Era Uma Vez… (Breno Silveira, 2008)

Verona, 40°

Por Juliana M. M. Soares*

Comparação fácil e óbvia logo é feita ao ler a sinopse ou assistir às cenas que sucedem os agitados planos iniciais de Era uma Vez… : trata-se de uma espécie de Romeu e Julieta com o cenário carioca como pano de fundo. Porém, aqui não é a raiva entre as famílias que serve de obstáculo ao amor de dois jovens, e sim a condição social.

Dé (Thiago Martins) é um jovem morador do Morro do Cantagalo, que vende cachorro quente na praia. É silencioso admirador de Nina (Vitória Frate), a qual por vezes ilustra a janela de seu luxuoso apartamento em frente à praia, também em frente ao quiosque no qual Dé trabalha. Após breve retrospectiva da vida do rapaz, com a presença de elementos comuns e já sabidos que mostram dificuldades enfrentadas por quem cresce nas favelas, um fato engatilha a aproximação dos dois jovens. Dé protege a menina de um bando de garotos delinqüentes, quando ela, após terminar com seu namorado, corre sozinha em direção à areia, já pela noite. Em seguida, a maioria dos fatos encadeiam-se com certa previsibilidade, encaminhando-se para um final que pode ser considerado inesperado para os mais inocentes, mas que no fundo, não foge à linha que vamos traçando ao longo da obra. Esse desfecho chega a ser preconceituoso: há a validação da impossibilidade do amor condomínio-favela. A morte tão logo é apresentada, ela é fato aguardado; o veneno dos Capuleto e Montecchio surge sob formas fumegantes. Tal violência é a todo momento esperada como espécie de solução para a trama que vai sendo conjugada, e talvez a única surpresa advinda dessas cenas seja a extrema brutalidade com a qual a história se fecha (sendo que o final que foi para as telas é uma segunda opção; a primeira ideia fora considerada pungente demais e, mesmo já filmada, acabou sendo descartada). Choca, e, em seguida, causa um alívio, reforçando a idéia do preconceito.

cena do filme

O filme de Breno Silveira cativa e ganha a simpatia do espectador; recorre a mesma fórmula de seu primeiro longa-metragem, 2 Filhos de Francisco (2005). No entanto, alguma inovação falta ao enredo, e, talvez, uma idealização ocorra na elaboração da história. Nem toda tentativa de fabulação do dia-a-dia dos dois passa como mero truque: a primeira noite de amor do casal ganha um toque especial ao serem usados ângulos de câmeras diversos e uma doce trilha sonora embalando a situação. Já o costume ao cenário da favela, o foco intenso na disputa pelo comando do morro, e a cegueira da apaixonada menina rica chegam a ser um tanto quanto cansativos em certos momentos.

A fotografia é um ponto importante, de grande beleza nas cenas externas, com cores vivas e quentes que agradam aos olhos. A impressão de uma cidade quente não somente pelo sol que está sob ela, mas também por ser uma espécie de bomba-relógio, sempre pronta para uma eclosão, é bem extraída dessa competente direção fotográfica, encabeçada por Dudu Miranda.

Merece também atenção a trilha sonora, escolhida, composta e montada, em boa parte, com músicas cantadas em primeira pessoa, algo que sugere maior aproximação com uma realidade corrente de Dé (e talvez até um paralelo com o próprio ator que protagoniza, descoberto no morro, e ainda lá residente, conforme nos informa em depoimento, enquanto correm os créditos). Grandes nomes, como Marisa Monte,  constam presença nessa trilha, e não decepcionam os ouvidos de quem assiste. A música, fruto também de grande pesquisa, envolve, encanta e conta parte da história, como faz Minha Rainha, composta por membro da Velha Guarda da Portela, canção a qual versa sobre o amor, da frustração à mudança de perspectiva.

Em certo momento, Nina é mostrada lendo o livro Cidade Partida,de Zuenir Ventura, o qual aborda a tentativa de sobrevivência de dois grupos sociais, moradores do morro do Vigário Geral (pessoas do tráfico e pessoas não-envolvidas) e manifestantes da sociedade civil, mobilizando-se pela paz na cidade. Uma boa citação é feita, um interessante paralelo com o enredo é notado. Em Era uma Vez…, poderíamos dizer que a manifestação não é feita com cartazes, passeatas e gritos de ordem, e sim com o amor explodindo, o amor sendo o elemento da união e entendimento, para se chegar a um caminho único. No entanto, este chamamento dado pelo amor quase brinca de dar certo, mas termina por ficar apenas no plano de uma velha utopia mesmo.

*Juliana M. M. Soares é graduanda em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos.

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