O Medo do Homem Civilizado em “Trabalhar Cansa” (Marco Dutra e Juliana Rojas, 2011)

Assim como fizeram em Um Ramo e Lençol Branco, Marco Dutra e Juliana Rojas, trazem mais uma vez, o sobrenatural para uma esfera cotidiana, construindo um clima que joga com os elementos desse gênero de uma forma inesperada e que chega a causar um certo estranhamento e distanciamento no longa Trabalhar Cansa.

Entretanto, além do horror sobrenatural, quando se analisa outros aspectos do filme como, por exemplo, as relações de classes, a crise da classe média e a retirada da máscara de pacificidade que existe nessas relações, é revelado um terror mais factível, e que permeia suas personagens principais, tanto quanto, a sociedade em geral, pois eles tratam de medos reais: o mal-estar social e o conflito do homem com a civilização.

Um marido que perde o emprego de anos; a esposa que decide abrir um mercado de bairro, onde coisas estranhas acontecem e uma empregada trabalhando sem carteira assinada. Todo esse “cosmos” criado pelo roteiro, é o que favorece a exploração do quão em crise estão as relações humanas , e o quão assustador é a necessidade das pessoas em desempenhar papéis específicos na sociedade, abordando o embate das personagens na camada social (classes), doméstica, étnica, trabalhista, entre outras.

Por parte de Helena é a dificuldade de cuidar da casa, de abrir um negócio próprio e ter que trabalhar ao mesmo tempo que lida com pessoas que também estão precisando de um emprego; Já Otávio lida com a crise do homem desempregado que passa a depender da mulher para sustentar o lar, pondo em cheque o patriarcado e o bem-estar do casamento, além de ter que encarar um mercado de trabalho brutal; quanto à Paula, vemos uma moça que vai trabalhar semcarteira assinada e que aos poucos começa a sentir que está invadindo o espaço da patroa, e que não se sente confortável naquela casa de estranhos.

Mas não é apenas isso, pois outros personagens vão surgindo, e também acrescentam conflitos à trama, como a mãe da Helena, para quem Otávio quer manter as aparências e o dono do ponto do mercado que se opõe constantemente às necessidades de Helena.

Todos esses elementos se ampliam na tensão criada e favorecida pelo gênero do terror, que não está presente no filme apenas como um elemento estético, mas que se justifica por fazer uma síntese do estado psicológico desconfortável dos personagens, revelando as superstições medos da classe  média, ao mesmo tempo que nos distancia do filme, chamando atenção às discussões em pauta.

Restos de corpos em decomposição são encontrados no mercado

Restos de corpos em decomposição são encontrados no mercado

Sendo assim, é importante destacar esses elementos sobrenaturais e a  forma como o filme os constrói, já que eles são partes tão importantes do conflito gerado. E não é atoa que ele se pauta numa espécie de realidade aumentada, criada pelo inexplicável dentro do ordinário e comum, já que esse é o motor da construção do “clima”. O que quero dizer aqui, é que o terror nesse caso, não se baseia em possessões e aparições demoníacas ou algo do tipo, mas sim, em elementos que vão ajudando a criar uma esfera de tensão, fazendo o público supor que algo de errado está acontecendo, ou então, que acontecerá em breve. É algo que funciona muito mais na camada psicológica, e que muitas vezes, acabam não levando a lugar nenhum e se mantém inexplicáveis.

Ninguém sabe ao certo como a mercadoria está sumindo, porque os cachorros latem em volta do mercado, quem eram os antigos administradores do mercado, ou o homem misterioso da foto. Há toda uma mística em volta desses itens que nos fazem esperar por algo terrível, que na verdade, não chega.

Mesmo  quando  o  sobrenatural  acaba  se  materializando em algo, como  o sangue na toalha, logo sabemos que foi apenas um dente de leite perdido pela filha do casal. Já o mal-cheiro, a gosma preta vazando e a infiltração do mercado, são explicadas: algo nojento e cheio de larvas estava preso no encanamento. Ainda assim, não é possível saber com certeza de onde vieram essas coisas, e se exterminá-las, porá fim aos problemas enfrentados pelas personagens. Esses elementos, assim como a criatura fossilizada na parede, têm uma importância gráfica e que está associada ao gênero do terror, mas também representam uma concretização dos medos psicológicos das personagens: a degradação das instituições familiares e da estrutura capitalista como um todo.

Helena encontra uma toalha ensanguentada

Helena encontra uma toalha ensanguentada

É importante destacar que esse clima de terror é criado, de maneira formidável, também, pelo som, já que os silêncios criados pela trilha enfatizam alguns ruídos de goteira e outros elementos musicais.

Então, de certa forma, o filme se beneficia do conhecimento que o público tem do gênero clássico do terror e desses elementos citados, para fazer com que o espectador fique tenso, ao mesmo tempo que estranha a natureza comum do local onde elas estão situadas.

E é na cena final em que tudo isso é sintetizado: o coaching que Otávio e tantos outros homens desempregados como ele estão participando, os encoraja a “liberarem seu lado macaco”, ou seja, o animal que há em todos nós, afinal como o próprio líder da dinâmica diz: “fica com a vaga, quem grita mais”, portanto ele deixa evidente que as relações (no mercado de trabalho, e na sociedade em geral), são sim conflitantes, que a pacificidade é apenas uma lenda e que o desespero é coletivo.

O grito final de Otávio, libera toda a dor, frustração e medo que todas as personagens sentiram durante todo o filme, entretanto, sua expressão final ainda é de terror, pois o que dá mais medo, não é o sobrenatural, mas sim, a vivência do homem na civilização.

Otávio, durante uma dinâmica de coaching

Otávio, durante uma dinâmica de coaching

 

Escrito por: Lucas Nunes (graduando em Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos – UFSCar)

Referências:

  • Biliográficas:

CÁNEPA, Laura. Como pensar o horror no cinema brasileiro? Portal Brasileiro de 2012.                          Disponível            em: <http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/horror/ensaio-como-pensar-o-h orror-no-cinema-brasileiro-laura-canepa.php?indice=ensaios>. Acesso em: 20 out.. 2017;

MENDONÇA Kleber Filho: Confusão e tempestade de luz, in: O CINEMA DE GÊNERO VIVE!, Revista Filme e Cultura, Edição 61, 2014.

TRABALHAR Cansa. Direção de Juliana Rojas e Marco Dutra. Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra. 2011. (99 min.), son., color.

  • Filmográfica:

O SOM ao Redor. Direção de Kléber Mendonça. Roteiro: Kléber Mendonça. 2013. (131 min.), son., color.

UM RAMO. Direção de Juliana Rojas e Marco Dutra. Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra. São Paulo, 2007. (15 min.), son., color.