O Escritor Fantasma (Roman Polanski, 2010)

 “Eu me sinto como a esposa de Napoleão em Santa Helena”, diz Ruth (Olivia Williams), a mulher do político Adam Lang (Pierce Brosnan), ao escritor fantasma do título (Ewan McGregor), em uma ilha isolada e tétrica da costa leste americana onde o ex-primeiro ministro Lang se estabeleceu. São os sentimentos que vão permear todo o filme: o isolamento, a inquietude, a paranóia. Roman Polanski, em que pese o fato de colecionar polêmicas dentro e fora de seu âmbito profissional, é indubitavelmente um grande diretor, por ter conseguido construir uma carreira sólida, e ao mesmo tempo versátil, na medida em que transitou bem tanto por filmes autorais (como Repulsa ao Sexo e Cul-de-Sac) como por exemplares mais voltados ao grande público (como o clássico Chinatown e o mais recente O pianista) – embora tenha sido mais bem sucedido no primeiro caso. Este O Escritor Fantasma é uma experiência intrigante e extremamente bem vinda, pois é um exemplar dessa versatilidade. Ao mesmo tempo em que compõe um thriller como poucos, é também um bom exercício de reflexão sobre a era Bush em seus piores excessos. As referências a Tony Blair, Bill Clinton, George W. Bush, Condoleezza Rice, a companhia Halliburton, etc. estão claras – há detalhes prontos para nos lembrar deles, desde o próprio Lang, que é uma caricatura de Tony Blair, até o título da autobiografia “My Life”, remetendo a Clinton. Entretanto, o clima que se estabelece durante o longa é o mais importante referencial de uma época não muito distante em que tenebrosas transações eram feitas a pretexto de uma guerra um tanto quanto abstrata, a “guerra ao terror”, que perdura até os dias de hoje.

A partir de um roteiro escrito pelo próprio Polanski e por Robert Harris, o autor do livro que deu origem a este filme, somos apresentados a um ghost writer contratado para completar um trabalho inacabado. Tendo uma boa reputação no ramo, ele é indicado por seu agente para um serviço que, ao mesmo tempo em que oferece um pagamento fabuloso, o envolve em uma trama um tanto quanto complexa. Trata-se da biografia do ex-primeiro ministro britânico Adam Lang, que não teve uma administração exatamente popular dentre seus conterrâneos. O fato de que o antecessor na escrita morreu em circunstâncias misteriosas também contribui com a perspectiva soturna que envolve o projeto, no qual o protagonista se prende gradualmente a cada novo detalhe que é apresentado.

Em planos ora fechados, ora abertos demais, fica difícil se sentir confortável. As cores estão completamente frias e dessaturadas; a chuva torna-se constante à medida que os fatos se revelam; há sempre alguma portaria ou chancela ocupada por vigias não muito amigáveis a todo lugar a que se vai; revistas de segurança são feitas com freqüência; pessoas sempre espreitando ou perseguindo o protagonista. Tome-se como exemplo a cena em que o escritor e Ruth caminham pela praia, no que era para ser uma breve conversa em passeio despreocupado para conhecer os arredores. Polanski fecha nas faces de McGregor e Williams, deixando o guarda-costas ao fundo entre os dois, sem jamais desaparecer. Ou então os inúmeros procedimentos de segurança a que o escritor é submetido – e o espectador junto com ele – em praticamente todos os lugares. Tudo isso constrói uma realidade por vezes opressiva, além de uma atmosfera de tensão e medo, onde a sensação de que algo está errado é constante.

O escritor vivido com eficiência por Ewan McGregor apresenta as características de um fantasma. A começar pelo fato de que seu nome não é revelado, nem mesmo Lang sabe seu nome. Em seguida, temos o fato de que ele ocupa o lugar de alguém que já morreu. O sujeito não tem família, amigos ou relacionamento afetivo, aparentando dedicar-se inteiramente ao trabalho de ghost writer. Sua casa desorganizada revela que o morador não se preocupa muito com o lugar. Em suma, alguém que não é, como se não existisse, e que não pertence a lugar algum. Isto não impede que o roteiro apresente-o como alguém espirituoso, com um humor ácido e auto-depreciativo, o que faz com que o interesse pelo personagem se mantenha. Pierce Brosnan também convence como o político Adam Lang. Em que pese algum excesso aqui e ali, seu ex-primeiro ministro é uma caricatura válida dos políticos inescrupulosos desses dias. Vale citar também a ótima presença de Tom Wilkinson como o professor Paul Emmett, uma figura de aspecto polido e fala suave, mas que tem algo de ameaçador, como se houvesse uma explosão latente, pronta a aparecer de súbito. Uma breve – mas memorável – aparição fica por conta de Eli Wallach, de Três homens em conflito, hoje com mais de 90 anos, em um papel inegavelmente interessante.

Em suma, tem-se um filme primorosamente construído por um diretor que sabe exatamente onde caminha ao apresentar uma parábola de nossos atribulados tempos, em que o medo – e o excesso de medidas de segurança em vários níveis, que dele decorrem – se tornou praticamente um lugar-comum. O desfecho do filme aponta exatamente este posicionamento, na medida em que mostra Lang sendo consumido pela própria atmosfera que ajudou a criar. Tem-se a representação de Adam Lang como símbolo maior dos atuais líderes mundiais, que parecem ocupar seus respectivos cargos em prol apenas de seus interesses e das agendas de seus associados. Ou, sob outro ponto de vista, tem-se um suspense de luxo, assinado por um realizador que já figura dentre os maiores, goste-se dele ou não.

Trailer:

Arthur Souza Lobo Guzzo é graduado em Comunicação Social pela PUC-Campinas e em Ciências Sociais pela Unicamp.

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