Na estrada com Zé Limeira (Douglas Machado, 2011)

“Na estrada com Douglas Machado”

por Alfredo Werney*

Pôster do Documentário


Douglas Machado, o cineasta mais atuante do Piauí, tornou-se, indubitavelmente, um dos importantes documentaristas brasileiros da atualidade.  Sua intensa produção fílmica, aliada a um cuidado estético e a uma visão artística ampla (que reúne em seu bojo conhecimentos de literatura, teatro, quadrinhos e outras artes), tem sido aclamada por muitos apreciadores da sétima arte. Dentre os documentários dirigidos por Douglas, podemos citar: H. Dobal – Um Homem Particular; O Sertãomundo de Suassuna; Marcos Vinicius Villaça – O Artesão da Palavra; Luiz Antônio de Assis Brasil – O Códice e o Cinzel; Alberto da Costa e Silva – O Retorno do Filho e Um Corpo Subterrâneo. A obra fílmica do teresinense tem sido discutida, com frequência, em ciclos de estudos, em congressos, em cineclubes, além de ser abordada em artigos, ensaios e dissertações nas academias.

Recentemente, o clube de vídeo “Olho Mágico”, importante cineclube do Piauí, exibiu em sua programação o documentário Na estrada com Zé Limeira (2011), dirigido pelo referido cineasta piauiense e produzido por Gardênia Cury. Embora estivesse vendo a película pela primeira vez, logo percebi que o documentário produzido pela “Trinca filmes” é um desses que fica colado em nossa memória. Com uma câmera acoplada ao corpo, através de um processo criado pelo próprio Douglas, o diretor percorreu várias cidades do sertão nordestino, especificamente nos estados da Paraíba e do Pernambuco, visando reconstruir (ou construir?) a memória de Zé Limeira – figura mítica e aclamada por todo o universo do repente. A película, gravada em três semanas apenas, foi baseada no livro de Zé Limeira, o poeta do absurdo, de autoria do jornalista e poeta paraibano Orlando Tejo. O livro, composto de ensaios, recria a figura mitológica do cantador nordestino. Para alguns, o livro é que, de fato, inventa a personagem. Dessa forma, para estas pessoas os ensaios de Tejo não são apenas recortes biográficos, mas são textos carregados de elementos próprios da criação literária.

Douglas Machado com a câmera acoplada ao corpo

Importante notar que, em boa parte do filme, parece que somos nós, o público, que estamos a captar as imagens daquelas estradas e paisagens bonitas do Nordeste. Esta é uma das marcas estilísticas da obra: o filme é gravado do ponto de vista do expectador, embora em algumas tomadas seja-nos possível visualizar o diretor com sua câmera colada ao corpo. Recurso   este que abre mão da “câmera subjetiva”, muito presente no filme, e cria certa objetividade – como se o diretor quisesse realmente deixar claro a maneira como está sendo produzida sua obra fílmica.

Diferente dos tradicionais documentários – nos quais se procura esconder o processo de feitura para se expor na tela apenas o “essencial” – Na estrada com Zé Limeira percorre outros caminhos. Neste filme, o processo de feitura faz parte de sua própria estética, da sua própria carnadura. A obra é o próprio momento do fazer artístico. Daí a abundância de planos-sequência, o que engendra na película uma fluência sonora e visual de grande expressividade artística. Este processo de construção cinematográfica – no qual a câmera se desloca constantemente como se vagueasse sozinha por várias estradas do sertão – remete-nos à própria vida do cantador Zé Limeira que, segundo depoimentos de músicos e pessoas de sua época, levava uma vida de nômade, percorrendo as estradas da Paraíba e de Pernambuco.

É interessante notarmos, ao vermos o documentário, que pouco importa para Douglas Machado a veracidade das informações colhidas durante suas viagens – pelo menos isso é o que me transparece. O que mais conta, dessa forma, é a riqueza da imaginação presente na cultura nordestina, elemento caro à literatura de um Guimarães Rosa e de um Jorge de Lima. Na estrada com Zé Limeira não se trata, pois, de uma reportagem televisiva, como fazem a maioria dos documentários presentes no mercado cinematográfico, em que se busca um afastamento do diretor e do público a respeito de determinado assunto. Na obra de Douglas, como um todo, o mítico se mistura ao real histórico, a ficção se mescla à informação, a câmera objetiva se confunde com momentos de pura subjetividade e poesia fílmica. Douglas não se deixar levar por prosaísmos ingênuos e pela ideia tão valorizada de “imparcialidade”, por isso ele próprio está presente a todo o momento no filme. Participa da realização de perguntas, do processo de filmagem, da narração em off, além de outras atividades de produção. Sua câmera trêmula, aparentemente descompromissada, nos leva a viajar pela força poética da imagem. Documentar e fabular, na visão do diretor, são atividades que se mesclam. São, na verdade, o mesmo fenômeno.

Para aqueles que vêem o documentário tão-somente como um meio de estar informado das coisas e espera, dessa maneira, um rigor formal e um “distanciamento” da câmera (como nos jornais televisivos e nas reportagens demasiadamente frias e sem alma), não se deslumbrará com a película de Douglas. A visão do cineasta teresinense, em harmonia com a dos grandes documentaristas como Eduardo Coutinho, é a de que documentário não é mera informação, mas sim uma arte cinematográfica específica que está repleta de momentos de gratuidade poética (basta lembrarmo-nos da encantadora cena em que aprece um velho que reza e vagueia pelas ruas com um santo na mão numa cidade da Paraíba) que se propõe a construir uma visão de mundo e experimentar as possibilidades estéticas da arte cinematográfica.

Na estrada com Zé Limeira, no fundo, não é um simples “resgate” da memória nordestina e do repente, como pode parecer, à primeira vista, aos expectadores menos atentos. Não é também uma homenagem ingênua a Zé Limeira. O diretor piauiense não trata o poeta como um gênio de uma época (um clichê que a maioria dos documentaristas não consegue se desvencilhar ao tratar destes personagens míticos), mas sim deixa que as pessoas que conviveram com o violeiro realizem seus comentários e teçam uma imagem dele. Há na película, inclusive, alguns comentários desfavoráveis ao repentista. Lembremo-nos da fala de Seu Zé Inácio, um senhor que reside no Sítio Tauá: “Ele era um cantador muito afamado, mas os versos dele quase tudo era de pé quebrado”, indicando, possivelmente, que Limeira não era tão bom o quanto se afirmava na época. Este fato mostra que a presença do diretor não é invasiva, já que ele permite que os entrevistados se expressem e participem do próprio processo artístico. Em Um corpo subterrâneo, de forma louvável, Douglas levou ao extremo este recurso, quando entregou a própria câmera para que os entrevistados realizassem as tomadas e expressassem suas emoções através das lentes.

O documentário de Douglas Machado sobre o cantador nordestino trata-se de uma experiência cinematográfica de grande inventividade, assim como o já citado Um corpo subterrâneo. O que se poderia esperar de uma obra cinematográfica feita no sertão nordestino sobre uma fantástica figura do repente? Violas, mandacarus, aboiadores, paisagens secas, pobreza e um conjunto de imagens e discursos que se inventaram a respeito da região. Mas não é esse o tom da obra de Douglas, ainda que o cineasta recorra, em alguns momentos, a tais clichês. Mas quando recorre a estas ideias repisadas, ele consegue remanejá-las e, dessa maneira, fugir do lugar-comum.

Lembro-me de uma sequência do filme que é muito sugestiva: Douglas liga para o celular de um dos entrevistados e conversa sobre as memórias do cantador. A conversa dos dois segue e serve de “fundo musical” para uma paisagem bucólica, em que vemos bois e árvores em uma bonita fazenda. Trata-se de uma cena que, certamente nas mãos de um diletante ganharia um dedilhado de viola ou um típico baião nordestino. Entretanto, a cena teve como “trilha sonora” uma despojada conversa de celular, o que insere um elemento “estranho” na paisagem visual e sonora do sertão nordestino. Sobre este aspecto, é importante dizer que a econômica e discreta trilha musical, composta por Sérgio Matos, respeita o estilo do diretor e não apela para o pitoresco. É monofônica e não se utiliza das cansativas melodias construídas a partir das escalas modais, como se costuma ouvir nos filmes que representam a figura do nordestino.

Na estrada com Zé Limeira é uma dessas obras que nos coloca em um espaço movediço, no qual não sabemos, ao certo, onde estamos pisando. Ficção, memória, religiosidade, poieses e informação se amalgamam e juntas criam um mundo cinematográfico que se centra na esfera da sensibilidade e na sinestesia das imagens, como Douglas já nos mostrara em seu transcendental Cipriano (2001).

Alfredo Werney* é músico, pesquisador e professor de Artes.

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