Meu Corpo, Minhas Regras (Matheus Farias, AESO, 2013)

*Por Jéssica Agostinho

“As mulheres devem evitar se vestirem como vadias para não serem vitimizadas”, disse o policial Michael Sanguinetti, no Canadá. Não sabia ele que sua declaração daria início ao movimento SlutWalk, importado para o Brasil sob o nome Marcha das Vadias. O curta Meu corpo, Minhas Regras, documentário realizado para uma disciplina do curso de Rádio, TV e Internet da AESO – Faculdades Integradas Barros de Melo, acompanhou e registrou a manifestação que levou 2 mil pessoas às ruas do Recife pela terceira vez em 2013 pedindo pelo respeito, direito e reconhecimento da mulher na sociedade.

RUA: O curta-metragem foi desenvolvido para uma disciplina de documentário. Qual a proposta da disciplina e como surgiu a ideia de filmar a Marcha das Vadias?

Matheus Farias: A disciplina de “Oficina de Documentário” foi ministrada pelo professor Marcelo Costa, que possui bastante experiência na produção de documentários. Durante as aulas a turma conseguiu aprofundar-se nas questões históricas, nas características mais marcantes das épocas em que os documentários eram desenvolvidos, assim como também nos aspectos mais técnicos e da linguagem de direção utilizada.

A proposta de elaborar um documentário em curta metragem surgiu da ideia de fazer com que a turma exercitasse o que foi aprendido em sala de aula com produções originais que serviriam como um exercício para a turma, que dividiu-se em três grupos.

No início a proposta da minha equipe era de fazer algo sem muitas pretensões, principalmente pelo fato do tempo ser muito curto para produzir algo com o mínimo de qualidade. Foi nesse momento que Eduardo e eu notamos que a data da Marcha das Vadias aqui no Recife se aproximava. Ao apresentar a proposta de fazer um filme que documentasse o movimento do início ao fim, houve uma unanimidade na identificação da equipe com a causa da Marcha e a partir daí partimos para a organização e divisão de tarefas.

Meu Corpo, Minhas Regras Final[00-28-37]

RUA: Como foi o processo de pré-produção de um documentário que retrata o movimento social? O que foi planejado antes e o que surgiu no momento?

Matheus Farias: Não podemos dizer que houve uma pré-produção propriamente dita. Na verdade, notamos que filmar a Marcha era algo que fugia completamente do nosso controle. Sabíamos que a Marcha iniciaria na Praça do Derby (região central do Recife), seguiria pela Avenida Conde da Boa Vista e dispersaria na Praça do Diário (localizada numa parte mais antiga da cidade), mas isso não era suficiente para prever que tipo de situações filmaríamos ou quais pessoas colheríamos depoimentos. Como a Marcha é feita por diversos movimentos (feministas, LGBT’s, etc) os personagens nesse caso são muito heterogêneos. Some-se também o fato da Marcha adotar um trajeto que foi sendo interditado pela polícia aos poucos. A avenida Conde da Boa Vista é um corredor de ônibus super movimentado do Recife. As pessoas estavam na rua, estavam no shopping, saíam pelas janelas dos prédios e gritavam dos ônibus. Talvez a única coisa que a equipe pré-produziu de fato foi a intenção de acreditar no plano que se filmava até o fim. Tenho certeza que foi por causa disso que conseguimos boas imagens que enriqueceram nossa produção.

Duas semanas antes das filmagens convidamos Patrícia Sampaio (uma das organizadoras da Marcha das Vadias no Recife) na nossa faculdade para a gravação de um programa ao vivo para uma outra disciplina que estávamos cursando. Após a gravação desse programa conversei com ela e já tinha em mente a forma como tudo se organizaria, os horários, a quantidade de pessoas que deveriam compor a equipe, quais equipamentos deveríamos utilizar e principalmente o nosso objetivo central: qual seria o direcionamento e a linguagem adotada no filme.

Para a produção tivemos que utilizar equipamentos próprios ou emprestados. As câmeras eram de Eduardo e Luan, o microfone e o tripé da produtora em que trabalho, o monopé da uma amiga de um amigo e por aí vai. Como toda produção pequena, estávamos sujeitos a muitos riscos e infelizmente não nos livramos deles. No dia da gravação dois integrantes da equipe não puderam comparecer e tivemos que agregar ainda mais funções resumindo-nos numa equipe de cinco pessoas, ou seja, quem dirigia também operava câmera, quem captava som direto ajudava na produção e quem produzia fazia o papel de assistente de direção. Uma das câmeras não nos ajudou e desligava o tempo inteiro fazendo com que alguns arquivos se perdessem. Apesar de tudo a paciência foi a maior arma pra que no fim tudo desse certo.

RUA: Como foi pensada a distribuição do filme? Desde o início pensava-se na internet como um meio de difusão?

Matheus Farias: Inicialmente não pensamos em outra forma de distribuir o filme além da internet. Assim que finalizamos na montagem um corte mais ajustado, publicamos no YouTube e divulgamos via Facebook. A pressa de entregar o filme para a avaliação da disciplina foi tanta, que agora já temos em mãos uma versão com melhor mixagem de som e correção de cor mais adequada.

Pensamos que seria mais justo disponibilizá-lo logo na internet para seguir os mesmos padrões de divulgação que a própria Marcha das Vadias utiliza: divulgação exclusiva nas redes sociais.

Para nossa surpresa “Meu Corpo, Minhas Regras” já tem pouco mais de duas mil visualizações no YouTube e há poucos dias recebemos o convite para que o filme fosse exibido num cineclube sobre direitos humanos que acontece em Olinda. Agora já pensamos em inscrevê-lo em alguns festivais de cinema.

Meu Corpo, Minhas Regras Final[00-10-05]

RUA: Os realizadores do documentário já participavam da militância antes da gravação do filme? Como vocês encaram a relação do audiovisual com a militância?

Matheus Farias: Não havia nenhum envolvimento da equipe com a militância antes da produção desse filme, mas consideramos isso como um primeiro passo bem dado. Pessoalmente eu nunca havia participado de nenhum tipo de protesto de forma tão ativa como na Marcha das Vadias, mas naquele dia senti que o grito das pessoas que eu filmava era também o meu grito, as bandeiras levantadas e os ideias também faziam parte de mim e fiquei feliz de ter participado daquilo tudo.

Talvez o caráter pessoal, sincero e aprofundado das imagens e depoimentos que colhemos reflete o quanto a equipe estava participante e inserida dentro da Marcha. No meio das pessoas éramos muito mais que uma equipe filmando um documentário. Éramos vadias também!

Diante disso tudo conseguimos perceber que o audiovisual é mais que um instrumento na construção da militância. Ela é uma arma que, quando bem utilizada, gera resultados incríveis e mobiliza as pessoas de uma forma surpreendente! Nas últimas semanas as redes sociais se encheram de vídeos amadores e não tão amadores assim das manifestações ao redor do Brasil. O poder dessas imagens é impressionante e consegue, ainda que de forma ainda reduzida, descredibilizar as formas pelas quais as mídias de massa exibem uma história bem diferente do que realmente acontece. Com uma câmera na mão a história sempre muda de figura.

RUA: O grupo responsável pelo documentário é composto apenas por homens e se propôs a falar de um movimento feminista que pauta inclusive o protagonismo das mulheres. Vocês encontraram dificuldades para falar sobre esse tema ou se inserir no meio?

Matheus Farias: Apesar de, no início, parecer estranho a nós mesmos como homens propor uma discussão sobre mulheres feministas, todos os cinco homens que compuseram a equipe se identificaram absolutamente com a causa da Marcha e isso bastava para nós. No dia da gravação toda estranheza desapareceu porque percebemos a heterogeneidade de pessoas e gêneros que a Marcha inclui. Apesar de ser assumidamente feminista, a Marcha também levanta bandeiras contra a homofobia e pelos direitos das mulheres que vão muito além das questões do aborto, por exemplo. Tem a ver com liberdade e liberdade é para todos. Resolvidas essas questões, não encontramos absolutamente qualquer dificuldade para realizar nosso filme. Pelo contrário, foi fácil entrar em contato com as organizadoras e com todas as pessoas que colhemos depoimentos.

*Jéssica Agostinho é estudante de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos e editora da RUA.

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