O processo do Bandido

Pedro Jorge dirigiu o curta-metragem “A Vermelha Luz do Bandido”, lançado em 2009.

Confesso que quando recebi o convite para falar sobre o processo do curta-metragem, A Vermelha Luz do Bandido, fiquei um pouco confuso. Afinal, como eu poderia dizer sobre o filme que me consumiu durante 2 anos?!

Passado o tempo, parece que fica mais fácil refletir sobre um trabalho tão amplo em possiblidades, mas limitado (ainda bem!) por se tratar de um curta-metragem. Meu grande medo desde o início que decidi fazer o filme, era que não tivesse limite e conseguisse alcançar todos os objetivos traçados desde o início.

Esse projeto começou em 2006 no 2º ano do curso de cinema da Unviersidade Anhembi Morumbi, após as aulas e longas conversas com o meu “eterno guru”, André Piero Gatti, tive um grande interesse de decupar o filme, O Bandido da Luz Vermelha, do Rogério Sganzerla. Decupar o som e a imagem do filme, ou seja, analisar montagem e o desenho sonoro que o filme apresenta, acredito que esse dois sejam os grandes elementos de vida e sustentação do filme. Isso seria uma iniciação cinetífica.

Esse projeto foi pensado e discutido muitas vezes, mas como me sentia ainda muito jovem (e confesso, um tanto perdido para essa realização), desisti de faze-lo e deixei o projeto encostado. Quando chegou 2008 no 4º ano do curso, eu queria fazer um filme, e resolvi inscrever o projeto como um documentário, mas não seria um documentário apenas, por se tratar de um filme de estrutura um pouco caótica, imaginei um documentário também apresentando essa estrutura caótica e cheia de simbologias. Foi ai que começou meu verdadeiro problema.

O projeto foi aprovado e começava ali meu desespero. A proposta era boa, como a banca analisou, mas como eu iria fazer aquilo acontecer, era um novo desafio um tanto complicado, exigiria uma bateria de estudos (leituras e assistir a diversos filmes) e além de tudo, aflorar a criatividade, o que de fato, sobre pressão, não é uma tarefa fácil de realizar.

Fui atrás de informações de como eu seria orientado, o André “Guru” Gatti já era certo, mas resolvi chamar um segundo orientador, que foi a professora Suzana Reck Miranda (hoje professora da UFSCar, que coicidência, não?!). Fui trabalhando visões diferentes com ambos, a Suzana mais séria e mais centrada, o Gatti mais anárquico e libertário, o que de fato o trabalho pedia!

Após um certo período de leituras, descobertas tanto de filmes como de formatos, veio o que eu considero como a pior parte, a escolha da equipe. Toda a turma do qual fiz parte, estava centrada nos filmes feitos em película, e o meu por ser um video, e ainda por cima um documentário sobre um outro filme do qual muitos nem se quer gostavam ou tinham assistido até o fim, a atenção e o interesse foi muito menor. Acabei chamando amigos de uma turma abaixo da minha. E eles deram o “sangue que faltava pro filme acontecer”!

Eu confesso que tive muitos problemas em alguns momentos com a equipe, mas no final, o verdadeiro culpado era eu. O filme estava todo na minha cabeça, e isso atrapalha e muito a produção do filme. A equipe tem de estar antenada e concentrada no trabalho e o fato de eu visualizar o trabalho e o resto não, atrapalhava em diversos aspectos o trabalho.

Começamos pelas entrevistas. Pensei em várias pessoas, tinha uma lista imensa de possbilidades, mas decidi separar da seguinte forma: Pessoas que fizeram o filme e estavam vivas (estamos falando de um filme que foi feito em 1968, no auge do tropicalismo, ou seja, 40 anos atrás!); Pessoas que tinham uma relação pessoal com o Rogério Sganzerla (amigos, companheiros de filmagens etc) & Pessoas que tinham uma ligação direta a obra do Rogério Sganzerla (profissionais do cinema, teóricos, críticos etc).

Acabei entrevistando 13 pessoas no total, forma eles:

– Pessoas que fizeram o filme: Júlio Calasso (Produtor), Helena Ignez (Atriz), Carlos Ebert (Fotógrafo) & Jovita Pereira Dias (Assistente de Montagem)

– Pessoas que tinham uma ligação pessoal: Ivan Cardoso (Cineasta & Amigo), Júlio Bressane (Cineasta & Amigo) & Carlos Reichenbach (Cineasta & Amigo)

– Pessoas que tinham uma relação com a obra: Eduardo Santos Mendes (Professor & Desenhista de Som), Paulo Sacramento (Montador & Cineasta), Paulinho Caruso (Cineasta), Inácio Araújo (Crítico), Jean-Claude Bernardet (Teórico & Crítico) & Samuel Paiva (Professor & Teórico)

Não consegui falar com algumas pessoas que eu tinha listado, são eles: José Mojica Marins (Amigo & Cineasta), Andrea Tonacci (Amigo & Cineasta) & José Celso Martinez Corrêa (Ator, Diretor & Amigo).

Após 20 horas de material em entrevistas, fui para o processo mais difícil, começar a ouví-las e tentar criar a partir daí um roteiro para a criação do roteiro ficcional. Esse processo não surtiu efeito.

Nas conversas com o Guru, depois de muitas feijoadas de quarta-feira no BH (boteco tradicional na esquina da Rua Augusta com a Rua Antônio Carlos, no centro de São Paulo), descobrimos o que faltava. Logo no lançamento do filme, “O Bandido da Luz Vermelha”, Sganzerla escreveu um manifesto que ficou conhecido como, “Cinema Fora da Lei”. Usei o texto de pano de fundo para um personagem (Seu Jorge) que aterrorizava uma rádio na cidade de São Paulo. Mais tarde lembrei de outro texto do Sganzerla, Pós-Bandido, que ele negava e ignorava a existência do filme. Usei esse texto como pano de fundo para um personagem (Brian Ross, que foi meu professor de direção de atores no curso de cinema) de televisão estilo Datena. Assim eu tinha um jogo de afirmações e negações das afirmações e existia um diálogo entre passado (Rádio) e presente (TV).

Confesso que além das orientações do Guru e da Suzana, a entrevista com o Jean-Claude Bernardet foi essencial para o projeto. Jean-Claude questionou e muito o minha obsessão com o Sganzerla e principalmente com o filme. Isso me motivou ainda mais a olhar e pensar a cidade de São Paulo hoje e não como foi retratada na época, e isso não se limita apenas a cidade de São Paulo e sim ao filme como um todo. Pensando na eternal frase do Sganzerla, “O Cinema Sem Limites”, busquei o Youtube como pano de fundo, para essa frase e utilizei diversas imagens que “roubei” do servidor.

Não posso deixar de mencionar o curta-metragem do Paulinho Caruso, “Alphaville 2007 D.C.”. A aproximação do filme dele, foi fundamental para que eu ficasse familiarizado com o formato do curta-metragem e não apenas com a referência direta do longa-metragem, o que provavelmente me deixaria perdido.

Após as filmagens e toda essa loucura, sentei e montei o filme. Devido o prazo de entrega (começo de dezembro), tive de me dedicar exclusivamente ao filme em período integral, foi um processo de montagem maluco, porque tinha um banco de imagens e sons caóticos o tempo todo e isso deveria ser organizado!

O filme foi entregue no prazo e no dia da banca, o mesmo foi muito bem recebido. Me formei com uma nota 10 e isso me ajudou a poder ter um ano novo mais tranquilo.

É engraçado hoje olhar para trás e ver o quanto na época eu queria que o processo do filme terminasse logo, pelo carga de responsabilidade (afinal, além de dirigir e roterizar, montei e fiz o desenho sonoro, fora toda a loucura de produção). Mas vejo que foi o filme mais prazeroso que fiz, foi literalmente um processo de criação integral. O que quero dizer é que sem a equipe presente comigo, esse filme não sairia, foi um processo coletivo, eu conduzindo, mas todos trazendo idéias e sugestões que foram ótimos pra feitura desse curta.

No começo de 2009, eu passei a mandar o curta para os festivais e demorou a entrar. Na verdade por pura inexperiência, fui mandando o filme pra todos os festivais que foram aparecendo. Não sabia que em grandes festivais como Brasília ou É Tudo Verdade, são exigidos ineditismo. Isso é algo que aconselho a todos a evitar. Sair mandando pro primeiro que aparecer é uma besteira grande, mas eu sinceramente não me arrependo. Ganhei 11 prêmios até hoje e em todos os festivais que estive presente foram experiências únicas, inclusive o primeiro festival que o filme passou (MIAU em Goiânia), venceu na categoria melhor documentário. Em seguida estive em Rotterdam na Holanda para o CameraMundo e venceu novamente como documentário. Veio o festival de Triunfo no interior de Pernambuco e recebi das mãos do Severino Dadá (um dos mais importantes montadores que temos, inclusive montador de dois grandes Sganzerla, “Nem Tudo é Verdade” e “A Linguagem de Orson Welles”) o prêmio de melhor montagem. Veio o FBCU no Rio e Janeiro e o prêmio máximo que eu sinceramente não esperava de jeito nenhum, Prêmio do Juri Popular. Fiquei embasbacado, foi uma grande emoção. Depois vieram alguns prêmios e o lado obscuro dos festivais. O curta venceu como melhor montagem e melhor trilha sonora o festival de cinema de Cabo Frio, mas até hoje não vi a cor dos troféus e tive sérios problemas com a organização. Inclusive porque um dos troféus era para ter sido entregue a um grande amigo meu que foi o resposável pela trilha Sonora. Isso é algo que ninguém diz, mas sempre leiam com atenção os regulamentos. Muitos festivais prometem muita coisa e não cumprem, o que considero uma pena, prefiro não entrar em detalhes. Depois vieram, prêmio de experimentaçnao de linguagem no Perro Loco em Goiânia, concepção sonora no Primeiro Plano em Juiz de Fora, melhor documentário no Curta-SE em Aracajú e no festival de Pelotas e 3º lugar no Festvídeo de Teresina.

O curta participou de 30 festivais até agora, continuo mandando para muitos lugares, mas recomendo a todos escolherem com cautela o festival do qual querem estreiar seus respectivos curtas. Além de prêmios, a experiência do filme e o resultado final me ajudou em diversos aspectos, trabalhei no documentário “Carta Sonora” da professora Suzana Reck em parceria com o professor Mario Cassetari, ambos meus professores na Universidade. Hoje trabalho com um diretor que admiro muito, que é o Kiko Goifman, que assistiu ao filme e gostou muito, e foi ótimo ouvir as impressões dele. Devido o contato com o músico e ator, Seu Jorge, realizei com ele um documentário sobre a última turnê do mesmo percorrendo o Brasil, que será lançado nesse ano de 2010.

Esse foi um panorama rápido da trajetória de “A Vermelha Luz do Bandido” e os frutos que pude colher com o mesmo. Espero poder encontrá-los em breve poder ver os filmes de vocês e que essa experiência aqui descrita, ajude em algo na carreira de vocês.

Gostaria de agradecer o espaço que o pessoal do RUA me deu para poder falar dissecar aqui a minha experiência!

Obs: Quem quiser conferir o trailer do curta: http://www.youtube.com/watch?v=JrIXxSFg0qg

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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