Gran Torino (Clint Eastwood, 2008)

O cineasta Clint Eastwood é a quintessência do cinema clássico norte-americano, quase um octogenário, ele continua na ativa produzindo praticamente um filme por ano na última década e com a mais alta qualidade. Seu cinema flui, a câmera sempre parece estar no lugar certo, a iluminação é sempre cuidadosa, a tensão em seus filmes é traçada no melhor estilo hollywoodiano, e como se não bastasse, o politizado Eastwood não tem medo de retratar temas polêmicos sempre sem ser piegas e exaltando a voz de liberdade que a arte possui enquanto reflexo e crítica da cultura norte-americana.

Em 2005, enquanto muitos esperavam o triunfo de Martin Scorsese com o grandioso O Aviador, Clint Eastwood roubou a cena no Oscar com um filme rodado em apenas 38 dias, o simples, cuidadoso e cativante Menina de Ouro. Em 2008, podemos novamente contrapor um filme grandioso a um mais simples, ambos de Eastwood: A troca, com a estrela Angelina Jolie, e o discreto Gran Torino, uma obra-prima simples e cuidadosa.

Trata-se uma comédia dramática que trabalha a polêmica questão da imigração na sociedade americana, mas antes de disso, vale dizer, é um belíssimo entretenimento hollywoodiano. Um filme moldado à base de um roteiro simples com personagens cativantes e um ritmo intenso que prende o espectador e emociona.

Gran Torino conta a história de Walt Kowalski (Clint Eastwood) um inflexível veterano de guerra que após a morte da esposa tem que conviver com a excentricidade de seus vizinhos imigrantes asiáticos (da etnia asiática hmong), a violência do bairro, a distância dos parentes e ainda cuidar de sua preciosa relíquia: seu carro Ford Gran Torino 1972.

A atmosfera do carrancudo Walt, que poderia ser o drama de um idoso solitário é retratada muito mais para um lado sutilmente cômico, grande mérito num roteiro que trabalha bastante a questão da morte, começando e terminando com velórios. O roteiro não deixa escapar o drama, mas triunfa mesmo na comédia, o humor fino funciona muito bem, principalmente quando se encaixam a aspereza do protagonista e a excentricidade da cultura hmong.

A trama principal do filme gira em torno da relação do velho Walt com o garoto imigrante Thao (Bee Vang). Ele é quieto e tímido, constantemente perseguido por uma gangue de delinqüentes e sem perspectiva quanto ao futuro, mas isso vai mudando ao se construir a relação dos dois personagens, pois Thao encontra na figura do imponente senhor ranzinza um exemplo quase paternal. E nesta relação destaca-se outro ponto alto do roteiro, os personagens, que são cativantes e emblemáticos. O mal humorado protagonista conquista a empatia do público, afinal se vê nele a figura do herói bravo e ao mesmo tempo sensível, já no garoto Thao se vê o discípulo, o contraponto do herói que evolui com a trama.

Ao se analisar Gran Torino enquanto um retrato da cultura norte-americana pode se ver o caráter emblemático dos personagens. Temos a mistura de raças, o forte choque de culturas; asiáticos, mexicanos e negros se confrontando e como ponto central dessa mistura há o protagonista, que representa o mais tradicional do norte-americano: veterano de guerra, colecionador de armas, amante da indústria automobilística (ex-funcionário da Ford e orgulhoso de seu carro). Walt, figura alegórica do americanismo, é forte e defensor dos oprimidos. Vale destacar também um detalhe de cenário, a imponente bandeira norte-americana sempre tremulando em qualquer cena na varanda de Walt…

Há outro viés pelo qual se pode analisar Gran Torino: enquanto um “quase western urbano contemporâneo”. Afinal, o diretor-ator Clint Eastwood tem suas raízes nos filmes de faroeste, não há gênero cinematográfico mais norte-americano que o western (como bem afirma André Bazin no texto O western ou o cinema americano por excelência) e não há cineasta que represente mais a cultura do país do que Clint. Pode ser visto uma transposição de certos elementos das vastas paisagens do faroeste para o subúrbio urbano de Gran Torino, elementos facilmente identificáveis com o gênero em questão, como: o herói altivo e áspero na figura de um ícone do western, o próprio Clint enquanto ator; o bando de vilões que dessa vez aparecem na figura das gangues; os oprimidos que são defendidos pelo herói; a presença de elementos da história e cultura norte-americana; a atmosfera permeada por tiros e a busca por justiça; e o paralelo entre a justiça dos homens (da busca moral do herói) e uma justiça outra acima ou externa, que nos westerns clássicos é representada pela figura do xerife, a lei, e em Gran Torino, essa lei quase não aparece mas há uma outra, a justiça divina (moral religiosa) que em diversas cenas conflita com a moral do protagonista.

Por último, vale destacar um coadjuvante importante que inclusive dá o nome ao filme, o Ford Gran Torino 1982. O carro que é a relíquia do protagonista, cobiçado por seus vizinhos, foi um modelo típico do cidadão de classe média da década de 70 nos Estados Unidos e hoje já é mais visado por colecionadores. No filme, o Gran Torino é um símbolo do americanismo de Walt, assim como esse cidadão conservador norte-americano se impõe em meio à vizinhança invadida por imigrantes, o carro brilha como uma jóia antiga e nacional em meio à invasão da indústria automobilística estrangeira, destacadamente japonesa.

No belíssimo plano final do filme, o Ford Gran Torino se mostra ainda algo mais, torna-se símbolo das esperanças de Thao, o novo norte-americano conduz o belíssimo automóvel rumo ao seu futuro incerto, mas agora esperançoso. Tudo isso ao som da belíssima canção, de autoria de Jamie Cullum e Clint, o diretor-ator é também compositor, reafirmando seu talento multifacetado na canção indicada ao Oscar, também denominada “Gran Torino”:

Engine humms and bitter dreams grow

Heart locked in a Gran Torino

It beats a lonely rhythm all night long

Os humms do motor e os sonhos amargos crescem

Coração trancado em um Gran Torino

Batendo em um ritmo solitário a noite toda

Bibliografia

Bazin, André. O cinema: ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.

Diego Anami é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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