NOITE E NEBLINA (ALAIN RESNAIS, 1955)

Por Thiago Consiglio*

Campos de concentração se mesclam com a linguagem poética e formam uma experiência estética única.

Noite e Neblina é um documentário de curta duração (30 minutos) que apresenta um registro histórico dos campos de concentração do regime nazista. Passados 10 anos do término da Segunda Guerra Mundial, o diretor francês Alain Resnais, recebeu o convite e o apoio de várias entidades em prol dos direitos humanos para realizar esta obra.

A ideia do filme foi inicialmente recusada pelo diretor, porque ele acreditava que só alguém que realmente tivesse experienciado os horrores poderia tentar dissertar sobre o tema; o que o levou à parceria com o poeta e escritor Jean Cayrol, que havia sido prisioneiro. Para Resnais, o filme serviria de alerta para que os horrores praticados pelo fascismo não voltassem a ocorrer, por exemplo, na Guerra da Argélia, contexto em que a França estava inserida na época. Mas como vamos perceber, fica claro que o alerta transcende esse momento específico, sendo uma reflexão atemporal para o gênero humano.

A expressão que dá nome ao documentário tem origem, inicialmente, na obra do compositor Richard Wagner, como denominação de um feitiço na ópera O Anel do Nibelungo. Mas esse feitiço foi a inspiração para o nome de um decreto do regime nazista datado de dezembro de 1941, em que permitia aos oficiais, total poder para apreender e deportar aqueles que eles consideravam como “ameaçadores da segurança”. O fundamento era uma intimidação coercitiva e política nos territórios ocupados, porque o decreto permitia com que pessoas desaparecessem sem explicações, como se elas sumissem sem deixar rastros “no meio da noite e da neblina”. A origem do nome deste documentário está relacionado com o decreto.

A importância desta obra que carrega uma missão histórica é a de registrar um momento trágico da história humana para a posterioridade e a de fazer uma reflexão sobre as capacidades humanas, tanto para o bem quanto para o mal. Essa dicotomia já fica clara quando o autor escolhe apresentar as imagens, naturalmente pesadas, com o texto de Cayrol, que traz consigo um tom extremamente poético. Por exemplo, cito quando o autor utiliza a imagem da chegada do trem no campo de concentração como o momento para se apresentar na narração a expressão “noite e neblina”. A imagem é escura, esfumaçada, e ao mesmo tempo que o trem está parando, uma fila de oficiais armados aguardam enquanto só observamos suas silhuetas. É a representação do horror humano.

O primeiro plano apresenta um cenário quase idílico que contrasta com a realidade do passado do local. O autor escolhe que a porta de entrada para o tema, seja realmente a porta física do local. “Uma paisagem tranquila” anuncia o texto, e a câmera percorre as estradas, inicialmente banais, que levam a um campo de concentração.

As imagens em cores fazem outro contraste, quando o filme faz transição para as imagens de arquivo para contar rapidamente sobre a ascensão da ideologia do Terceiro Reich. Essa diferenciação será percebida durante toda a obra, enquanto as imagens de arquivo apresentam multidões em preto e branco, nas imagens coloridas os espaços estão desertos. Por um lado o preto e branco nos distancia, mas se conecta com a realidade quando apresentado o espaço atual dos campos, coloridos.

Em termos amplos, o regime de Hitler, também representa um ápice do pensamento moderno racional em alguns aspectos da sociedade que eles propuseram: com um projeto social altamente planejado, vários aspectos embasados totalmente pelos valores científicos, se afastando de alguns valores humanos, chegando ao ápice de encarar o próprio extermínio como uma produção em série. No fundo, a característica filosófica do período moderno, a totalização da realidade através de teoria e ação unificadas, entende-se que a ciência, conseguia responder todos os anseios humanos. Assim, a obra faz uma comparação do planejamento e construção de um campo de extermínio, a um estádio ou um hotel, como se fosse uma realização de uma empresa empreiteira. A brincadeira está em mostrar em seguida que não havia um rigor nos estilos arquitetônicos das construções, apontando para um deslize de não planejamento, mas talvez indiretamente, mais uma insignificância em contraposição a sua função.

Nesse mesmo aspecto, o filme mostra imagens de Heinrich Himmler, visitando o campo e com um olhar extremamente analítico encarando os extermínios em massa como uma questão matemática, num sentido de produtividade. Em outra imagem também fica claro a rigorosidade na escolha das imagens de arquivo, quando prisioneiros estão sendo embarcados em um trem, fica evidente a expressão de horror deles, enquanto os oficiais estão preocupados com a maximização da ocupação do espaço nos trens, sendo que até um soldado aparece levando uma mulher idosa em uma espécie de carrinho de mão.

Apesar disso, Resnais e Cayrol, admitem através da obra, um aspecto cético. Através de algumas passagens, chegam a repetir a ideia de que a tentativa deles é inútil de descobrir a realidade dos campos, como se fosse uma justificativa de que o filme não conseguiria dar uma imagem verdadeira do acontecido, “nenhuma descrição, nenhuma imagem, é o suficiente para lhes dar a verdadeira dimensão de um medo ininterrupto […] só conseguimos mostrar-lhes um esboço: a cor”.

Percebe-se também, que apesar de não conseguirem apresentar objetivamente esse tema, eles tentam através do subjetivo. O texto é carregado de passagens poéticas que são fortes. Para descrever a viagem dos prisioneiros nos trens, utilizam-se de vários elementos que carregam significados fortes: “nem dias, nem noites, a fome, a sede, a asfixia, a loucura”.

Essa densidade angustiante também fica evidente quando acompanhamos as imagens em uma câmara de gás. A narração avisa que talvez os únicos registros de quem passou por lá estejam nas marcas de unhas que minimamente conseguimos perceber no teto. Não só as marcas, mas a própria realização do filme é uma representação desse registro.

A maior realização desta obra também está em apresentar nos detalhes os aspectos humanos, apesar de todo o contexto caótico. Nos momentos em que os prisioneiros tomam sopa, reforça-se a cada gole, um sentimento de resistência. Também pode-se considerar esse sentimento, quando a narrativa sugere e apresenta artefatos que os prisioneiros construíram, além de escreverem memórias e notas em pequenos papéis. Apesar da tentativa de destruição, houve essencialmente a sobrevivência do ser humano através da resistência que gerou transcendência criativa.

Por fim, a obra faz questão de citar algumas indústrias que tentaram se aproveitar da mão de obra dos campos, em tom de denúncia, e ao falar das valas de extermínios e comparar a água que a cobriu, com a “água que cobre nossa memória”, reafirma o significado engajado de registro.

Talvez justamente por isso, na época, o ainda crítico de cinema, François Truffaut, elogiou esta obra como “o melhor filme já realizado”. Essa afirmação se baseia provavelmente em todos os aspectos que esse documentário apresentou de engajamento incorporado.

O engajamento parte de uma análise sincera, que se reconhece como incapaz de compreender totalmente um fato histórico chocante como o extermínio em massa no regime nazista, para apresentar aspectos humanos valiosos, que transcendem o horror.

Dificilmente pensaremos em um filme de ficção que consegue atingir tamanha proporção dessa característica humana, porque no fundo, como documentário, o realizador apresenta parte da nossa história real, vivida por pessoas que sofreram. Não há maior representação de um sofrimento do que apresentar o espaço desse sofrimento. Dentro dos limites de um documentário, o diretor termina com um questionamento sobre as responsabilidades dos atos. A pergunta que encerra: “então quem é responsável?” diz muito mais sobre a natureza humana e sobre valores individuais, que as divagações filosóficas que eu poderia realizar sobre essa questão e que ficariam limitadas no espaço deste texto.

Resta encarar esta obra como uma revisão poética e engajada sobre um período histórico, que no fundo é uma experiência estética em si. A transcendência de obras assim não pode ficar limitada no tempo, para que não sejam necessárias novas atrocidades para que autores cinematográficos realizem documentários extraordinários como este. Um filme de 30 minutos que conseguiu ser tão importante, não se deu simplesmente por causa do seu período histórico, mas por todos os aspectos da realização, que mesclou poesia, engajamento, horror, e estética.

*Thiago Consiglio é jornalista (MTB 72991/SP) e participou da realização e produção de curtas-metragens independentes.

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