Lixo sem limites

Terça-feira, 10/12/1968

Se você já assistiu, experimentou, se ainda não foi ver, já deve ter ouvido falar da confusão ou da “esquisitice” de “O bandido da Luz vermelha”. Afinal, o título sugere a estória de alguém que você conhece pelos jornais, de alguém muito falado pelos seus crimes. Como muitos, você esperava uma estorinha romântica que contasse a vida do famoso personagem, revelando fatos inéditos, procurando humanizá-lo e compreende-lo caritativa e cinicamente como uma infeliz vítima da sociedade. Uma vez realizada a fita e conseguida a retratação coletiva, a dívida estaria paga e qualquer possível injustiça estaria sanada. Quanto à sociedade, de forma alguma seria questionada, pois afinal ela dá oportunidade de redenção às suas vítimas no altar dos meios de comunicação, no ritual cotidiano do rádio, da TV, do jornal e do cinema. E você que todo dia participa deste ritual ao assistir ao “Bandido” acaba se sentindo confuso e não gostando. E por quê? Porque o “Bandido” desnuda este ritual. Porque o “Bandido” além de mostrar o Luz vermelha de uma maneira muito diferente, mostra o rádio, a TV e os outros meios de mistificação que preenchem totalmente a sua vida, cotidianamente, a ponto de constituir o seu único contato com a realidade. Ou melhor, eles constituem a sua única realidade, pelo menos a que você conhece. Você acha o filme [], a trilha sonora de mau gosto, algumas imagens ridículas, outras chocantes. E poderia ser de outra forma? O problema não está no filme porque lá você vê e ouve aquilo que está presente todo dia no rádio, na TV e, principalmente, nas ruas. E é nas ruas que o filme se passa. A câmara percorrendo sem para a sua própria cidade acaba lhe surpreendendo porque a câmara o obriga a ficar de olhos abertos: a cidade pode até tornar-se incompreensível. As vozes dos locutores de rádio, as entrevistas, os programas, os comentários, tudo lhe parece ridículo e componente de uma grande farra. As ações que a imagem lhe revela não tem nada de especial, não são heróicas, o bandido não é aquilo que você esperava, a polícia, as batidas, os tiroteios, os assaltos, parecem perder a [consistência]. Tudo é frustrador demais para que você aceite, mas trata-se do seu mundo. Um mundo onde se misturam política, marginalismo, prostituição, crime, chantagem, entorpecentes. Verdadeiramente, onde o lixo não tem limites. No início da fita você é introduzido na Boca do Lixo, quartel general do marginalismo. Aos poucos você percebe que o rei da Boca não é só o Rei da Boca, é candidato político, faz discursos na TV, tem contatos internacionais, controla ou faz acordo com jornais. A Boca não corresponde apenas a um milhão de metros quadrados do centro da cidade. A Boca tem implicações maiores. Ou melhor, implicações maiores acabam encontrando sua melhor síntese na Boca. E Rogério Sganzerla sentiu e nos lança claramente isto. A sua fita é a expressão realmente genial (cabe o termo) do nosso contexto. Marginalismo a todo vapor na linguagem que é ação e na ação que é linguagem. E por que o marginalismo? Porque afinal ele é um tipo de resposta de quem não tem nas mãos os poderes de decisão.
Existe marginal maior que o chamado terceiro mundo? A resposta é não e diante dela nós somos os grandes marginais e o Luz vermelha nossa síntese.
E “O bandido da Luz vermelha” é a resposta necessária depois do impasse deixado por “Terra em transe”. O filme acontece no momento em que todos no cinema brasileiro pareciam estar esperando que alguma coisa acontecesse.
“O bandido” marca nitidamente o rompimento com as amarras de uma tradição literária limitadora diante de uma realidade nova. A complexidade de uma vida urbana marcada pelo acúmulo de informação e de acontecimentos exige uma linguagem sintética, ampla de recursos para sua expressão. O cinema feito por Sganzerla realiza na [prática] essa linguagem e reflete a formação cultural de sua geração, toda ela moldada por uma referência cinematográfica, que contamina mais profundamente sua forma de sentir e expressar as coisas.
“O terceiro mundo vai explodir, quem tiver de sapato não sobra”. Esta frase se repete várias vezes na trilha sonora. Depois do filme a gente sai do cinema com uma certeza: o cinema urbano, paulista, brasileiro, explodiu. Quem estiver na literatura de 30, no romantismo doutrinário e retórico, no realismo “científico”, na pedagogia estreita, não sobra. Os papas do cinema metafísico, introspectivo e [geométrico], há muito já morreram ( o que não os impediu de continuar fazendo suas fitas com fita métrica e cronômetros). “O Bandido” enfocou uma opção clara aos que estão vivos (metafísicos ou não): renovar ou morrer.

Por Ismail Xavier

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