O Assaltante (Pablo Fendrik, 2007)

Por Arthur Autran*

Nos últimos anos assistimos no Brasil à criação de uma infinidade de festivais de cinema nos mais variados lugares e com diversos recortes. Deles, certamente um dos mais interessantes é o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, cuja terceira edição ocorreu entre 08 e 13 de julho deste ano. Com ampla programação, em 2008 havia desde uma mostra dos filmes de Fernando Solanas – o grande homenageado -, passando pela retrospectiva da obra de Tomás Gutiérrez Alea – infelizmente com alguns filmes veiculados em péssimas cópias em DVD e outros que mesmo anunciados não foram exibidos -, além de uma mostra da produção recente da América Latina.

Apesar de um ou outro filme argentino conseguir ser lançado no circuito comercial brasileiro – cada vez mais cristalizado em torno de alguns poucos blockbusters -, ainda temos muito pouco acesso às produções do país vizinho assim como do México, sem falar em Peru, Colômbia, Venezuela e Cuba. Daí a importância central de um evento como este.

O presente artigo concentra-se em torno de um filme que me tomou absolutamente de surpresa. Trata-se de uma produção argentina recente, de baixíssimo custo – foi rodada em HD e só depois passada para 35 mm – e é o primeiro longa-metragem dirigido por Pablo Fendrik – jovem realizador muito promissor. A fita chegou a ser exibida na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2007, além de circular em festivais e mostras pelo mundo como o 5° Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa ou na Seleção Horizontes do 55° Festival de San Sebastian.

Com pouco mais de uma hora de duração, O assaltante é uma das obras recentes a que me foi dado assistir mais inquietantes esteticamente e como reflexão sobre as sociedades latino-americanas contemporâneas como a argentina ou a brasileira.

O tempo diegético do filme restringe-se a uma manhã e seu estilo é marcado pela câmera na mão que se desloca em planos bastante longos e trepidantes. O foco narrativo centra-se na figura de Ramos – interpretado pelo ótimo Arturo Goetz, ator que faz um papel coadjuvante de certo relevo em A menina santa (La niña santa, Lucrecia Martel, 2004). Este homem de meia idade, elegante, aparece inicialmente espreitando crianças que entram numa escola de alto padrão em termos econômicos. Ele adentra a escola de forma sorrateira e procura a secretaria, informando desejar matricular seu filho ali. Quando fica sozinho com a responsável pela matrícula, Ramos anuncia friamente que se trata de um assalto e mostra um revólver. Após pegar o dinheiro, sai do colégio e vai a um bar no qual pede chá, a jovem atendente o olha de soslaio e com desconfiança, acabando por deixar cair água quente nas mãos de Ramos. Com dor, ele vai ao banheiro jogar água fria sobre a queimadura e acaba por discutir com o dono do bar, que o acusa de olhar demais para a moça.

Aqui temos já uma das marcas narrativas do filme, pois não há explicações claras para a desconfiança da moça e no que nos é dado a ver não se configura o assédio de Ramos. Esta indeterminação narrativa é uma das chaves do filme e joga papel central na sua complexidade, pois ela participa ativamente da construção do suspense que marca a película mantendo o espectador muito atento em busca de informações que possam explicar os acontecimentos – afinal por que este homem bem composto pratica assaltos? Por que a moça tem medo dele? Resulta daí um clima de desorientação do espectador, o qual nunca entende claramente o que está em jogo.

De outro lado também é de se notar a extrema economia narrativa do filme. A apreensão do nível sócio-econômico dos alunos realiza-se muito rapidamente através das vestimentas deles e pelos comentários advindos do diálogo entre a moça responsável pela matrícula e o assaltante. Ramos vai a uma farmácia buscar algum remédio para sua dor e lá é atendido. Em seguida desloca-se para uma nova escola, desta feita, de música, onde anuncia para a atendente que deseja pagar as mensalidades atrasadas da sua filha. Após uma espera algo angustiante, Ramos é recebido por dois responsáveis pela escola, mas o plano se complica. Acreditando que o homem é mesmo o pai da aluna, os professores querem chamá-la devido ao comportamento estranho dela nos últimos dias. Ramos tenta impedir que os professores chamem a aluna dizendo ser divorciado, vê-la pouco, etc., mas não consegue convencer seus interlocutores, de maneira que ele acaba sacando a arma e ameaçando-os de forma bem mais violenta do que em relação ao primeiro assalto. Novamente a indeterminação narrativa tem um papel central, afinal na sala de espera cria-se pelo próprio tempo da cena e pelos olhares dirigidos a Ramos uma grande tensão, parecendo que as pessoas desconfiam dele. A tensão acaba por arrebentar, mas não na sala de espera e sim no momento das ameaças aos professores, no qual ele se transforma num ser verdadeiramente ameaçador.

Uma vez de posse do dinheiro, Ramos sai da escola com rapidez, mas a moça do bar o vê esbaforido e com pessoas atrás dele, passando então a segui-lo. Já num bairro periférico ele percebe que é perseguido e se esconde, surpreendendo a moça com o revólver em punho, ela leva um grande susto e perde os sentidos. Ramos procura um táxi e dá muitas voltas, mas acaba por pegar a moça e levá-la ao mesmo farmacêutico que o atendeu, ela então se recupera. Neste trecho do filme o estranhamento ressurge com grande força, tanto pelo longuíssimo plano de Ramos dentro do táxi dando instruções ao motorista e que tira boa parte da noção de espaço do espectador, quanto pelo inesperado da ação do personagem central ao socorrer a jovem, afinal a esta altura ele já se configurava como um crápula.

Numa pracinha ele mostra para ela que o revólver é de brinquedo, a moça irrita-se derrubando Ramos no chão e chutando-o, ela foge correndo. Após uma elipse de tempo, Ramos ressurge exausto e dirige-se à entrada de um prédio que inicialmente é difícil para o espectador identificar. Uma vez lá dentro escuta-se grande alarido e o personagem é cumprimentado pelas pessoas. O prédio aparenta ser antigo e encontra-se algo descuidado. Ramos veste um guarda-pó branco, indumentária que também é comum às outras pessoas que estão neste ambiente, e vai para uma sala. Entra uma funcionária dizendo que a mãe de um aluno reclama da água que dão para o filho, pede a Ramos que fale com ela. Ele atende a tal mulher de maneira paciente e cansada ao mesmo tempo. No desfecho do filme temos a câmera bem próxima da cabeça de Ramos e apresenta-se um pátio envelhecido e decadente no qual crianças vestidas com guarda-pó brincam. O plano da cabeça de Ramos que nos dá a ver algo próximo da sua perspectiva, mas que não se confunde com ela, é marcante e remete neste momento especialmente ao início da fita, quando ele observa os jovens burguesinhos entrando na escola. Trata-se de um enquadramento no qual a cabeça ocupa o primeiro plano do quadro, deixando para o fundo o que é observado pelo personagem, as vezes ele vira a cabeça de modo que o vemos de perfil. Este tipo de enquadramento é reiterativo ao longo do filme e visualmente traduz com força a idéia de que estamos próximos a Ramos, mas não nos identificamos inteiramente com ele.

Com um tom que poderíamos classificar – se não quisermos problematizar a expressão – de realista, O assaltante consegue nos fazer refletir profundamente sobre as tensões tão presentes nas nossas sociedades que assistiram nos anos 1990 à destruição sistemática dos bens públicos em nome da reforma do Estado e do livre-mercado, convivendo hoje com uma situação de terra arrasada na saúde, na educação e no transporte públicos. A reflexão não é feita a partir de uma oposição óbvia ou maniqueísta, mas indicando que no cerne mesmo do setor público – e das nossas sociedades – existem profundas deformações que impossibilitam a reação ao quadro da sua destruição. Quando muito, o que resta são atitudes individualistas e/ou desesperadas que em nada melhoram a situação. O instigante no caso de O assaltante é que o ato de Ramos, pela sua própria estranheza e falta de explicação, torna-se uma referência do nosso desespero diário, do nosso individualismo e talvez da falta de sentido de boa parte dos nossos esforços. Note-se ainda que nem a adrenalina buscada por Ramos resulta em grande coisa, pois na escola ele aparenta ser tão passivo e desesperançado quanto seus colegas.

Outra característica importante do filme é este realismo que não se deixa contaminar pela preocupação extrema com a verossimilhança. Explicando melhor: embora o tratamento dos tipos sociais, o modo como os lugares são mostrados e mesmo a relação particular-geral no filme sejam típicas do realismo, não há uma preocupação em fazer a narrativa progredir na base das relações de causa-conseqüência e nem em tornar tudo claro e legível, como infelizmente tanto vemos no cinema brasileiro. Mais do que um realismo superficial que se cinge em torno de explicações detalhadas das motivações dos personagens para seus atos mais banais, O assaltante desenvolve uma forma realista que dá conta das relações sociais esgarçadas, violentas e individualistas ao extremo da nossa América. Neste sentido é fundamental não haver uma motivação clara na diegese para os atos de Ramos, permitindo que no seu caso particular seja possível entrever um pouco – ou muito? – de todos nós.

Uma palavra sobre a significação do assalto: não me parece que o ponto principal do filme seja o ato do roubo. Tratava-se de conceber dramaticamente e em termos cinematográficos uma solução que desse conta de demonstrar de forma ampla a exacerbação da violência, do individualismo, da falta de sentido, da desesperança e da passividade nossa de cada dia. E, muito especialmente, de como tudo isso pode estar entrelaçado.

O último ponto a ser mencionado é que ao assistirmos filmes como este e vários outros da produção argentina contemporânea como Nove rainhas (Nueve reinas, Fabián Bielinsky, 2000), O pântano (La ciénaga, Lucrecia Martel, 2001) e Do outro lado da lei (El bonaerense, Pablo Trapero, 2002), não deixa de ser constrangedor compará-los com a incrível dificuldade da produção ficcional brasileira de dialogar de maneira mais rica com o social, restringindo-se na maioria dos casos a um naturalismo ultrapassado e algo tacanho.

*Arthur Autran é professor do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).


É de se notar que para o espectador argentino o lugar é rapidamente reconhecido como uma escola pública, pois lá professores e alunos usam o guarda-pó branco. Em conversa com o público numa das sessões do filme no festival, Pablo Fendrik afirmou que a escola pública que serviu de locação para o filme foi a mesma na qual ele estudou.

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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