A Dupla Vida de Véronique (Krzysztof Kieslowski, 1991)

O encontro de opostos inconciliáveis: analisando A Dupla Vida de Véronique

Mágico e poético, A Dupla Vida de Véronique é um filme habilmente concebido de forma a ser escorregadio a teorias e explicações lógicas, que não conseguem se apoiar nele, tendo uma voz própria e única. Essa capacidade do diretor Krzystof Kieslowski de fazer filmes vagos, que se completam dentro dos espectadores, coloca seu nome dentre um dos mais influentes cineastas contemporâneos, que deixou uma das obras mais ricas e complexas com sua morte em 1995.

O filme de Kieslowski promove uma sensível experiência sensorial que deixa lacunas propositais em sua história e simbolismos, e que em momento algum pretende preenchê-las. O encanto do filme surge no mistério da vida dupla, que é lançado e não respondido, e nos silêncios, que revelam mais que diálogos. Deixando o sobrenatural de lado, impregna a realidade com magia, e a câmera capta a vida interior turbilhante de suas personagens.

Resumo do filme

Ele segue as vidas paralelas de duas jovens interpretadas por Irène Jacob: uma polonesa chamada Weronika, e uma francesa, Véronique. Apesar de não terem nenhuma ligação aparente, as duas são idênticas fisicamente, têm traços de personalidade iguais e parecem ter consciência uma da outra; como duplos uma da outra. Elas nunca se encontram, exceto por um breve momento fortuito através da janela de um ônibus em Cracóvia, momento esse que passa despercebido por Véronique, mas não para Weronika.

Weronika muda-se para a casa de sua tia e consegue entrar numa orquestra sinfônica devido ao seu talento como cantora. Reconcilia-se com um ex-namorado que encontra casualmente enquanto está no ônibus. Saindo de um dos testes de música, passa por uma praça de Cracóvia onde acontece um protesto violento. Um ônibus turístico está pra partir devido ao tumulto, e, dentre os turistas, Weronika encontra Véronique, que está tirando fotos e não a percebe. O ônibus parte e as duas não travam contato. Weronika começa a ter sinais de saúde debilitada e morre durante sua estreia na sinfônica, devido a um ataque cardíaco.

O filme passa então a acompanhar a vida de Véronique na França, que abandona suas aulas de canto, procura um cardiologista e tenta encontrar um novo caminho para sua vida. Ela diz ao seu pai que sente que algo lhe falta, mas não consegue identificar esse sentimento. Na escola onde trabalha conhece um titereiro escritor, chamado Alexandre Fabbri, que a conquista deixando pistas de suas obras literárias, num jogo poético de perseguição entre dois amantes. Com as pistas que ele deixa, Véronique o encontra e fica visivelmente desencantada com o final do suspense, mesmo com ela ciente o tempo todo de quem era seu admirador. Em seguida, ela parte e Fabbri a persegue. Encontram-se, hospedam-se num quarto de hotel e lá eles se perguntam o porquê da atração mútua.

Durante a conversa, Alexandre encontra fotos da viagem de Véronique à Polônia, dentre as quais está a foto de Weronika, que ela não havia notado antes. Ela então identifica sua sensação de perda, tomando consciência da existência de seu duplo e começa a chorar, enquanto ele se põe a fazer amor com ela. Ao final, fascinado com sua dupla vida, Fabbri cria uma história sobre Véronique e seu duplo, que é fiel à história real, mesmo sem ele saber qual é a verdade. Ela parte em silêncio e volta à casa do pai, pois agora ela pode explicar seu sentimento antes desconhecido.

Uma cena de desenvolvimento das personagens é protagonizada por uma senhora idosa, que serve como forma de ilustrar a relação das personagens com a velhice e morte: essa velha aparece em dois momentos do filme, na vida de cada uma das mulheres, e cada uma reage de uma forma[1]. Ambas a vêem pela janela; Weronika tenta conversar com a senhora, enquanto Véronique a deixa passar sem chamar sua atenção. Supõe-se que Weronika é aberta a novidades, ao inesperado, e sua atitude ao chamar a atenção da velha insinua a interpretação que ela não tem medo do que o futuro lhe reserva. Dessa forma, Weronika se revela uma pessoa mais livre e consciente do futuro, ao passo que Véronique deixa a velha passar quieta, apenas admirando-a, demonstrando uma característica mais tarde explicitada pelo titereiro: ela não experimenta coisas, ela tem consciência do que é ruim e se reserva devido à ligação com Weronika.

Weronika é uma alma mais livre, mais impetuosa e que experimenta as coisas. Através da ligação de ambas, Véronique sente as conseqüências das experiências sem passar por elas, deixando-a precavida em relação ao que pode acontecer, mas não as vivendo de fato. Desta maneira, Véronique se sente incompleta sem Weronika, mas, com sua morte, ela está livre para viver uma vida plena e com experiências próprias.

A mise-en-scène

Objetos imbuídos de grande carga emocional são comuns às duas – como uma bolinha transparente que possuem – e também gestuais únicos, como acariciar os cílios com um anel. Gestos tão únicos e misteriosos divididos por duas mulheres diferentes, porém iguais. Essas peculiaridades que ambas compartilham faz parte do grande mistério do filme: Véronique e Weronika seriam a mesma pessoa, almas gêmeas separadas, duas vidas alternativas do mesmo indivíduo compartilhando o mesmo tempo e espaço? Isso não importa para Kieslowski, que se preocupa em tirar o poético dessas ocasiões que só podem ser concebidas na esfera das artes.

O diretor do filme surge como figura divina, uma vez que essas vidas duplas e interligadas, e que cada uma segue à sua própria maneira, só poderia ser desenvolvida e concebida no próprio cinema, com o uso hábil do dispositivo cinematográfico. Nos filmes de Kieslowski é possível sentir a presença de uma força maior que controla os destinos dos personagens. Essa força, que não é opressiva, porém paternal, pode ser interpretada como a própria presença do diretor. Dentro do filme, ele seria bem representado pelo titereiro, que guia os passos de Véronique até ele próprio.

A Dupla Vida de Véronique proporciona o encontro das antíteses, a união entre opostos aparentemente inconciliáveis, em diversos momentos. A cena da descoberta da foto de Weronika mostra o encontro entre a dor da falta e o prazer da identificação do sentimento. Em seguida, Véronique relutantemente cede ao sexo com Fabbri, proporcionando a união em cena da realização espiritual com a realização carnal. A morte de Weronika durante a realização plena da música que tanto lhe dá prazer pessoal também é característico desses encontros impossíveis, assim como a cena final, na qual Véronique volta para a casa do pai e seu encontro com ele é simbolizado pelo toque dela na árvore; ela volta às suas raízes, agora ciente de sua transcendência, simbolizada pelo céu.

De forma mais sutil, o encontro de opostos é representado também no uso dos quatro elementos da Antigüidade: água, fogo, ar e terra. Como já foi dito da cena final, ar e terra são postos lado a lado quando ocorre o encontro do que eles simbolizam; o céu representa a transcendência, enquanto a terra, representada pela árvore e a madeira trabalhada pelo pai, surge como a materialidade. E no início do filme, Weronika toma chuva enquanto acaba a canção do coral, que cantava a céu aberto, e sai correndo. Quando encontra seu amante e fazem amor, é possível ver o vapor saindo de seus cabelos.

O filme apresenta uma sensorialidade apelativa, num jogo cênico que insinua o uso de outros sentidos no ato de assistir ao filme além da visão e audição; insinuações ao olfato aparecem no momento em que o pai de Véronique pede para ela sentir seu perfume novo e ela o prova no nariz dele, numa cena aconchegante e carinhosa; o uso de tecidos texturizados, como renda, e a atenção dedicada pela câmera ao toque constante das personagens nos cenários e sua interação com objetos cênicos remetem ao tato. Já os sentidos de uso constante do espectador para um filme – visão e audição – são agraciados com uma fotografia belíssima em tons dourados e a música original do filme remete às grandes obras sinfônicas clássicas. Tudo conspirando para uma experiência sensorial como pouco se testemunha no cinema.

A virtualidade

Kieslowski já usou ideia semelhante ao explorar possíveis caminhos na vida de uma pessoa, em seu filme polonês Sorte Cega, que mostra três possibilidades da vida de um homem diante de um momento banal: a corrida atrás de um trem. Em uma das possibilidades, ele pega o trem, conhece um comunista e se torna um ativista. Em outra variação ele tromba com um guarda e é preso. Por último, ele perde o trem e conhece uma mulher, com a qual passa a levar uma vida tranqüila. Ideia semelhante é desenvolvida em filmes recentes, como Corra, Lola, Corra, O Advogado do Diabo, Femme Fatale, Feitiço do Tempo, entre outros.

Outro filme de Kieslowski que também lida com a questão de vidas duplas é A Fraternidade É Vermelha, no qual um juiz conta sua história a uma modelo e, durante o filme, vemos os mesmos eventos acontecerem na vida de outra pessoa, no tempo presente. Parece ser os mesmos personagens em diferentes momentos na linha temporal, em uma revisão do tema de A Dupla Vida de Véronique.

Kieslowski antecipa um tema que se torna recorrente no cinema mais recente, o da virtualidade, no qual várias possibilidades de uma vida se tornam possíveis. Esse assunto se encontra em voga devido ao advento da informática e dos jogos, nos quais vida e morte se tornam start e game over, numa possibilidade contínua de voltar ao momento da morte e tentar o sucesso mais uma vez.

Sentimento sobre razão

A cena onde Véronique encontra seu pai que acabou de sair do banho, enrolado em uma toalha e pede para sentir seu perfume é uma cena que simboliza a forma livre do filme, de não se prender a teorias. Com uma leitura psicanalítica do filme, é possível fazer uma interpretação erótica entre a figura de pai e filha, uma representação do complexo de Electra quase explícita. No entanto, essa visão não parece se encaixar quando pensamos no quadro total tecido pelo filme, uma história poética e sensível que é forte e persistente, que não se abala com a frieza de uma leitura psicológica ou teórica.

O filme é feito com poucos diálogos e o histórico das personagens é sempre sugerido através de frases vagas, nunca explicado minuciosamente. Essas lacunas deixam espaço aberto para a imaginação do espectador e também à sensorialidade do filme, uma vez que ao ser praticamente não-verbal, é também não mental, requerendo menos da lógica do espectador e permitindo que ele se abra para novas experiências fílmicas.

O filme de Kieslowski lida com o tema da morte real e simbólica, a transformação radical que surge a partir da possibilidade da morte. Ele desdobra a personagem para tratar da questão do duplo. Kieslowski utiliza a virtualidade permitida pelo dispositivo cinematográfico para abrir um leque de possibilidades.

Levando em conta a teoria animista, que considera a alma simultaneamente princípio de vida orgânica e psíquica, e que a origem da noção de alma está nas experiências do adormecimento, da doença, da morte e, sobretudo, dos sonhos, que levam a imaginar a existência de um duplo insubstancial do corpo, Kieslowski cria um filme sensorial, com alma e vida próprias, no qual teorias cinematográficas não conseguem se apoiar consistentemente e exibe a união das antíteses e uma série de encontros “impossíveis” entre opostos incompatíveis: dor e prazer, transcendência e materialidade, morte e vida.

Roger Mestriner é mestrando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).


[1] Essa cena com a senhora idosa também remete também aos filmes seguintes de Kieslowski – A Liberdade é Azul, A Igualdade É Branca e A Fraternidade é Vermelha – onde uma senhora idosa tenta colocar uma garrafa no lixo reciclável e os personagens testemunham seu esforço. Apenas em A Fraternidade é Vermelha a senhora é auxiliada.

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9 Comentários para: “A Dupla Vida de Véronique (Krzysztof Kieslowski, 1991)

  1. Belo filme, e ótima análise. Nesses tempos de pequenas resenhistas metidos a crítico. Ler essa sua análise faz-me ver que existe salvação na critica cinematográfica.

  2. Acabei de  assistir  ao filme,  em  um  cinema  de  arte.  As  poucas  pessoas  que  lá  estavam  me  perguntaram,  ao  final , se  eu  “havia  entendido”.  Fiquei  surpresa,  disse-lhes  que  o  filme  é  para  sentir,  não  para  entender.  É  lindíssimo.  Abri  agora  o  Google   querendo  ver  algum  comentário.  E  a  análise  que  acabo  de  ler   completa  perfeitamente  as  minhas  lacunas. è  perfeita.  Marly.

  3. Assisti a este filme ontem com um grupo de amigos. 
    O comentario acima parece ter colocado todos os comentarios nossos juntos e ainda outros pontos que deve estar passando hoje pela cabeca de alguns. O filme é maravilhoso e entra para o meu rol dos melhores filmes que já vi. Cinema como a arte maior!

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