O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)

Filipe Doranti*

O Bandido da Luz Vermelha, filme de Rogério Sganzerla, produzido em 1968, pertence ao movimento denominado Cinema Marginal. Com uma narrativa diferenciada dos filmes convencionais da época, o filme trata da história de um personagem perturbado e conflituoso que, apesar de ser um bandido cruel e violento, também se mostra fraco e psicologicamente frágil, evidenciando esses problemas ao longo do filme, nos momentos em que ele repete a pergunta “Quem sou eu?” em voz-off e quando conta histórias das vezes em que tentou suicidar-se, todas frustradas. Mostra-se o Terceiro Mundo como um habitat de marginalizados, onde os seres humanos são facilmente corrompidos e todos são vulneráveis devido às condições de um país em subdesenvolvimento.

Retratando a condição do Brasil na época e expondo seus ideais e ponto de vista em relação a essa situação, o diretor se encaixa em um perfil definido por Stan Brakhage:

“Hoje, são poucos os que dão um sentido mais profundo ao processo de percepção e que transformam seus ideais em experiências cinematográficas, em busca de uma nova linguagem possibilitada pela imagem em movimento.”(Stan Brakhage, Metáforas da Visão, p.343)

Com uma linguagem rica, montagem criativa e artifícios artísticos para retratar cenas de um povo oprimido pelo sistema de uma forma a revolucionar o modelo de arte no Brasil, Sganzerla expõe seus ideais em sua experiência cinematográfica de modo a transmitir a situação da população brasileira e alguns dos seus vários problemas, ilustrados em um personagem perturbado, corrompido e influenciado por esse sistema igualmente perturbado e corrompido. Utilizando locutores de rádio como narradores do filme durante boa parte da história, ele critica a mídia sensacionalista, que criava boatos e histórias falsas, desde disco voadores invadindo o país a falsas informações policiais, como a da descoberta da identidade do bandido da luz vermelha. Mas, não tendo apenas essa função crítica, os locutores desenvolvem um papel de “consciência” da alta sociedade em relação ao bandido, demonstrando medo, curiosidade e até mesmo certa admiração à astúcia do protagonista.

Personagens como o político J.B. ou o delegado Cabeção, mostram a sua indignação em relação a membros pertencentes ao sistema ou detentores do poder na sociedade brasileira. J.B. é retratado como o político populista que abusa do povo e do seu poder, mas está sempre justificando suas glórias como sendo em favor da população. Já o delegado demonstra total ineficiência ao investigar os crimes cometidos pelo bandido da luz vermelha e possui tamanha boçalidade e estupidez, que acaba morrendo da mesma forma que o bandido ou talvez ainda mais humilhante (o bandido acabara de cometer suicídio em uma fonte de energia elétrica, quando o delegado se aproxima para analisar o fato ocorrido, sem querer, pisa nessa fonte, sofrendo a mesma descarga elétrica, falecendo logo em seguida).

Outro fator que merece ser ressaltado em O Bandido da Luz Vermelha é a ambigüidade presente em vários personagens do filme e a difícil compreensão de seus conflitos pessoais, caso do próprio protagonista. Este praticamente não é chamado pelo nome real no filme, dificultando a definição e a visualização do bandido como um cidadão, isto é, ele pode ser qualquer um em meio a todos. Menos complexos que o anterior, tanto a prostituta Janete Jane como o político J.B. possuem desvios de personalidade que indicam certa ambigüidade em seu caráter. A moça permanece ao lado do bandido durante certo tempo do filme, como se fosse por amor, mas logo se percebe que ela está apenas ganhando seu dinheiro e se aproveitando da fraqueza do rapaz. O político, já explicitando a crítica aos políticos populistas brasileiro, se mostra na mídia um “homem do povo”, mas comanda uma quadrilha, à qual pertence o bandido da luz vermelha. Tal ambigüidade, combinada com a perturbadora inserção de cenas e imagens (consideradas à primeira vista, a par da narrativa, como os “monólogos” do bandido em suas tentativas de suicídio) e montagem de atração (com imagens de santo ou discos voadores no céu), podem remeter a uma obra de Luís Buñuel na qual o ilustre diretor surrealista diz:

Aos filmes falta, em geral, o mistério, elemento essencial a toda obra de arte. Autores, diretores e produtores evitam cuidadosamente perturbar nossa tranqüilidade abrindo a janela maravilhosa ao mundo libertador da poesia (…).”(Luis Buñuel, Cinema: instrumento de poesia)

Tais elementos artísticos utilizados por Sganzerla no filme causam certa perturbação do telespectador, gerando dúvidas e questões das quais poucas serão respondidas ao final do filme, pelo menos não durante uma primeira análise da obra. As ambigüidades criam o mistério ao qual Buñuel se refere em seu texto, trazendo uma expectativa maior ao espectador.

Há também a montagem de atração, definida por Eisenstein, utilizada para representar metaforicamente algo que está sendo exibido no filme, por exemplo, o São Jorge que várias vezes aparece entre cena e outra no filme, representando a cultura popular, mostrando que o bandido é um homem do povo como qualquer outro e que ele tem suas devoções como qualquer outro brasileiro. Suas tentativas de suicídio, mais parecem reflexões de seu delírio e da confusão em que se encontra, em meio a todo o caos em que está inserido. Nada parece ser real, ao mesmo tempo em que existe completa sanidade em todas as palavras do personagem, no momento em que tenta ingerir tinta óleo, ou no momento em que tenta se afogar na praia, mas tudo isso acaba deixando a narrativa mais complexa e misteriosa para quem a acompanha.

Assim, sendo um filme que expõe com cinismo e sarcasmo a situação deplorável do Brasil na década de 1960, “O Bandido da Luz Vermelha” retrata essa situação de forma revolucionária e artística, mas ao mesmo tempo aproximando-se do povo, ao mostrar uma população brasileira descrente de utopias, sem a ingenuidade de antes, além disso, ataca com agressividade os setores deficientes do sistema corrupto em que o país está inserido.

Filipe Doranti é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

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3 Comentários para: “O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)

  1. FOI UMA FALTA DE VERGONHA E DE RSPEITO Á SOCIEDADE BRASILEIRA O AUTOR DESSE FILME RESPALDAR A VIDA DE UM BANDIDO SEM ESCRUPULOS PARA GANHAR DINHEIRO. USE OUTROS TEMAS, SENHOR AUTOR. AGORA QUE O BANDIDO DA LUZ VERMELHA FOI ASSASSINADO, COM CERTEZA VAI QUERER GANHAR MAIS DINHEIRO!!

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