de vista, Ensaio mostra imageticamente que ver não é enxergar. Provavelmente eu também estou cego, então cabe a você assistir o filme e tirar suas conclusões.

*Felipe Carrelli é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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