Gomorra (Matteo Garrone, 2008)

Engajamento mimético

A máfia italiana Camorra e suas atividades ilegais: as drogas, a prostituição, os subornos, o monopólio no tratamento do lixo, os assassinatos comandados. As crianças munidas de metralhadoras, as mães que perdem seus filhos na guerra interna, o submundo, o feio, o forte, o agressivo, o sangue que escorre aos litros.

Não há dúvida: Gomorra é um filme de impacto. Após o Grand Prix em Cannes, o filme chega à França com críticas excelentes. As duas principais revistas especializadas, a Cahiers du Cinéma e a Positif, coincidem num ponto: elas quase não falam do filme em si. Em suas críticas, elas elogiaram a precisão no retrato da máfia, a coragem do diretor Matteo Garrone. Ou seja, fala-se da máfia, e não do cinema.

Isso porque este é o típico filme onde a mise-en-scène tenta se esconder atrás do tema. O que importa é o contato com o tabu: falar da máfia, sim, não importa como. As revistas chegaram a citar a câmera “documental” de Garrone, sem examinar os efeitos de tal escolha. Esta câmera na mão não só acompanha as ações em sua “instantaneidade”, mas as acompanha de perto. Melhor ainda, ela o acompanha de dentro. O público é jogado no centro da ação, constantemente na nuca dos personagens, entre os tiros, as correrias e o pavor.

A câmera, em Gomorra, funciona como instrumento de persuasão. Assim como os letreiros informativos que aparecem no fim (a máfia mata tantas pessoas, os casos de câncer cresceram tanto por cento depois do mau-tratamento do lixo etc.), a imagem está lá para informar. Por isso, ela dialoga diretamente com as emoções, com as sensações. De certo modo, pode-se dizer que a imagem porta o mesmo valor dos letreiros indicativos, com a pequena vantagem do aspecto fotográfico do cinema que atribui ao elemento filmado uma aparência inegável de “real”.

Não é difícil de estabelecer a comparação: Gomorra representa para a Itália o que foi Cidade de Deus para o Brasil. O retrato cruel de uma parcela criminosa da sociedade, a importância das crianças para sensibilizar um público amplo (a cena do tiro no pé em um caso, os jovens que atiram alegremente no outro), o retrato de um microcosmo sem suas relações com o mundo externo (a Cidade de Deus sem qualquer contato com as classes privilegiadas; a máfia italiana igualmente mostrada como sociedade auto-suficiente); além da câmera participativa, ágil, usando da linguagem cinematográfica norte-americana pela sua fluidez.

Gomorra como Cidade de Deus constituem denúncias, ou uma ilustração poderosa de um consciente coletivo das sociedades em questão. Todos sabem da existência das lutas de gangues no Brasil e da máfia no sul da Itália, mas é preciso mostrá-las. É preciso lembrar o povo, assim como fazem as propagandas que igualmente informam o que já se sabe: não se deve beber e dirigir; não se deve fumar. Aqui, mostra-se que a máfia é nociva, poderosa e que mata os tantos porcento de pessoas contabilizadas nos letreiros.

O filme foi elogiado em Cannes por seu engajamento, por “ter consciência do mundo que o cerca”. Se inegavelmente militante, deve-se ao menos questionar o tipo de militância: segundo esse pensamento, filme político é aquele que reproduz a política, que a mimetiza em tela. Não se fala da capacidade de representar a política, de significá-la. Entramos no território do explícito, do desprovido de ambigüidades ou duplo-sentido. Trata-se de um engajamento que não pretende promover a reflexão, e sim vender um tese pronta. Caso alguém ainda não leve à sério a influência da máfia, o submundo chocante de Gomorra vai convencê-lo.

Para que serve esse cinema bruto, essa recusa do pensamento em prol da ação? O imediatismo marca a busca de uma arte útil, que não tem mais intenção de influenciar o público para que esse se mobilize contra os problemas sociais; e sim deseja eliminar o intermediário e agir diretamente na realidade. Como Michael Moore fracassou na sua intenção de vencer sozinho as eleições norte-americanas, Matteo Garrone corre o risco de não mudar em nada o funcionamento da máfia Camorra. E nem no público que, subestimado em seu conhecimento e em sua capacidade de refletir sozinho sobre o assunto, provavelmente sai da sessão sem conhecer mais sobre o funcionamento da sociedade italiana, sobre as origens do problema ou sobre as implicâncias da manutenção da máfia. Ele aprende, sim, o que já sabia: que a máfia é nociva, assassina, e que a situação não vai mudar tão cedo.

Bruno Carmelo é graduado em Cinema pela Faap e mestrando em Teoria e Crítica de Cinema na Universidade francesa Sorbonne Nouvelle

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