Fama (Kevin Tancharoen, 2009)

A democracia do estrelato

(Nota: é preciso avisar que eu não assisti ao Fama original, de 1980. Por isso, não tenho condições de refletir sobre a versão de 2009 enquanto refilmagem, mas apenas como filme autossuficiente. Face às várias críticas de caráter comparativo correndo pela mídia, essa abordagem me parece igualmente legítima e digna de interesse.)

Logo de cara, a longa sequência de abertura de Fama nos fornece praticamente todos os elementos que se desenvolverão dali para frente. Inicialmente, temos o fluxo de jovens que vêm de todas as partes de uma grande cidade americana para participarem da seleção para uma renomada escola de “artes performáticas”. Eles vêm tanto em carros de luxo quanto em transporte público, tanto dos bairros mais ricos quanto da periferia. Eles são brancos, negros, asiáticos e hispânicos, recebidos por professores também devidamente distribuídos entre estas etnias.

O primeiro fator de destaque nesta sequência vem de seu nivelamento indistinto de pessoas e artes: como numa boa América pós-Obama, todas as raças têm suas chances, todas as artes são igualmente bem recebidas. O fator classe social, tão evidente nesta escola que mistura milionários e jovens desfavorecidos, nunca cria conflitos. Da mesma maneira, todas as artes e abordagens são aceitas, e num mesmo corredor as bailarinas treinam ao lado dos violinistas, dos rappers, dos atores e dos aspirantes a diretores de cinema – um melting pot sócio-econômico-cultural para ninguém botar defeito.

A montagem, igualmente, corre para mostrar uma dezena de figuras diferentes com igual atenção, sem distinguir um protagonista. Passa-se rapidamente de um rosto para o outro, de uma arte para a outra, de uma sala para a seguinte. Este ritual de preparação excessivamente decupado lembra justamente a abertura de outro musical recente, Chicago, ao qual o filme faz referência explícita.

No entanto, a edição frenética que marcava a totalidade deste último filme não será aplicada em todo Fama. Um segundo ponto de interesse vem do fato que, mesmo ao trazer um musical já consagrado à atualidade, não se abusou de recursos “modernos” (para o gênero) como a câmera lenta durante os movimentos mais acrobáticos ou então os planos próximos em partes do corpo para facilitar o trabalho dos atores com o uso excessivo de dublês. A maior parte das cenas de dança são retratadas em planos abertos e câmera ligeiramente fluida, permitindo a apreciação das coreografias e performances sem grandes manipulações do olhar.

Se a montagem se mantém discreta e tradicional, nem muito fragmentada mas sem grandes planos-sequência, o roteiro será obrigado a fazer seus próprios contorcionismos, em virtude de suas escolhas arriscadas: grande número de personagens (uma dezena de alunos, além dos pais e professores), numa narrativa que dura mais de quatro anos, dividida em capítulos. Assim, o roteiro se esforça em construir de maneira enxuta e clara os traços mais marcantes dos conflitos de cada uma dessas pessoas, além de separar seus capítulos em temas recorrentes: os primeiros passos, os riscos da fama, o medo do futuro etc. Reclamar do desenvolvimento superficial dos protagonistas me parece tão óbvio quanto constatar a eficiência mecânica deste roteiro que nunca esquece ninguém, nunca deixa nenhum fio solto.

Enquanto musical, Fama tenta igualmente casar formas muito diferentes de abordar a dança e a música. O trabalho de som se desenvolve em pelo menos três vertentes diferentes. A primeira delas corresponderia ao som diegético, como a música tocada pelos alunos ou escutada no rádio disponível em cena. Logicamente, esta solução é sempre a mais naturalista, e também a mais incomum num musical, que utiliza em geral um segundo recurso, no caso, a música extra-diegética que não acompanha simplesmente a atmosfera fílmica, mas partilha as cenas de dança. Trata-se destes “momentos mágicos” em que, abruptamente, várias pessoas que não se conhecem passam a dançar uma mesma coreografia e cantar uma mesma música, como uma espécie de pausa fantástica meio a uma narrativa naturalista. Finalmente, existe outra forma de som extra-diegético utilizado em Fama: a trilha sonora “ambiente”. Além das várias músicas que já fazem parte destas outras abordagens sonoras, eventualmente uma canção triste vem acompanhar os momentos dramáticos, ou uma melodia alegre comemora os sucessos. Entre a música feita dentro e fora das elas, o filme articula à exaustão todas as formas de conjugação sonora ao seu alcance.

O discurso do filme, por fim, não é menos digno de nota. O que se diz sobre a fama nesta obra tão consagrada aos sonhos e à figura romântica do artista? A mensagem é menos clara do que se parece. Se, por um lado, a ideia bem americana segundo a qual todos que trabalham têm uma chance de atingir o estrelato é apoiada, por outro, a história ressalta que nem todos poderão ser conhecidos, ou sequer se tornarem excelentes nos domínios que escolheram – existem os que desistem, ou os que não são bons o suficientes para serem artistas (e que se tornam, sem exceção, professores frustrados). Do mesmo modo, as próprias canções encorajam a luta pelo sonho, enquanto a imagem relata o fracasso de vários estudantes da escola. Finalmente, a narrativa opta por uma saída mais prática e coerente, trocando a noção de fama pela noção mais democrática de sucesso – compreendido principalmente como satisfação pessoal, ou seja, algo essencialmente ao alcance de todos. Se mesmo os que fracassarem rumo ao estrelato estiverem satisfeitos de seus percursos, então o sucesso está garantido. Assim, winners e losers se abraçam e concluem o filme numa cena coletiva de dança e canto, plena de otimismo e fraternidade.

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PS: Diante de um filme que me parece tão enxuto e simples, tão competente e adequado à linguagem jovem contemporânea (cenas musicais adaptadas ao gosto High School Musical, mensagem social politicamente correta, canções remixadas em pop-eletrônico), fico me perguntando o que justificaria seu fracasso retumbante nas bilheterias norte-americanas. As respostas podem ser várias, indo de uma má distribuição à competição com outros blockbusters de peso, mas me indago sobre eventuais motivos da ordem do conteúdo. Será que esta juventude extremamente positiva, sem sexo, drogas, Internet nem telefones celulares pareceria inverossímil? Nos EUA de American Idol, a noção de fama não-mediática, vinda exclusivamente do esforço pessoal, pareceria fora de moda?

Bruno Carmelo é graduado em Cinema pela Faap e mestrando em Teoria e Crítica de Cinema na Universidade francesa Sorbonne Nouvelle

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