O Estrangeiro (Luchino Visconti, 1967)

*Por Thiago Consiglio

O Estrangeiro, livro escrito originalmente pelo francês Albert Camus, lançado em 1942, conta a história de Mersault, um homem condenado por um assassinato. De início, as linhas gerais aparentam uma história comum, mas os temas de Camus vão além. O que encontramos na profundidade da leitura é a Filosofia do Absurdo, conceito que permeará todas as obras (literárias, teatrais e filosóficas) de Camus.

Levando em consideração essa complexidade, Luchino Visconti teve bastante trabalho para realizar cinematograficamente esta obra. Uma adaptação pode, além de recontar a história, interpretar o que já foi dito e apresentar com uma nova visão diferenciada. Aí estaria a possibilidade de se construir uma boa adaptação, que transcende sua origem.

É o que o diretor realiza por exemplo através da coesão entre diversas técnicas como direção de arte e fotografia. Assim, ele apresenta sua visão, como por exemplo mostrando a constante presença do suor na pele dos personagens, tornando o fator climático do calor, muito mais pesado.

Por outro lado, o filme aprimora informações apresentadas pelo livro. Com outro exemplo, percebemos que a direção de arte se preparou para recriar as condições dos anos 40 da Argélia (onde a história original se passa), mas com a fotografia, Visconti preferiu de forma geral, usar planos mais fechados para dar ênfase nos personagens, na ação específica e, principalmente, nas falas. Na realização das cenas e dos diálogos, tem-se aí talvez uma outra escolha deliberada do diretor: a preservação das ideias de Camus. Neste quesito, a adaptação foi fiel ao livro.

Mas como mencionado, uma boa adaptação transcende sua origem. Assim, a trilha sonora, que encontramos pontualmente em algumas cenas, tem um papel interessante de contribuir para uma imersão que o cinema pode se propor. Esse é um elemento que o diretor escolheu e que nos causa uma certa sensação de “estranheza”. Isso se relaciona com a visão filosófica de Camus em que o protagonista se sente não-pertencente ao local – um estranho – e ainda mais, se sente estranho à própria realidade.

Quem interpreta o protagonista Mersault é Marcello Mastroianni. Com sua atuação consegue expressar um grande leque, desde a apatia (constante na história) até o medo quando a narrativa progride. Mas existe um porém, não podemos deixar de levar em consideração o peso que a figura de Mastroianni carrega consigo. O ator estava cercado pelos meios de comunicação que o tornaram uma celebridade nos anos 60. Por mais que ele já tenha feito magistralmente o papel do “homem comum” como, por exemplo, em A Doce Vida (Federico Fellin, 1960), agora ele ficou marcado como galã na indústria do entretenimento, longe do que o protagonista desta obra seria.

Outro descompasso em relação ao livro é a sequência final. Quando o protagonista aguarda a pena de morte e discute com o padre, na obra escrita, ela é memorável porque o que mais pesa é a força das palavras que o autor evoca: a filosofia absurdista. Já no filme, ela não alcança todo o seu potencial ao não procurar utilizar dos recursos audiovisuais para uma total imersão da obra. No filme acabamos com a impressão de que o protagonista – apesar de ser inicialmente uma incógnita em ambas as obras – é ao final, alguém com um problema reprimido e que conseguiu extravasar através daquela relação de agonia e medo da morte.

Já se voltarmos à obra original, a força do texto evoca outras sensações. A visão de mundo de Albert Camus é a do absurdo: a de que o mundo e o universo são indiferentes a nós e que encarar a ausência de Deus e de uma relação de troca com o universo é lidar com o nada. E o que Camus se propõe a partir disso é que cada um construa sua proposta existencial, que encontre seus significados para a vida e não sucumba ao niilismo. É uma constante superação e transcendência desses valores.

Por fim, o que vemos nesta obra cinematográfica é que ela contém, em níveis diferentes, as ideias que estão intrínsecas no livro, coisa que o diretor soube realizar muito bem. Por exemplo, a discussão interna do personagem com suas ideias, realizada através da voz em off é um recurso que nos faz “adentrar” em sua mente. Mas no cinema, além disso, existem outros elementos como trilha sonora, fotografia, etc., todos citados anteriormente e que realizam uma profunda imersão que vai além da intelectualidade para encontrar também o campo do sensível. No caso de O Estrangeiro, ficamos mais próximos da intelectualidade.

*Thiago Consiglio é jornalista (MTB 72991/SP) e participou da realização e produção de curtas-metragens

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