O Lençol Branco (Marco Dutra e Juliana Rojas, USP, 2002)

Por Vinicius Gobatto

Nessa edição, o curta-metragem abordado é O Lençol Branco, Trabalho de Conclusão de Curso dirigido por Marco Dutra e Juliana Rojas, da Universidade de São Paulo, os mesmos diretores de Trabalhar Cansa. O curta recebeu diversos prêmios e a RUA, em dezembro, traz uma entrevista exclusiva com Marco Dutra.

RUA: Qual contexto universitário envolveu a realização de O Lençol Branco?

MARCO DUTRA: A gente fazia cinema na USP, a gente precisava fazer o TCC e eu e a Juliana, que já tínhamos parceria em outros filmes,  resolvemos apresentar juntos o projeto. Fomos escrevendo o roteiro em aula, ao longo do semestre da aula de roteiro e, por fim, tivemos que fazer um pitching, apresentar o projeto para os professores e só os aprovados seriam filmados. O nosso foi aprovado e filmaríamos no primeiro semestre de 2002. A equipe tinha que ser basicamente formada por alunos da turma. Então, o fotógrafo era da turma, o assistente de direção era da turma, a produtora era da turma, as pessoas que trabalhavam eram todas pessoas da turma. Eu e a Juliana íamos co-dirigir, e queríamos oferecer o papel para uma atriz que a gente tinha visto numa peça, que é a Clarissa Kiste. Convidamos ela, ela adorou o roteiro e topou fazer, e os outros atores a gente foi conhecendo ao longo do tempo, através de pessoas que foram nos apresentando possibilidades para os outros papéis. Foi o terceiro TCC da minha turma que foi filmado em 2002: a gente filmou 6 TCC’s na minha turma, e o nosso foi o terceiro que foi filmado, mais ou menos no meio do ano em 2002. Levou dois anos pra ficar pronto porque tinha problema de falta de recurso.

RUA: O Lençol Branco desenvolve uma história bastante triste em torno da temática delicada da morte, com um final incomum. Como foi elaborar esse drama? A reação do público foi a esperada?

MD: Foi, acho que foi. A gente não pensa muito na reação do público, na verdade, eu e a Juliana sempre ficamos com em dúvidas sobre o que as pessoas vão achar quando a gente vai lançar o filme. O que aconteceu é que a reação foi muito boa quando ele passou. No primeiro lugar que ele passou, no festival do Rio, a reação foi muito boa, tanto que a gente ganhou até um prêmio com o filme, logo no primeiro festival. Tem pessoas que não gostam do filme, que acham pesado demais, que é gratuito demais, porque tem um bebê que morre. Um bebê que morre sempre vai ser um assunto duro,  não tem jeito de tratar esse assunto com leveza. Essa coisa de ter o bebê morto, ainda por cima morto pela própria mãe, era uma coisa que para muitas pessoas era algo indigesto, mas para a maioria do público parecia que funcionava, porque, no fim das contas, apesar da violência, é uma história delicada.

RUA: Vocês não tiveram nenhum receio em fazer isso?

MD: Não, porque quando fomos fazer o TCC, falamos: “vamos fazer um filme de terror!” Nosso primeiro objetivo era esse, fazer um TCC de terror. Foi a Juliana que veio contar essa história que uma amiga da empregada dela tinha vivido. Essa amiga havia sufocado acidentalmente o bebê e tinha que ficar convivendo por muito tempo com o corpo até a polícia chegar para pegar.  Daria pra fazer um filme de terror calcado nisso, só que a gente não sabia no que ia dar.
Aí fomos escrevendo e escrevendo, até que deu um roteiro que não era exatamente um filme de terror, era um filme mais ambíguo, com um gênero mais ambíguo. O objetivo era esse, a gente sabia que ia ser pesado de alguma forma, algum peso ia ter, alguma morbidez ia ter, era parte do objetivo de fazer um filme de horror. Eu e a Juliana não nos chocamos e nem ficamos ofendidos por filmes de horror, por histórias sombrias, por violência no cinema. É uma coisa do nosso gosto, assim como tem pessoas que não são afetadas pelo flme, o que é normal, mas a gente sabia que estávamos trabalhando dentro de um gênero e não estávamos preocupados em agradar ninguém.


RUA: O curta ganhou o prêmio de “Destaque em Expressão Poética” no Festival Brasileiro de Cinema Universitário, no ano de 2004. Como foi o processo dos atores e da equipe técnica em desenvolver essa expressão?

MD: Então, na verdade a gente gosta de discutir. A gente escreve, discute muito quando estamos escrevendo, mas quando terminamos o roteiro, eu e a Juliana conversamos muito com a equipe sobre o roteiro e com os atores. A gente não tem um método específico, o que fazemos é meio que uma análise bem aprofundada do roteiro, cena a cena, detalhe por detalhe, para que todo mundo fique totalmente em sintonia com o tipo de tom e com o tipo de história que a gente está querendo contar. A gente discutiu muito com a equipe como seria, por exemplo, a fotografia do filme. O filme se passa entre a sala e a cozinha. A sala é um lugar mais sombrio, que é onde está o bebe morto, e a cozinha é um lugar mais claro e mais seguro. Como a fotografia pode responder a isso, entre a cozinha ser mais clara e a sala ser mais assustadora? Quanto ao som, por exemplo, tem uma TV ligada no filme. A gente não usa trilha sonora musical, na verdade, a gente pensou que o som dessa TV poderia ser uma espécie de comentário sonoro em relação ao que está acontecendo. Isso faz parte da linguagem, e acho que é uma coisa do conceito de som muito importante. A personagem da Clarissa, a mãe que mata o bebê, é uma personagem que a gente imaginava que estava vivendo uma depressão pós parto. Como a personagem lida com o fato de que ela, na verdade, não está conseguindo amar aquele bebe? A gente discutia muito isso. Como ela se sente culpada pelo fato dela ter feito uma coisa tão triste com um filho dela? Enfim, o fato é que a gente discutia todos os aspectos do filme pra todo mundo estar em sintonia, e a equipe, de fato, entrou em sintonia. Foi muito prazeroso, é um filme que até hoje eu tenho carinho, até hoje acho um dos melhores curtas que eu dirigi, apesar de ter sido o primeiro. O primeiro em película, pelo menos.
Eu acho que o resultado ter ficado bom é uma consequência da equipe ter, de fato, abraçado essa sintonia, assim como  o elenco.

RUA: A história esteve na seleção da Mostra Cinéfondation no Festival de Cannes em 2004. Quais resultados esse e os posteriores destaques trouxeram para sua vida profissional?

MD: Cannes é um festival ótimo para os filmes, porque apesar de ele ser um festival muito grande, comercial, que tem mercado, que as pessoas estão preocupadas em vender e comprar os filmes, ele é um festival em que a curadoria se importa muito com a qualidade da seleção. Então, um filme ser selecionado (e não quer dizer que só bons filmes são selecionados ou só obras primas, isso depende muito do gosto do público), quer dizer que ele passou por um crivo muito sério. Quando O Lençol Branco entrou, a gente ficou muito feliz, falamos “nossa, tem alguma coisa muito especial no filme pra receber esse convite”.  Lá a gente foi muito bem tratado e o filme foi visto por uma platéia calorosa. Enfim, é um festival muito especial e a gente aprendeu muito.
Agora, isso também aconteceu em alguns outros festivais, por exemplo  o Festival Universitário no Rio de Janeiro, que é muito bom também e a platéia também é muito atenta. Foi muito prazeroso e a gente aprendeu muito nesse festival. A diferença de Cannes, eu acho, é que tem essa coisa mercadológica. Cannes é meio que um selo de qualidade reconhecido no mundo inteiro, e é óbvio que isso faz diferença. Isso ajudou um pouco no nosso currículo, na verdade. A gente não se importa muito com selos, com grife. Isso não faz nenhum sentido pra gente, mas sabemos que o fato de o filme ter sido selecionado meio que dá um status pra ele, ajuda a gente a desenvolver os projetos seguintes, não ignoramos isso. Agora, o legal mesmo, a parte que nos dá prazer, é a gente exibir o filme pra uma platéia legal, e isso Cannes tem, assim como outros festivais.

RUA: O Lençol Branco, assim como outros dos seus projetos, foi dirigido conjuntamente com Juliana Rojas. Quais os desafios e benefícios de uma direção dupla?

MD: É muito bom. Eu dirijo com a Juliana até hoje. Como, por exemplo, o Trabalhar Cansa. O bom é que apesar de levar mais tempo, porque você tem que encontrar a sintonia do outro, você compartilha tudo. Se você tem uma dúvida, tem alguém do seu lado o tempo todo pra você compartilhar, e isso é bom porque alivia a dificuldade que é criar. O fato de a gente sempre poder contar um com o outro e também o fato de você ter uma idéia e ter que passar pelo crivo do outro faz com que a idéia crie “músculo”. Para o outro aceitar a idéia que você teve, você tem que saber defender ela muito bem, e isso faz você aprender muito em relação às suas próprias idéias. Eu gosto muito de trabalhar em parceria, é uma coisa que eu quero continuar fazendo.

RUA: Como foi a transição de trabalhar com curtas-metragens, como O Lençol Branco, para longas-metragens, como Trabalhar Cansa?

MD: Acho que a grande diferença é a duração da filmagem, porque em um curta você filma cinco dias e num longa você filma durante cinco semanas. É óbvio que seu corpo sente o esgotamento quando você vai trabalhando seis dias por semana, doze horas numa situação de agito, que você tem que se manter ágil o tempo todo. Então, tem uma dificuldade de fazer isso durante um período longo de tempo que é o caso de um longa-metragem. Ao mesmo tempo, tem uma estrutura no longa que comporta isso. Por exemplo, no curta a gente acumulava muita função, eu e a Juliana, era muita coisa que a gente tinha que se preocupar. No longa tinha mais gente trabalhando, então as funções eram mais definidas e a gente podia delegar mais tarefas, a gente compartilhava as tarefas com mais pessoas e com os membros da equipe.
Esse longa, Trabalhar Cansa foi produzido pela Sara Silveiro, o tivemos de infra-estrutura permitiu que a gente trabalhasse com mais organização e mais agilidade. Na verdade, o Trabalhar Cansa foi feito com a mesma equipe dos curtas. Por exemplo, o mesmo fotografo, os mesmos atores, os mesmos técnicos de som, o mesmo montador. A gente estava entre amigos, então a sensação foi muito parecida com a dos curtas. As grandes diferenças eram na ordem de organização. É um plano de filmagem mais extenso,  é um roteiro mais extenso,  então para você ter controle sobre o ritmo da dramaturgia é um pouco mais difícil, afinal o roteiro tem 80 páginas e não 15. São diferenças técnicas , a energia investida, o estudo investido, a pesquisa, o tempo que você investe pensando no roteiro, nos ensaios. A preparação é exatamente a mesma, porque um curta demanda tanto carinho, cuidado,  investigação e trabalho quanto um longa. Na verdade, a energia é a mesma.

RUA:  Você falou que está trabalhando em outros projetos de longa. Poderia falar mais um pouco sobre eles?

MD: Eu tenho dois projetos. Estou trabalhando num projeto só meu, que só eu vou dirigir, e a Juliana vai montar, que chama Quando eu era vivo, uma adaptação de um livro, que eu estou trabalhando agora e vai ser filmado ano que vem, assim espero. E tem o meu projeto com a Juliana, co-direção de novo, que a gente não sabe ainda quando vai ser filmado. Depende do dinheiro, mas é a mesma produtora, Sara Silveira, e esse eu posso falar um pouco. Se chama As boas maneiras, e é um filme de terror e sobre maternidade também, que remete bastante aos temas de O Lençol Branco, inclusive.

*Vinicius Gobatto é graduando do curso de Imagem e Som da UFSCar e editor da RUA.

 

Author Image

RUA

RUA - Revista Universitária do Audiovisual

More Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>