O Exorcista (William Friedkin, 1973)

O Exorcista e seu inimigo oculto

Por Carine Lorensi*

Na linha dos filmes que abordavam o estilo paranoico ou sobrenatural que adentraram os anos 70, está o filme O Exorcista que teve sua estreia em 1973 e se tornou um dos maiores clássicos dos filmes de terror de todos os tempos. Com seu teor oculto e sua essência sombria, o filme fez com que o inimigo oculto se tornasse o centro das atenções ao implantar o medo e o horror em um ambiente familiar no qual os membros eram desprovidos de crenças. O filme foi aclamado pela crítica e pelas especulações na época por apresentar a fé e a heresia caminhando lado a lado e esboçando o conflito entre fenômenos invisíveis. Outro fator que contribuiu para o sucesso grandioso do longa foram os registros dos efeitos especiais que, mesmo de maneira experimental, foram pertinentes em relação à diegese, o que rendeu aos produtores não só o prestígio de uma grande produção cinematográfica, mas também serviu para registrar sua marca no cinema mundial.

O filme, do gênero de terror, teve a direção de William Friedkin. O roteiro foi de William Peter Blatty, baseado em seu livro homônimo, cuja história teve inspiração em um exorcismo, ocorrido anos antes, com um garoto de 14 anos. Diretor e roteirista uniram-se para realização do longa na tentativa de também despertar no público a visão dos contrapontos da fé existente por trás da religiosidade. Ao mesmo tempo em que o filme nos comove ao assistirmos uma menina de 12 anos sendo vítima da possessão demoníaca, também nos impressiona ao percebermos que a trama proporcionou interpretações fantásticas dos atores. O elenco selecionado era praticamente de estreantes, como Linda Blair, que estava em seu terceiro trabalho no cinema, Jason Miller, que nunca havia participado de um filme antes, e Ellen Bursty que, apesar de já ter feito longas antes, nunca teve um papel principal em sua filmografia. O fato de o elenco ser praticamente debutante mostrou relações com a espontaneidade da interpretação de cada um e simultaneamente fez com que a narrativa fílmica fosse tão estreante quanto eles próprios.

O ano é 1973 e o pano de fundo que permeia o filme são as reviravoltas em torno das questões políticas e sociais, bem como de protestos civis que buscavam os seus direitos em uma sociedade em crise, situações que afloravam os EUA naquele período. Com isso, a narrativa fílmica deixou evidente que o tema de que se tratava sua diegese, encaminhou tais discussões sociais para um plano secundário, desviando a atenção que  estava voltada para a realidade e adentrando no mundo do sobrenatural.

Regan, com os primeiros sintomas, escuta a conversa de sua mãe

Na cidade de Georgetown, Chris MacNeil (Ellen Burstyn) começa a perceber mudanças no comportamento de sua filha de 12 anos, Regan MacNeil (Linda Blair). Chris acredita, em primeira instância, que as mudanças súbitas em Reagan teriam relações com a puberdade da menina. Os médicos, por sua vez, alertam para uma possível lesão cerebral, porém, após submeter à filha a exames, não se constata nada de anormalidade. No entanto, as reações estranhas continuam acontecendo com maior freqüência em Regan e os médicos então indicam a procura de ajuda psiquiátrica para sua filha. Mais adiante, quando Chris percebe que não obteve sucesso com os recursos da medicina, ela apela para a ajuda espiritual, indicada por um dos médicos que sugere a ajuda de um padre para execução de um exorcismo em Regan, na medida em que acreditam se tratar de possessão demoníaca. Chris busca a ajuda de um padre chamado Karras, uma vez que ele, além de ser padre, também é psiquiatra. Karras supõe inicialmente se tratar de uma psicose, porém, ao tomar maior conhecimento dos fatos, passa a se certificar de que poderia ser um caso de possessão pelo espírito maligno conhecido pelos exorcistas como Pazuzu, originado da mitologia Mesopotâmica. Assim, decide pedir auxílio ao padre Merrin (Max Von Sydow), experiente em exorcismos, que vem de Washington para ajudá-lo. No início da perturbação maligna, a menina apresenta um comportamento estranho em casa, como, por exemplo, urinar em frente aos convidados na sala de estar, chegando até mesmo a agredir sua mãe no quarto usando de seus poderes sobrenaturais. Na medida em que Regan se torna cada vez mais passível da possessão de Pazuzu, seu corpo apresenta, gradativamente, os sinais devastadores do domínio espiritual. Durante as sessões de exorcismo, se instaura um conflito entre Pazuzu e o padre Karras, pois o espírito tinha por mérito se apossar de corpos hereges (como no caso de Regan) e padre Karras se encontrava desviado da fé desde o momento em que passou a lidar com a doença terminal de sua mãe, situação que lhe fez questionar a existência de Deus. Há um momento no filme em que o espírito, na intenção de provocar o padre herege, não só imita a voz como também faz com que surja na cama de Regan a imagem da mãe de Karras.

O cenário gélido e escuro do quarto fez da cena do exorcismo da menina ser uma das mais assustadoras e tensas do filme, pois a penumbra do cenário se somou às atitudes do espírito possuidor que maltrata o corpo de Regan, cospe nos padres, blasfema com uso de palavras obscenas e até mesmo masturba-se com o uso de um crucifixo, nos apresentando o sofrimento da menina através de sua fisionomia cada vez mais esfacelada.

Outro momento de grande tensão é quando o ambiente do exorcismo silencia e vemos o corpo de Regan, aos poucos, levitar da cama. Esta cena nos faz acreditar, na possibilidade de um triunfo do mal.

A constante provocação feita por Pazuzu aos dois padres causa um infarto em Merrin, o que irrita profundamente Karras, levando-o a desafiar o espírito para que deixasse o corpo da menina e se possuísse do seu. Neste instante, o espírito transita ora no corpo de Regan ora no corpo de Karras e, por fim, faz com que o padre cometa suicídio jogando-se pela janela do quarto. Este ato de suicídio nos induz a compreender que a fé foi provada de forma catastrófica, pois o espírito maligno sabia da falta de fé existente no padre Karras. Por fim, Karras aparece deitado sobre a calçada recebendo a extrema unção e enquanto isso no quarto, Regan está recuperada, livre do domínio do espírito que a possuía e sem se lembrar de nada que lhe ocorreu.

O Exorcista recebeu 10 indicações ao Oscar, incluindo a de melhor diretor e a de melhor filme, levando a estatueta de melhor som e de melhor roteiro adaptado. O longa de William Friedkin não venceu como melhor filme, mas deixou seus rastros através dos tempos com suas sequências: O Exorcista II – O Herege (1977), O Exorcista III (1990) e O Exorcista – O Início (2004), porém a menção que se agrega sobre o primeiro filme ainda serve de modelo para os que vieram depois.

Analisando pelos parâmetros de efeitos, da diegese, interpretações e do cenário, é possível compreender a razão pela qual O Exorcista foi o filme do gênero de terror que mais recebeu indicações ao Oscar, assim como é considerado o filme mais aterrorizante de todos os tempos, deixando claro que o sucesso de bilheteria se explica pela exploração do conflito espiritual instaurado na narrativa fílmica e que, de certa maneira, incita a curiosidade do espectador. Mesmo àqueles que não acreditam na existência de confrontos entre forças espirituais tiveram suas opiniões desafiadas pelos recursos cinematográficos por meio da trama fílmica, que coloca em pauta os preceitos e os caminhos da fé e por meio das imagens impressionantes, que são capazes de atormentar qualquer ser incrédulo. Ao induzir esse impacto no espectador o filme faz com que se formulem opiniões e discussões a respeito do que foi apresentado.

E assim sendo, a ótica do espectador, cético ou não, presencia no filme o conflito espiritual somado ao impressionante efeito de maquiagem que a arte cinematográfica já produziu e que de certa maneira, se tornou uma marca registrada dentro dos filmes do mesmo gênero: o rosto angelical de Regan MacNeil transformada na face mais horripilante já vista pelo cinema mundial.

*Carine Lorensi é graduanda de Letras Português Bacharelado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

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7 Comentários para: “O Exorcista (William Friedkin, 1973)

  1. Sempre que posso leio suas resenhas aqui. Sempre muito bem escritas e com requinte de vocabulário. Fica claro, em suas postagens, que há a necessidade de uma boa pesquisa para se ter uma resenha interessante sobre determinado filme e você faz isso muito bem.

    Agora, falando neste filme, é, sem dúvida, o maior clássico do terror comercial, digamos. Hoje o tema já está bastante batido, mas na época em que foi lançado O Exorcista foi a novidade mais assustadora que se teve. Parabéns.

  2. realmente esse filme é incrivel e profundo, imaginemos o verdadeiro horror, aquele de perder a única pessoa que você tem porque você decidiu acreditar em Deus. Aquele de ver a sua filha pequena sofrer de uma doença incompreensível, que lhe tira a vida pouco a pouco. Imagine um demônio que põe o medo nos corações dos homens, um monstro que consome a alma das pessoas, ao invés de seus corpos. Desta forma, podemos ver por que O Exorcista é, de fato, um filme que aguça nossa visão. O filme tambem é poderoso por causa dos detalhes, cada cena do filme tem um siginificado. O MELHOR FILME DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS

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