O Cavalo de Turim (Bela Tarr, 2011)

Gabriel Dominato*

O Cavalo de Turim, novo filme do húngaro Béla Tarr e, segundo este, seu último filme foi o grande injustiçado de 2011, sendo nomeado em poucos festivais e vencendo apenas o Urso de Prata no Festival de Berlim, o que de certa forma é algo triste, visto ser  não só um dos melhores do ano como também um dos melhores da carreira do diretor húngaro.

O Cavalo de Turim é o fim apoteótico da carreira de Bela Tarr

O filme abre com a epígrafe que conta a história de Nietzsche que, em uma estadia Turim, ao passear pelas ruas vê um cavalo sendo açoitado pelo cocheiro, então o filósofo alemão se joga ao pescoço do cavalo para proteger o animal até ter um colapso, nunca mais voltando a falar até suas ultimas palavras “Mãe, sou um idiota”. Nietzsche passa ainda dez anos sendo cuidado por sua mãe e irmã, sem nada falar.

Quando se assiste ao filme é inevitável querer fazer grandes associações com a epígrafe deste, porém tal ação se provou ser das mais difíceis. Foram as diversas vezes que re-assisti que me deu a possibilidade de elaborar uma mera hipótese, a qual pretendo discutir ao decorrer do texto.

A estrutura narrativa de Tarr é a mais minimalista dentro todo seu cinema, mas o cenário é familiar, se passando no desolador campo húngaro, seco, com areia voando e vento todo o dia, o dia todo, e que embora assemelhe-se às locações de Sátántangó e Werckmeister Harmóniák e outros, este é o mais melancólico de todos. Aqui a salvação e o sagrado que parecia ser possível atingir já está perdido e profanado. Béla Tarr deixa bem claro para nós que ali é impossível a salvação, e nem mesmo esperança tem os personagens.

Uma atmosfera melancólica permeia uma obra de arte com primor visual

Um pai e uma filha, acordam, a filha busca água, comem uma batata, alimentam os animais, olham pela janela até a hora de dormir. Esse é todo o enredo do filme, com o qual Béla Tarr faz um trabalho simplesmente genial, utilizando-se da repetição ele cria uma rotina pesada, extremamente melancólica, para nos falar sobre esse fado da humanidade de viver dia após dia igual e ter consciência disso. A estrutura do filme é essa, repetida em seis dias, onde minimamente se mudam os acontecimentos, focando-se no corriqueiro e no cotidiano, o que muda é a perspectiva, que começa com o pai, e vai mudando para a filha, a água que vai acabando, e a batata que no começo é cozida, no fim termina crua. De uma beleza arrebatadora, O Cavalo de Turim tem imagens poderosas, e seu fotógrafo sabe como captar cada detalhe da pequena casa onde se passa todo o filme, quase nunca se passando lá fora, apenas para ir ao estábulo, todo o resto vemos como os personagens, através da janela central, é impossível sair dalí parece nos dizer Béla Tarr novamente, a câmera está como que presa lá também, e quando tentam ir embora por falta de água, eles vão, a câmera fica, apenas observamos eles irem no horizonte, mas também eles não conseguem, e por trás da janela vemos eles voltando.

Assim como todos seus personagens – salvo Valuska, de Werckmeister Harminiak, que o encantamento parece lhe salvar, um sentimento que não parece existir na grande maioria dos outros personagens – estes também estão fadados à derrota. Penso então na epígrafe sobre o cavalo que Nietzsche viu quando estava em Turim, e no cavalo daquela pequena família húngara, o pai repete o mesmo, e a filha tenta impedí-lo. Tendo o lado direito do corpo paralizado, depende de tudo para filha, até mesmo para se vestir, ele demonstra um sentimento a meu ver incerto quanto a filha, algo que se assemelha a ódio, mas com um fundo de vergonha, porque não pode mais ele mesmo trabalhar, passando de pai que é criado pela tradição de ser provedor, a se tornar quase filho sendo provido em tudo pela filha, talvez seja isso que lhe cause aquele sentimento. Quanto ao cavalo, não sei se esta é a forma de Béla Tarr de explicar o que leva o homem a agredir um animal indefeso, mas ao menos é o que me parece, não que justifique, mas as condições de vida do pai e da filha parecem mostrar o porque de um certo embrutecimento, da perda de uma sensibilidade típicamente humana, massacrada pela rotina diária, um difícil rotina. Porém como disse acima, isso não passa de uma hipótese, porém é a única ligação que vejo entre Nietzsche, o cavalo de Turim e o cavalo da família na Húngria.

Sobre o cavalo, Béla Tarr responde em uma entrevista “Quando o cavalo de alguém fica incapacitado para o trabalho, quando você perde seu cavalo, ao mesmo tempo, junto ao cavalo, você perderá sua vida, você perderá seu trabalho, você perderá sua vida. E conforme o cavalo vai ficando cada vez mais e mais fraco, sua vida enfraquece”, e podemos destacar aqui que o cavalo que Nietzsche protege é de um cocheiro, logo seu sustento, é sua ferramenta de trabalho, uma vez que o perdesse, perderia todo o resto, da mesma forma o cavalo da família também é a origem de seu sustento, é ele o meio de locomoção para a cidade, para se comprar alimentos, uma vez que ele se recusa a andar e é surrado para de comer e começa a definhar. Tarr continua “Mas este não é um apocalipse real, porque um apocalipse para mim é um grande show de TV, é uma grande atração. Mas na vida, quando se está envelhecendo, vai ficando silencioso e é um terrível processo. Era isso que eu queria dizer, mostrar”

Cena final carrega um significado especial para o filme

O Cavalo de Turim é um filme sobre o fim de tudo, mas medidas as proporções, Béla Tarr se limita a mostrar o drama intímo daquelas duas pessoas, tudo da forma mais sutil possível. Tanto que uma das ultimas cenas do filme é um lampião se apagando lentamente, representando o fim silencioso dos personagens. O filme é uma das expressões máximas do cinema contemporâneo, e uma sequência lógica da temática de Béla Tarr, se sua obra fosse uma ópera essa seria progressão para o ato final, um triste, porém soberbo final, retratando até mesmo a dor do fim de tudo com uma poesia que poucos conseguiram, e se este foi realmente o ultimo filme de Béla Tarr, então sua carreira se encerrou com perfeição.

*Gabriel Dominato é graduando em direito no Centro Universitário de Maringá e é redator do blog Avant, Cinema!

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