Monique ao Sol (Wellington Sari, FAP, 2011)

A edição da RUA de fevereiro traz para a seção Curtas uma produção do Paraná: Monique ao Sol (2011), escrito e dirigido por Wellington Sari. O curta foi realizado como trabalho de conclusão de curso da FAP (Faculdade de Artes do Paraná) e ganhou o premio ABDeC-RJ e uma menção honrosa no 16º Festival Brasileiro de Cinema Universitário. Confira a seguir uma entrevista exclusiva com o diretor.


Por Fernanda Sales e Marcelo Félix*

RUA: Como surgiu a idéia para “Monique ao Sol”?

Wellington Sari: Pode parecer simplória a resposta, mas é completamente verdadeira: surgiu da vontade de filmar uma menina na praia. Tendo este desejo, fui, coincidentemente, passar férias no litoral com a família. Durante andanças de lá pra cá, entre uma partida e outra de vôlei, o filme lentamente se desenhava em minha cabeça.

RUA: O filme ganhou algumas menções honrosas, tendo comentários que destacaram elementos como o minimalismo dos gestos e o argumento simples. Como foi realizar um curta “minimalista”? Quais foram as implicações na fotografia, na arte, no som, na montagem, etc.?

WS: Tenho interesse pelas pequenas aventuras da vida. Pelas pequenas conquistas (uma troca de olhares entre você e a moça que desce do ônibus) e pelas pequenas derrotas (a moça desce do ônibus e você nunca mais a vê). (…) O fato é que “Monique ao Sol” é sobre uma atriz/personagem. Então, nada deveria ficar no caminho dela. O plano é dela, o tempo é dela. É tudo dela.  Que o som, a arte, a decupagem, se colocassem a favor da atriz/personagem. Os únicos que podiam agir livremente sobre ela eram o sol, o vento, as ondas e a areia.

RUA: A história depende de fatores climáticos, como o tempo nublado ou quando começa a aparecer o sol, além disso, o filme é todo realizado em externas. Do ponto de vista da produção, como foi trabalhar com essas questões?

WS: Foi divertidíssimo, pois, enquanto aguardávamos a condição climática ideal para o momento, tínhamos tempo de sobra para jogar “Mario Kart”. Ou, conversar e ouvir música. Poucas coisas podem ser tão legais quanto estar com amigos em uma casa de praia por quatro dias com um videogame, caixas de som, comida e um filme para fazer.

Sendo assim, o clima chuvoso com o qual nos deparamos não nos deixou de mau humor. Essas “good vibrations” (algo em que eu não acredito; estou apenas citando gratuitamente os Beach Boys) devem ter trazido a sorte de que precisávamos para conseguir raios de sol entre uma pancada de chuva e outra.

RUA:  Sendo assim, se tivesse chovido todo o tempo a história mudaria completamente?

WS: Sim (…) inventaria na hora um fiapo narrativo – caso nos deparássemos com uma condição climática completamente diferente da que imaginávamos de antemão. Afinal, como eu sugeri em uma resposta anterior, o que interessava era a atriz e a ação que o meio teria sobre ela – cabelos ao vento… – e não exatamente os movimentos da trama. Ainda que, quero deixar claro, eu tenha completo interesse pelo cinema narrativo.

RUA: Quais foram as inspirações para a direção?

WS: Além da atriz, do mar e das canções do Teenage Fanclub, também me inspiraram Eric Rohmer e John Hughes. Esse é o universo que, como realizador, me interessa.

RUA: Por quê? Comente essas influências e como elas se relacionam com seus interesses.

WS: Compactuo com a visão de mundo desses caras. Um trecho de uma música do Teenage Fanclub, que não traduzo pra não cometer qualquer deslize: “i don´t need an atitude/rebellion is a platitude/i only hope the verse is good/I hate verisimilitude”.

Viva a beleza – no sentido clássico. Viva o gosto pela beleza (o título de um livro que reúne textos de Rohmer). Viva os pequenos acidentes da vida (…). Mais do que influências estéticas, esses artistas me agradam pelo posicionamento diante do mundo, pelo fato de jamais terem filmado uma mulher sendo morta, por exemplo. Algo que como espectador certamente me atrai (a câmera, como escreveu Jean Paul-Török, poderia muito bem ter sido inventada para captar a imagem de mulheres em perigo), mas não como realizador – a divisão entre o cinéfilo e o “diretor” é bastante clara pra mim.

RUA: O filme, apesar de ser composto por muitos silêncios, possui diálogos que surgem muito naturalmente. Como foi a elaboração dos diálogos e a direção de atores?

WS: (…) a maioria deles foi escrita já no roteiro. Houve algum improviso durante a filmagem, mas, nunca fugindo muito do texto. Pelo fato de eu e a Monique Rau nos conhecermos, a direção de atores, no sentido tradicional, do ensaio, da construção do personagem em conjunto com o diretor, foi inexistente. Apenas conversávamos sobre a vida (o roteiro em si foi pouquíssimo discutido) e, a partir disso, extraíamos um sentimento que julgávamos adequado para a cena.

RUA: O curta foi realizado como trabalho de conclusão da FAP (Faculdade de Artes do Paraná). Qual envolvimento/incentivo teve a faculdade em sua realização?

WS: A faculdade fornece os equipamentos necessários para os alunos que optam por fazer o TCC prático – o que já é um bom incentivo. Na gravação não houve grande envolvimento por parte da instituição. Já na fundamentação teórica, tivemos, evidentemente, a orientação de uma professora (Ana Lesnovski). Liberdade total, portanto.

RUA: Quais são seus projetos atuais e os desafios que pretende enfrentar daqui para frente nos próximos filmes?

Acabei de terminar a gravação de um novo curta chamado “Surf Surf”. Apesar do nome, se passa em Curitiba e não no litoral. Mas, é como Monique. É um filme de amor. Amor e derrota. Ou, amor e vitória, dependendo de que lado da câmera se está. Ou, melhor: dependendo que lado da vida se está.

Os meus outros projetos atuais têm a ver com os desafios futuros: são projetos de longa e curta-metragem que estão sendo inscritos em editais. Espero muito aprová-los – principalmente os longas.

Quero fazer bons filmes, que sejam melhores que os anteriores e piores que os que virão. Parafraseando aquela boa e velha crônica do Rubem Braga: eu queria fazer um filme tão engraçado que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando visse o meu filme risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse: “ai meu deus, que filme mais engraçado!”. E que um cara, ao passar diante da casa cinzenta, se apaixonasse pelo riso da moça e dissesse: “meu deus, que riso mais engraçado!”. E risse, risse…

*Marcelo Félix e Fernanda Sales são graduandos do Curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e editores da RUA.

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